
20 abril 2007
O fim das coisas

15 abril 2007
O dia em branco

Abrir a porta da rua e dar de cara com o mundo. Apostar no imprevisível. Ganhar o mundo. É assim que se começa um dia em branco.
Os melhores dias são aqueles que se abrem à nossa frente sem nenhuma proposta, nenhum compromisso. O dia em branco nos faz apenas um convite: viva-me. E nos atiramos sem hesitação, porta a fora, mundo a fora, ao sabor do acaso dos encontros.
Flanar, esta é a única lei que o dia em branco nos impõe. Andar à deriva, deixar às próprias pernas a escolha do caminho. Dobrar uma esquina movido por um som, uma cor, um cheiro, uma lufada de ar. Parar por qualquer coisa, ou coisa alguma. Flanar é isto, uma espécie de livre-associação ambulante.
Meus melhores dias em branco aconteceram em minha juventude, no Recife, principalmente quando estava desempregado. Acordava tarde e ganhava o mundo, muitas vezes apenas com o dinheiro da passagem de ida. Já no ônibus, o dia me surpreendia. Havia sempre um detalhe do caminho que se iluminava. Ou uma cena urbana trivial ganhava um novo sentido. Dentro do ônibus mesmo, as pessoas geravam novidades.
Mais do que as paisagens, o que de melhor um dia em branco nos oferece são as pessoas. Elas servem como ponto de ligação entre os lugares. E dentre essas pessoas, os amigos sinalizam portos seguros onde descansar antes de nos jogarmos novamente na corrente do dia.
O dia em branco se nos oferece como uma folha de papel onde podemos escrever um poema ou uma lista de compras. Depende muito do que quisermos fazer dele. Como um navio que se constrói em alto-mar, em plena viagem, sua forma final dependerá da nossa perícia simultânea de navegante e armador. E somente ao seu final, quando nele pusermos nossa assinatura, o dia, já feito, revelará, enfim, o seu sentido. E não esperemos grandes revelações. O que o dia nos diz, ao seu fim, é algo simples: foi bom você ter me vivido.
09 abril 2007
Lições da tarde
08 abril 2007
Manhã de Páscoa

Este foi o mar que eu vi na manhã do Domingo de Páscoa, em Cabedelo. As nuvens mal conseguem filtrar os poucos raios do sol. Dali a pouco choverá. Refletindo o cinza azulado do céu, o mar calmo ensaia pequenas ondas perto da praia. O barco repousa calmo ao longe. E isto, em vez de paz, me dá uma fisgada de de tristeza. Pois a manhã mal começava e eu sabia muito bem o que ia acontecer dali a poucas horas. Vão chegar os homens. E com eles tudo o que de mais bárbaro foi inventado para corromper a harmonia desta manhã.
Mais que tristeza, me causa angústia saber que o meu desejo de Páscoa não pode ser realizado. Pois o meu desejo é que a beleza desta manhã avance dia a dentro até chegar às franjas da noite. E que todos os homens e mulheres do mundo possam ter um dia completo de paz.
06 abril 2007
Margini
Tra poco è Pasqua. Festa. Cercavo qualcosa di adatto all'occasione per mandare a tutti voi i miei sinceri auguri. E mi è venuta in mente una poesia d'amore, letta un pò di tempo fa in un bel blog di un poeta brasiliano, Ronaldo Monte. Siete quindi pronti a varcare i margini del sogno? Buona Pasqua a tutti. Rosella Pristerà
MARGINI
Passava un fiume tra i loro margini.
Sul margine, passava la sera.
Da margine a margine, il ponte.
Nel mezzo della sera,
nel mezzo del ponte,
improvvisamente
si toccano i margini.
Che succede, chiede lei.
Un bacio, dice lui.
Come potrebbe aver detto
: una sera.
O detto in altro modo
: un ponte.
(Ronaldo Monte, traduzione di rioro)
MARGENS
Passava um rio entre as margens deles.
À margem, passava a tarde.
De margem a margem, a ponte.
Em meio à tarde,
em meio à ponte,
súbito
tocam-se as margens.
O que é isso, ela pergunta.
Um beijo, diz ele.
Como podia ter dito
: uma tarde.
Ou dito de outro modo
: uma ponte.
29 março 2007
Zíaco e sua flor

Zíaco arrasta pelos bosques a sua enorme tristeza. Nunca, em toda a sua eterna vida, havia sentido em seu corpo a manifestação do desejo. Assim o tinha castigado Hera, pelo simples fato de ser irmão de Príapo. Ah, o feliz e adorado Príapo, filho de Afrodite e Dioniso, a quem Hera, por ciúme da capacidade de amar de Afrodite, fez nascer com os genitais enormes. Mas o castigo de Hera surtiu efeito inverso. Príapo passou a ser desejado e cultuado pelas mulheres que buscavam a fertilidade. Para consertar seu erro e vingar-se definitivamente de Afrodite, Hera destituiu totalmente de desejo o seu segundo filho, este Zíaco que erra pelos bosques.
O sofrimento de Zíaco tocou o coração das ninfas. Eco, a mais bela de todas, ela mesma vítima dos ciúmes de Hera, convocou as oréades, suas irmãs, para aquecer o coração de Zíaco. E ao ver o triste deus encolhido ao pé de um carvalho, o queixo cravado no peito, os braços pendentes sobre as pernas estiradas sobre as folhas secas, deram-se as mãos em roda e começaram a cantar e a dançar como nunca antes haviam cantado e dançado.
Primeiro são os olhos de Zíaco que se levantam para melhor ver a roda. Depois, o seu tronco começa a se deixar embalar pela cadência do canto e da dança. Logo é todo o seu corpo que dança e pula e grita no meio da roda das ninfas. E tanto dança e pula e grita, que o seu corpo todo lateja e enrubesce. E de tanto latejar e enrubescer, da parte mais em riste do seu corpo jorra um jato prateado que logo é sugado pela terra.
Para tristeza das ninfas, cumprindo o destino inverso do irmão, todo o corpo de Zíaco murcha, reduzido a quase apenas um bornal de pele vazio.
Coberta de lágrimas, é a própria Eco quem cava com as mãos uma pequena cova para o que restava do corpo de Zíaco. E mal acabara de apertar a terra com as alvas palmas, Eco e todas as oréades viram nascer do pequeno túmulo uma flor rubra como o mais forte dos vinhos. E logo compreenderam que aquela flor, a flor de Zíaco, haveria de reavivar o desejo dos homens.
Não acredites, pobre mortal, que esta flor esteja à venda em qualquer lugar deste mundo. Se precisares dela, pede às ninfas. Durante o teu sono tu as verás dançar e cantar, enquanto a flor de Zíaco brota no fundo do teu coração.
28 março 2007
A praga

O primeiro a falar foi o Presidente do Corpo de Acionistas. Você vai ter que compreender, Herr Ratz. O cargo de Diretor Presidente da nossa Corporação só pode ser ocupado por um homem casado. O produto que fornecemos é extremamente vinculado aos valores humanos mais conservadores. A nossa clientela jamais aceitaria que o nosso chairman of the board não tivesse um lar para onde voltar depois de um dia exaustivo de trabalho, onde uma mulher carinhosa e devotada o espera com o jantar quente, a cama morna.
Mas minha mulher disse que não vai. Ela detesta a Itália. O senhor sabe como são as alemãs. Ela disse que se eu for, vou só. Não me leva nem no aeroporto.
Isso é verdade, ajuntou o Secretário do Conselho. Já mandamos um emissário para sondar o assunto. Já tem até um advogado pronto para dar entrada no pedido de divórcio.
Sendo assim, retomou o Presidente, só temos uma alternativa. Arranjamos um casamento de conveniência com alguma moça decente que aceite uma soma razoável pela colaboração.
A cólera do Herr Ratz só foi contida pelo seu medo de uma expulsão sumária da Corporação. Limitou-se apenas a resmungar: um primeiro casamento pode ser uma infecção. Mas um segundo, não. Um segundo é uma praga.
25 março 2007
Inédito, diferente
A própria fé de André é que andava meio fraca. Não acreditava, por exemplo, que conseguiria chegar a tempo para a entrevista com Vilela, diretor administrativo de um jornal que lhe acenara com um bico de editor de cultura. Em decorrência disto, também não acreditava que teria o dinheiro necessário para fugir para bem longe com Rita, mulher do Vilela. Quem sabe a Professora Triana pudesse revelar o mistério que os envolvia, a ele, a Vilela e a Rita, pois o que acontecera entre eles era, de fato, um mistério.
Vilela, André e Rita. Três nomes, uma aventura e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado num desses cafundós, onde casou e juntou dinheiro. André entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que o queria médico. Mas o pai morreu e André preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público, no jornal do Governo. Ganhava-se pouco, mas em compensação trabalhava-se menos ainda, o que dava tempo de sobra a André para tecer seus versos, adular suas musas.
Depois de muitos anos e escassas notícias, toca o celular de André. É Vilela, que jogara a toga às urtigas e agora vinha para a Capital, sócio de um jornal com planos de expansão. Acabara de dar um giro pelo mundo com a mulher e agora chegava para tocar o projeto editorial. André foi esperá-los no aeroporto.
No táxi de volta, Vilela tomou o lugar da frente, junto com o motorista. Queria ver o que o tempo fizera com a sua cidade. No banco de trás, meio zonza pela estafa da viagem, Rita cochilava e de vez em quando sua cabeça tombava no ombro de André. Uma curva mais fechada jogou seu corpo todo contra os ossos do poeta. A curva se desfez, mas não se desfez a junção dos corpos. O pomo de adão em desvario, André atendia a custo à curiosidade quase infantil do amigo.
“Quereis fazer voltar para vossa companhia alguém que de vós se tenha separado?” Queria, sim. André queria de volta o calor daquele corpo, a maciez daquela mão que deslizava em sua coxa, aquele perfume que feria de morte suas ventas.
“Quereis saber alguma coisa sôbre os vossos estudos?”. Sim, André queria aprender a ser dissimulado, a ser sórdido, conseguir os favores de Rita mantendo a amizade fraterna de Vilela.
“Quereis destruir algum mal que vos perturba?” Claro. Tudo o que André queria era a destruição pura e simples do seu amigo Vilela. Desde que não fosse ele diretamente o destruidor.
“Quereis curar algum vício de embriaguês?” Sem dúvida, André estava embriagado. Viciosamente embriagado por aquela mulher que tivera próxima apenas por alguns minutos.
Quanto às “outras coisas que estiverem no seu desejo de obter”, André bem que queria um bom emprego, com um salário minimamente decente para poder ir para bem longe desta cidade com a mulher que o vitimara.
Vilela e Rita montaram apartamento e chamaram André para a inauguração. Só André que, surpreso, foi o alvo dos mimos de Rita e dos afagos de Vilela. O poeta não tinha muita certeza, mas sentia que havia uma certa disputa entre o casal. Cada qual tentava chamar mais a sua atenção. A cada poema que André recitava, Rita explodia em aplausos e Vilela desmanchava-se em elogios.
A certa hora, os dois desapareceram na cozinha, sussurraram alguma coisa e voltaram sorridentes. Vilela marcou uma entrevista com André na próxima segunda. Estava tudo arranjado. Faltava apenas acertar salário e o tempo do expediente. Disse isto, deu um grande bocejo, pediu desculpas por ter bebido um pouco demais e foi dormir.
Rita já tinha engatilhado mais uma dose de uísque e levou ela mesma o copo à boca de André. Ergueu-se um pouco e sugou o que tinha sobrado da bebida nos lábios dele, enquanto a mão disponível chamava o corpo magro do poeta para o seu. Pessoa discreta, esse André. Ninguém nunca soube o que se passou daí pra frente na sala recém inaugurada daquele apartamento.
Agora, já segunda-feira, passa da hora da entrevista e André sente-se em desespero. Se faltar, pode perder o emprego. Se for, seguramente deixará transparecer alguma coisa da qual o amigo possa desconfiar. E pior, muito pior. E se Vilela tivesse visto tudo o que se passou na sala? E se o sono fosse apenas um pretexto para confirmar o que já desconfiara desde o táxi do aeroporto? Em meio a essa agonia, toca o celular de André. Vilela. É o Vilela. Teve que se demorar num almoço, não daria tempo de estar no jornal na hora combinada. Estava meio indisposto, preferia ficar em casa. Por que André não ia pra lá, onde poderiam conversar mais à vontade?
Pronto. Vilela sabia de tudo e armara aquela cilada. Com o coração aos pulos, André leu mais uma vez o folheto da Professora Triana. Tinha nome de cigana, mas tinha vindo do Amazonas. Todo o seu material de trabalho também vinha de lá. Haveria ciganos na Amazônia? Mas isto era o que menos interessava a André. “Pois ela é a Professora das Cartomantes”, não podia ser confundida com “essas de passagem”. Tinha endereço certo e era bem ali, na esquina da rua em que André estava.
Toca novamente o celular. Já estou em casa. Como é, vem ou não vem? Ia sim. Mas foi primeiro consultar a cartomante. Não sabia que no Amazonas faziam baralhos de tarô e bolas de cristal. Mas a urgência o fez relevar os detalhes e estirar a palma da mão sob os olhos soturnos da Professora Triana. O senhor está muito assustado. Mas pode ficar sossegado que tudo vai acabar muito bem com uma pessoa que o ama muito.
O coração aliviado de André o conduziu sem pressa até a porta do apartamento do amigo. Ligeiramente afogueado pelo álcool do almoço, Vilela recebeu André com um sorriso largo, passou um dos braços pelos ombros ossudos do poeta e o levou até o quarto do casal. Temendo pelo pior, André viu um dos lados do enorme guarda-roupa totalmente vazio. A voz de Vilela era um ruído distante na cabeça que girava.
No dia da inauguração do apartamento, você deve ter notado que eu e Rita fomos ter uma conversa reservada na cozinha. Disputamos você no par-ou-ímpar. Quem tirasse par, ficava com você somente naquela noite. Quem tirasse ímpar, ficava para sempre com você. Rita tirou par. Mas depois não quis obedecer as regras do jogo. Aí tivemos uma grande briga e eu a botei pra fora de casa com tudo o que era dela. Esse lado do armário agora é seu. Esta casa toda agora é sua.
Livrando-se com dificuldade dos braços de Vilela, André disparou pela escada, achando aquilo tudo muito inédito. Muito diferente.
16 março 2007
Pedra na vidraça

Quis se aborrecer, mas desistiu. A rua lá fora estava bonita, com os raios amarelados do fim de tarde lambendo com preguiça as casas da frente. Esqueceu o não-sei-quê lá dentro, arrastou a cadeira de balanço para perto da vidraça e ficou olhando a rua, até que um cochilo disse que era noite.
E assim ficou sendo por muito tempo. Toda vez que um não-sei-quê tomava conta do seu tempo, uma pedra batia na vidraça; Ela já sabia. Era hora de ir pra janela ver a tarde passar até o cochilo trazer a noite.
Não foi diferente naquela tarde em que a pedra bateu, a tarde caiu e o cochilo entrou noite a dentro, noite a dentro, noite a dentro...
14 março 2007
Já vi esse filme

Dessa vez é pra valer. Não volto mais. E se voltar, vou impor minhas condições. Vai ter que andar na rédea curta. Nada de cinema sozinha, barzinho com amigas, reunião não sei de quê até altas noites. Psicanálise, também, nem falar. Odeio essa inveja do meu pênis. O personal training também está fora de cogitação. O cara tem quase a metade da minha idade. E tem de parar de fumar. Pelo menos no banheiro. Pelo menos sem jogar a guimba na bacia sanitária.
Dessa vez é pra valer. Pode ser até que eu volte. Mas só se ela jurar que não vai mais me obrigar a comer ricota no café da manhã e salada de alface no almoço. Se ela prometer não puxar assunto enquanto eu faço palavras cruzadas. Pelo menos deixar de começar as frases dizendo “na minha modesta opinião”. Pelo menos me deixar terminar a minha modesta opinião.
Pode ser até que eu volte. Mas só se ela telefonar pedindo. Pode até nem pedir, mas tem que ligar por um motivo qualquer, desde que deixe a entender que está com saudade. Pode até não ser saudade, mas tem que deixar claro que precisa de mim para alguma coisa. Trocar uma lâmpada, matar uma barata. Ela morre de medo de choque e de barata.
Pode até ser, mas sob certas condições. Não pode levar livro pra cama. Ver televisão no quarto, nem pensar. Não pode ter dor de cabeça por mais de três noites seguidas. Não pode virar de lado e cair pesado no sono. Também não vale acordar no meio da noite e sair de fininho para telefonar não sei pra quem. Também não pode dormir de pijama, que dá trabalho de tirar. E quando, enfim, estiver fazendo amor comigo, não pode, por hipótese nenhuma, tentar dizer meu nome. Pra não me chamar de João, Barreto, Mariano, Cláudio, ou Raoni. Meu nome é tão simples, mas ela nunca acerta. Eu me chamo André.
Dois poemas

Do lado interno das janelas
sanefas negras despejam
cortinas negras.
No meio da sala
o caixão negro
estreita o homem no seu bojo.
O terno negro
enobrece
a polidez defunta.
Longas velas bruxuleiam.
Há sol lá fora.
A morte é provisória.
prendem os mortos
nas páginas cinzentas do álbum.
O papel de seda
antecipa
o manto fosco
da memória turva.
09 março 2007
Letícia que desbotou

Acontece que tinha uma poça de lama que Letícia quis passar por cima. Deu um vôo rasante e suas perninhas espalharam a lama que sujou suas asas amarelas.
Puxa, Tixa, e agora? Se eu chegar em casa suja de lama minha mãe vai ficar furiosa. E você não sabe como é feio uma mãe borboleta furiosa. Ela vira uma fera.
Tixa, a lagartixa, nunca tinha visto uma mãe borboleta zangada. Mas não devia ser muito diferente de uma mãe lagartixa. Mãe, quando zanga, é tudo igual. Tixa teve pena de Letícia e resolveu ajuda-la. Deu uma carreira, apanhou uma pétala de flor bem macia e começou a limpar as asas de Letícia.
Acontece que, junto com a lama, a flor também tirou a cor das asas de Letícia. Aqui e ali, no meio do amarelo, apareceram umas manchas brancas, sem graça. A borboleta Letícia desbotou.
Nossa, Tixa, disse Letícia, agora é que minha mãe vai ficar furiosa. Nunca mais vou ter coragem de voltar para casa.
Esquenta não, disse Tixa. Lá no fundo do quintal mora um camaleão que é pintor. A gente vai lá, ele pinta as manchas de amarelo, fica tudo igual novamente. Sua mãe não vai nem notar.
O que elas não sabiam é que o camaleão era um pintor meio pirado, daqueles que gostam de tudo colorido. Deixa comigo, foi o que ele falou quando as duas contaram o que tinha acontecido. Pegou um monte de tubos de tinta, espalhou na paleta e começou a pintar as manchas brancas das asas de Letícia, cada uma com uma cor diferente.
Que obra de arte. Eu sou um gênio, gritou o camaleão quando terminou seu trabalho.
Letícia olhou para Tixa com os olhos arregalados. Tixa caiu na risada. Letícia teve vontade de chorar. Agora é que eu não volto mesmo pra casa.
Mas Tixa era uma amiga de verdade. Convenceu Letícia a ir até perto de casa e foi chamar a borboleta mãe que já estava preocupada com a demora da filha. Boa tarde, Dona Borboleta, falou Tixa, vim trazer um recado de sua filha. Ela quer fazer uma surpresa pra senhora. Mandou dizer que fez umas mudanças no visual e quer saber sua opinião.
Dona Borboleta ficou curiosa e acompanhou Tixa até o lugar onde estava Letícia. Foi um espanto. Letícia tremeu de medo quando viu a mãe. Mas a cara de Dona Borboleta se iluminou quando viu o colorido das asas da filha.
Que cores tão bonitas, Letícia. Quero minhas asas pintadas assim. Sempre quis ter asas coloridas, mas não tinha coragem de experimentar.
Letícia sorriu, levantou vôo e ficou girando em torno da mãe e de sua amiga Tixa. O sol já estava se pondo e seus últimos raios deixaram mais bonitas as asas de Letícia.
(Ilustração de Manuel Penha Graça)
07 março 2007
Herança

das palavras que herdei.
Das antigas e das novas.
As antigas,
gordas de sentido,
deixo-as descansar em minhas mãos
antes de lançá-las
de volta ao carrossel dos signos.
Relíquias
impregnadas de hálitos ancestrais.
As novas,
verdes de memória,
guardo no berço das mãos
até que estejam prontas
para a ciranda dos verbos.
Pontos luminosos
no discurso opaco do cotidiano.
Novas antigas palavras.
Herança e testamento
de minha breve passagem pelo mundo.
04 março 2007
Feitiço

Estava amando loucamente a namorada do amigo. Mas só até aí a coisa parecia com a música do Roberto. Não foi procurar alguém que não tenha ninguém. Queria Anita. E só ela. Mas um mínimo de vestígio moral resistia em algum canto de sua alma, como lixo debaixo do tapete. Foi esse resquício de pudor que o levou a conceber uma estratégia que fizesse Paulo acabar com o namoro. Depois, sim, atacaria.
Treinou uma voz em falsete até atingir um tom verossímel de contralto. Sentiu um pouco de frio na boca do estômago enquanto teclava o telefone. Quando o amigo atendeu, vestiu com o mais puro veludo a voz que não sabia ter dentro de si.
- Oi, Paulo. Eu sei que você não me conhece, mas sou colega de trabalho de Anita, sua namorada. Ela também não me conhece, mas eu sei muito bem o que ela faz quando sai do trabalho. Sei, porque vejo o homem que vai apanhá-la de vez em quando, no fim do expediente. É claro que não é você. Sinceramente, não sei como ela prefere um sujeito feio e baixinho a um cara bonito e forte como você. E, além de tudo, inteligente, pois eu já vi você numa roda de amigos e você era quem tinha as opiniões mais sensatas, sem ser chato. Tudo o que você dizia era temperado com um delicioso senso de humor. Aquela mulher não lhe merece, Paulo. Ela só pensa em dinheiro.
E desligou. Desligou mas sentiu que faltava alguma coisa. Faltava ouvir a voz de Paulo, saber o efeito que suas palavras tinham causado. Saber o quanto ele tinha ficado perturbado, se precisava de algum conforto depois do choque violento que por certo levara. Afinal, nada do que havia dito sobre ele era mentira. Paulo era de fato bonito, forte e inteligente. Além do mais, era sensível. Devia estar sofrendo.
Não hesitou. Temperou novamente o contralto em falsete e voltou a teclar. Além do frio na boca do estômago, sentia agora o coração em disparada.
23 fevereiro 2007
Margens
17 fevereiro 2007
Ofício

Quando o marido morreu, ela não sabia o que fazer. Pois depois que casou, ele nunca deixou que ela fizesse nada. Não podia sair, nem pra ver a família. Não podia conversar com ninguém. Até com a empregada velha que cuidava da casa ela não podia falar. Se ele pegasse, ela ia pro quarto de porta trancada a chave. Tudo que ela precisava, ele trazia da rua. Roupa, sapato, remédio. Só servia para a cama. Isso ele dizia que ela fazia bem. Mas só dizia perto do fim, enquanto gozava. Depois não tocava no assunto. Por isso, quando ele morreu e ela procurou uma coisa para ganhar a vida, foi só isso que lhe passou pela cabeça.
Daí que pegou uma tampa de caixa de sapato, tirou as bordas, fez dois furos por onde passou um cordão e pendurou na porta da casa. Lia-se em letras redondas escritas com esmalte: fode-se.
O primeiro a passar foi o padeiro. Quando leu o anúncio, empurrou a porta que não estava no trinco. Foi até a cozinha, onde ela esperava. Botou o pacote de pão ma mesa, pegou na mão dela e a conduziu para a cama.
Gozou uma vez, gozou duas e três. Levantou-se arfando, vestiu-se às pressas, saiu e trancou a porta, levando a chave no bolso.
15 fevereiro 2007
Queria ser católico

Sempre tive a maior inveja dos católicos. Principalmente dos amigos que foram para o seminário, tiveram uma educação de primeira, depois largaram a batina pelo primeiro rabo de saia que maculou seus beatíficos olhos. Sempre levei desvantagem toda vez que tive de concorrer com essa turma. Eles sabem o que é um pluralia tantum.
Mas minha inveja é mais antiga. Quando nasci, meu pai era acólito de uma Igreja Batista, em Maceió. O que significava que eu e meus irmãos éramos obrigados a ir à escola dominical que começava às nove da manhã. Imagine o que me roia por dentro quando via aquele bando de católico, de missa assistida e roupa de banho, caminhar alegremente para a praia, enquanto eu, de camisa de manga comprida, me arrastava bisonho, sabendo do calor que me esperava nas pequenas salas onde nos ensinavam a amar a Deus e aos americanos.
Pior era no carnaval. Lembro da mescla de ódio e inveja que senti quando, em pleno domingo, um desses cultores de Momo, já de antemão condenado aos infernos, disparou sua pistola contra minha imaculada camisa branca, fazendo uma mancha vermelha bem na altura do meu coração. Sangrava de raiva. Morria de inveja.
Felizmente, quando fomos para o Recife, meu pai fez uma festa ligeiramente profana nos quinze anos de minha irmã. Passaram uns irmãos pela frente da casa e foram dedurar ao pastor. No outro dia, meu pai foi convidado a se retirar do rebanho, como alternativa à vergonha da expulsão.
Uns dois anos depois, minha mãe me batizou numas Santas Missões. Mas aí eu já tinha uns treze anos e o azedume protestante já tinha feito seus estragos. Restaram apenas as lembranças de alguns hinos traduzidos dos spirituals negros e os cultos solenes de natal e ano-novo que eu trocaria muito bem pelas praias de domingo e a pândega dos dias de carnaval que só os católicos podiam ter.
14 fevereiro 2007
A tradução do mundo

Adolescente ainda, varava noites escrevendo à mesa do terraço de trás da casa de vila em Cavaleiro, subúrbio do Grande Recife. Os atabaques do terreiro de algum morro traziam para mim a pulsação do mundo. Meu trabalho de menino era, já, traduzir as pulsões do mundo humano com minhas parcas palavras, minha sintaxe precária.
Desde esse tempo me fascina a imagem de um homem ou uma mulher escrevendo noite a dentro, ilha de luz para onde convergem os sentimentos náufragos em busca de sentido.
O menino de Cavaleiro escrevia seus embriões de poemas a lápis, em qualquer papel que lhe caísse às mãos, mergulhado na noite quente e úmida do subúrbio. Hoje, o homem que conseguiu ser digita suas palavras confortado por seus livros num gabinete aconchegante. É o mesmo, porém, o fio de angústia que liga o menino ao homem. O corpo sofreu transformações: aqui e ali foi retalhado, curvou-se um pouco para a frente, pendeu um pouco para um lado. Mas o que move este corpo continua sendo a pulsação humana exigindo sua tradução em palavras.
O ser humano é um tradutor de si mesmo e do mundo que o cerca. Ele mesmo é a parte sensível do mundo a que tem acesso direto. Ao traduzir-se, traduz o mundo em sua volta. O homem fala, escreve, cozinha, pinta e borda. Seja qual for o seu trabalho criativo, sua finalidade última será sempre tentar decifrar os enigmas do mundo para não ser tragado por eles. A esfinge ainda está lá, na porta de Tebas. Ao tentar matar sua charada, adiamos a morte nas garras do monstro pluriforme.
O embate com o mundo, desde o nascimento, deixa marcas em nossa carne, traços de uma linguagem primitiva, em conflito permanente com a nossa fala articulada. Traduzir é promover o bem entre linguagens em conflito. O mal é falta de tradução.
06 fevereiro 2007
Ocaso

Já escurecia, mas Helena não acendeu as luzes da casa. Queria sentir o deslizar da tarde para dentro da noite. Ver a luz se degradar até que fizesse total escuridão. E se pudesse, ela também deslizaria com a tarde em direção a qualquer canto escuro onde se diluísse a alma exausta de luz. Não era bastante que anoitecesse. Não queria apenas deixar de ver. Queria ela mesma escurecer, anoitecer e caminhar com a noite contra a rotação da terra, singrando mares, rasgando terras, para sempre fugindo da luz.
Helena caiu antes da tarde. O telefone tocou às cinco horas. Era a voz de Augusto, apressada. Vou-me embora, ele disse, não queira saber pra onde. Se ficar aqui, posso morrer. E desligou. O corpo de Helena caiu na poltrona. A alma de Helena desceu aos infernos. Mais uma vez estava só. O homem que lhe havia aberto as portas do corpo e do mundo desembarcava de sua vida. Estavam juntos numa luta dura e difícil de vencer. Conhecer, denunciar e combater a malha de horrores que o tráfico tecia em volta deles era trabalho para muitos. E dos poucos que haviam, restaram eles dois. Havia dito a ele, ao seu Augusto, que nunca o deixaria só nessa peleja. E ele jurou que nunca a deixaria só.
Já é quase noite. Helena se levanta e percorre a sala em penumbra. Vai anoitecer. Vai mergulhar na sombra, mas não quer mais se diluir na noite. Sua alma voltará do inferno junto com a luz do dia. Helena amanhecerá.
Foto: Penumbra, Mário Godinho


