20 junho 2012

Pequenas delicadezas


           
        Quando nos viu procurando a passagem para saber o número do portão de embarque, a mulher da limpeza do aeroporto de Santiago perguntou, solícita, se tínhamos perdido alguma coisa.


Ao me ver em dificuldade para me levantar e entregar o dinheiro das passagens do microônibus, uma senhora do banco da frente apanhou o dinheiro da minha mão e entregou ao motorista.

A moça que nos acompanhava no tour pela vinícola Concha Y Toro ficou todo o tempo de olho na gente e de vez em quando pegava a nossa máquina para uma foto juntos: “Agora uma com vocês brindando...”

O recepcionista do hotel de Santiago me perguntou se eu tinha guardado o dinheiro para o táxi quando fui fechar a conta.

Ao nos ver chegar ao balcão da polícia federal, o policial do aeroporto de Santiago falou: “não precisa dizer nada. São mais dois brasileiros que perderam o formulário de imigração...” E nos atendeu sorrindo.

Quando minha mulher ia em direção ao banheiro do avião, um homem notou que o cordão de um dos seus tênis estava desamarrado. Perguntou se ela queria que ele amarrasse.

O executivo argentino foi solícito em facilitar nosso entendimento com a recepção do hotel em Montevidéu. No outro dia, conversou um pouco sobre sua vida de viajante em vários países de língua portuguesa.

Num restaurante do Mercado Central de Santiago, uma mulher brasileira, numa mesa ao lado, me ofereceu o vinho da sua garrafa quando viu que o meu havia terminado.

Há algum tempo, em Sevilha, ao nos ver olhando para o interior de um pátio tipicamente mourisco, um homem nos incentivou aos gritos: “Entra, entra que és mui belo”.

São cenas simples como estas que me asseguram a existência da delicadeza em qualquer canto do mundo. Por mais que alguns mal intencionados queiram nos fazer temer a proximidade de pessoas de lugares diferentes do nosso, um simples passeio pelas ruas nos mostra o contrário. As pessoas querem nos conhecer, querem nos ajudar e mostrar que, acima de nossas diferenças de lugares, línguas e classes, é possível construir pontes de delicadeza e solidariedade.

Ilustração obtida em: cafeentreamigos.com

09 junho 2012

Trêmula borboleta

 Trêmula e cambaleante, levantou-se com o prato de quibe de forno seguro pelas duas mãos, o que a impedia de evitar que a manta xadrez arrastasse no chão, por mais que tentasse segurá-la com os ombros levantados até o pescoço.


Já livre do quibe, protegeu-se com o cachecol e petrificou-se com a lufada fria que assaltou a cozinha quando abriu a porta para o pequeno quintal lajeado.


Precisou esperar que a vista se acostumasse ao escuro para notar o corpo estendido sobre o limo das lajotas no ângulo esquerdo do quintal. Seria um homem, se não fossem as grandes asas abertas ensopadas da chuva que caiu durante toda a tarde.


Tremeu e cambaleou até a gaveta da petisqueira de onde tirou uma vela e uma caixa de fósforos. Acendeu a vela e voltou para o quintal. Debruçou-se sobre o corpo alado e a mão trêmula deixou cair um pingo de cera sobre o peito do estranho visitante. Dois olhos cinzentos recém abertos pousaram no pulso iluminado pela vela. Ali estava tatuada uma minúscula borboleta.


Você de novo, meu amor?disse o alado, é a segunda vez que você me acorda com um pingo de cera. E fez menção de segurá-la pelo braço. Mas ela fugiu arrastando a manta pelas lajotas molhadas até trancar-se na cozinha. E ali ficou, trêmula, ouvindo os passos cambaleantes que alcançaram a porta. E mais tremeu quando, depois das pancadas na porta, ouviu uma voz estranha, estrangeira, gritar: Psiché... Psiché...

(Escrito em parceria com Marina e Carolina, em Moema, Cidade de São Paulo).

03 junho 2012

Querida Evalúcia



Agradeço de todo o coração a sua amável cartinha em que me inclui na lista dos privilegiados que em breve vão ficar ricos. A sua Proposta de Trabalho Independente em Casa é irrecusável. Você me promete uma ajuda de custo inicial de 500 reais e depois me acena com a possibilidade de ganhar um notebook. Se eu me empenhar no trabalho, posso até ganhar uma ajuda de 1.200 reais além da possibilidade de alcançar uma situação financeira estável e segura.

Só o que eu não entendi, querida amiga, é porque eu tenho que pagar R$ 99,90 (cem reais, na realidade) para receber o material inicial de trabalho e treinamento. Se a tal de Cintra e Rezende Consultoria em Recursos Humanos Ltda. me oferece tantas vantagens assim, por que diabos ela precisa desse meu dinheiro? Nenhuma empresa em que trabalhei me pediu qualquer quantia pelo material de trabalho ou treinamento necessários ao desempenho das minhas funções.

Deixa ver se entendo bem: você me escreve do Piauí em nome de uma empresa que tem sede na cidade de Franca, em São Paulo. Se o trabalho que vocês me propõem é o envio de mala-direta, eu tenho todo o direito de pensar que o trabalho seja exatamente este que você fez: mandar malas-diretas para o maior número possível de pessoas, na esperança de que algum otário acredite nas suas promessas de enriquecimento e pague o boleto de cobrança com a primeira parcela da inscrição.

Minha querida Evalúcia: se é que você realmente existe e não seja apenas mais um engodo dessa tal Cintra e Rezende, use a sua letra redonda e elegante de professora primária para fins mais construtivos. Arranjar um namorado, por exemplo. E se você continuar insistindo em rastrear os incautos para esta arapuca, lembre-se que o inferno é muitíssimo mais quente do que a sua querida Curimatá, no Piauí. E que o diabo reserva castigos especiais para quem tenta ser mais esperto do que ele.

Foto: Ivan de Paula

30 maio 2012

Vida


Minha neta mais velha, de quatro anos, está doida para aprender a ler. Anda com um livro de astrologia debaixo do braço e diz que é o seu livro de poemas. Abriu o livro e me pediu para ler “Menina de noite”, um poema que fiz quando ela nasceu. Não sabia o poema de cor e disse que ele não estava naquele livro. Então ela me pediu para ler outro poema que estivesse ali. Tentei sair da situação lendo uma palavra de cada linha, tecendo um poema meio absurdo que às vezes fazia algum sentido. A coisa ia caminhando bem até ela me interromper, querendo saber o que significava a última palavra que tinha lido. Uma palavra simples, de apenas quatro letras e que usamos a torto e a direito: vida.

Em minhas muitas décadas de prática didática, nunca tive tanta dificuldade em explicar o significado de uma palavra. Se você duvida, tente traduzir para uma criança de quatro anos o que o dicionário diz sobre este pequeno substantivo: “Conjunto de propriedades e qualidades graças às quais animais e plantas, ao contrário dos organismos mortos ou da matéria bruta, se mantêm em contínua atividade, manifestada em funções orgânicas tais como o metabolismo, o crescimento, a reação a estímulos, a adaptação ao meio, a reprodução, e outras.”

Depois de várias tentativas infrutíferas, disse, com um certo temor de amedrontá-la, que quem não está vivo, está morto. Foi apenas quando a expressão de minha neta revelou que ela tinha se dado por satisfeita.
É claro que o termo pode significar muitas coisas. Podemos dizer que aquela moça é cheia de vida, reclamar que a vida é dura, que acabou a vida útil da bateria do celular, que a minha vida era um palco iluminado. Mas nada pode nos dar um sentido mais claro da vida do que quando pensamos nela como o período que vai do nascimento até a morte.  No final de tudo, vale apenas o poema que conseguirmos escrever com as palavras ofertadas a cada dia nas linhas tortas da nossa existência.

23 maio 2012

Posso ajudar?


Não adianta comprar montanhas de livros, assistir centenas de palestras, ler milhares de mensagens na internet. A auto-ajuda não funciona. Por uma questão muito simples: desde o momento em que nasce, o ser humano precisa do outro para sobreviver.

Um potro, ou um bezerro, quando nasce, levanta-se imediatamente e vai em direção ao peito da mãe fazer a sua primeira refeição. Você, cara leitora, caro leitor, se for deixado sozinho no lugar em que nasceu, a única coisa que será capaz de fazer é chorar até morrer. Por muito tempo você vai precisar de alguém, de preferência sua mãe, para pegar você e botar para mamar.

O que eu quero deixar claro é que todos nós, sem exceção, somos desamparados desde o berço até o leito de morte. A auto-suficiência humana é uma ilusão bastante conhecida como narcisismo. Não podemos, portanto, prescindir dos outros em nenhum momento de nossas vidas.

Se você já abriu um livro de auto-ajuda, deve ter reparado como as receitas de felicidade são simples e fáceis de encontrar, como qualquer produto vendido nos supermercados. A simplicidade das frases tem um objetivo definido: nos colocar num nível de infantilidade para então exercer um fascínio que nos enreda em suas teias, como um sedutor de menores. Isto causa uma dependência que faz com que o leitor, mesmo depois de constatar que a fórmula mágica não funciona, parta em busca de outro embusteiro, como um viciado que precisa sempre de uma dose mais forte da droga da qual depende.

Ajudar é um verbo transitivo. Requer uma segunda pessoa que ajude ou receba ajuda. Para isto existem os amigos, os familiares, os colegas de classe e de profissão. Para isto existem os vizinhos, os que visitam nossas casas, nossas cidades. Para isto existe a humanidade inteira, este bando imenso de desamparados à espera de um movimento global de solidariedade que nos resgate a todos da solidão e da miséria.

16 maio 2012

O planeta Melancolia


O filme é meio chato, mas não podia ser diferente. O Título é “Melancolia”. Conta, em duas partes, os últimos momentos de vida de uma família rica e complicada antes de um planeta chamado Melancolia se chocar contra a Terra.

A primeira parte do filme mostra a festa de casamento de Justine e a sua grande dificuldade em suportar a felicidade obrigatória que se espera de uma noiva. A segunda parte mostra os dias posteriores ao desastre do casamento, em que Justine e sua irmã esperam a colisão catastrófica dos planetas.

Não posso negar que o filme me deixou melancólico. Afinal, esse deve ter sido o propósito do diretor dinamarquês Lars von Trier. E foi exatamente por ter ido dormir envolvido pela melancolia que tive, naquele estado intermediário entre a vigília e o sono, a minha própria fantasia melancólica. Me vi sair voando do solo em direção ao tal planeta, meu corpo diminuindo à distância até desaparecer na sua superfície.

Ora, esta visão figurava o sentido oposto ao movimento de aproximação do planeta. Era eu que era sugado por ele. Era o meu ínfimo corpo que se perdia de encontro ao seu corpo imenso. Quando acordei, a imagem ainda estava nítida na memória e me acompanhou por todo o dia.

Ainda agora, pensando nela, acho que encontrei a minha própria definição de melancolia. Mesmo que sintamos o terror melancólico como vindo do exterior (por detrás do sol, como o planeta), este terror está dentro de nós mesmos. E o que o melancólico mais teme é que a sua alma seja sugada por esse corpo estranho que nos ameaça dentro de nós.

O planeta Melancolia é uma metáfora desse mundo ameaçador que cada um carrega dentro de si. Na verdade, não é um mundo externo tenebroso que ameaça a nossa existência. É um mundo interior que não tem nome, que nos chama e nos arrasta para os confins desconhecidos de nossa própria alma.

09 maio 2012

Lembrar, esquecer



Certa vez eu estava iniciando um trabalho de grupo numa empresa pública e pedi que todos os membros se apresentassem. No fim das apresentações, um coronel reformado, que não sei o que estava fazendo ali, repetiu o nome de cada um dos participantes. Depois, me olhou com um ar de desafio e foi embora.

Pode ser que o tal coronel precisasse saber de cor o nome dos presentes em caso de uma eventual anormalidade, pois os tempos eram de suspeita e delação. Memorizar para delatar, talvez esta seja uma das poucas utilidades da memória fotográfica. Fora isso, sempre achei de uma enorme inutilidade certos malabarismos com a memória.

Decorar, saber de cor, é guardar memórias no coração. Para mim, só essas lembranças têm valor. Tudo aquilo que ficou gravado a fogo em nossa carne. Aquilo que até hoje nos move, comove, emociona.

O que o coração não guardou, é naturalmente esquecido. Esquecer é tão importante quanto lembrar. Imagine se eu não pudesse esquecer os nomes de todos os alunos que passaram pelos meus cursos em mais de trinta anos de docência. Imagine se eu me lembrasse de todas as palavras de todos os livros que li até agora. Imagine se eu tivesse que ficar remoendo todas as desfeitas, todas as ofensas que me fizeram em toda minha vida.

Tem gente que diz que perdoa, mas não esquece. Se não esqueceu, é porque não perdoou. Aí a pessoa fica refém do ressentimento, que quer dizer exatamente re-sentir, sentir de novo, sempre.

É claro que não é saudável esquecer as injustiças, as dívidas históricas com as minorias, os desmandos, as falcatruas com o dinheiro público, os privilégios e a impunidade. Não proponho que nos tornemos um bando de dementes desmemoriados. Só defendo que aceitemos o jogo de esconder que a memória nos propõe. E deixemos o espaço livre para as novas impressões que a vida nos oferece a todo instante.


Ilustração obtida em: dominiodavida.blog.br

02 maio 2012

Boa seca



“Seca boa foi a de 79. Ali eu ganhei dinheiro.” Ouvi esta pérola de canalhice da boca de um político que na época era prefeito de uma cidade do sertão da Paraíba. Ele se referia às facilidades de desvio de dinheiro público com a dispensa de licitações e outras falcatruas permitidas pela decretação do estado de calamidade pública nos municípios flagelados. Esta seca durou cinco anos, atingiu 1,4 milhão de km² e matou mais de três milhões de nordestinos, a maioria crianças desnutridas. Seca boa. Muita gente ganhou muito dinheiro.

Tinha aproximadamente dez anos quando me sentei frente a uma reportagem sobre a seca na revista “O Cruzeiro” e cometi o meu primeiro poema. Foi a primeira e última vez que me emocionei com aquelas fotos marrons de gado morto, terra calcinada e famílias de retirantes marchando entre mandacarus. Não demorei a ver que a cada seca as cenas eram as mesmas, as mesmas queixas e os mesmos bordões sob as fotos rotineiras. Com o tempo, as fotografias coloridas das revistas fizeram tudo parecer mais dramático, mas a repetição das cenas cuidou mais uma vez de banalizar o espetáculo em tecnicolor.

Depois de 55 anos, vejo-me ainda bombardeado pelas mesmas cenas com que a tecnologia HDTV tenta me sensibilizar. Mais uma vez, centenas de cidades do sertão decretam estado de calamidade pública, governadores correm com o pires em busca de ajuda federal e a benevolência presidencial libera recursos emergenciais para combater os populares efeitos da estiagem.

Gente, a primeira seca de que se tem notícia aconteceu entre 1580 e 1583. E os primeiros retirantes foram os cinco mil índios que deixaram o sertão em busca de comida. Cerca de 500 mil pessoas, metade da população do semi-árido nordestino, morreram na seca de 1877, a famosa Setentinha.

Se o leitor está se perguntando, como eu, porque ainda não se resolveu o problema de convivência com a estiagem, a resposta deve estar na boca do antigo prefeito paraibano: toda seca é boa. Ganha-se muito dinheiro.

25 abril 2012

Lições da tarde


Tenho pena dos homens que perderam suas tardes. Tenho pena de mim, que sou pobre de tardes, tentando salvar algumas delas das salas fechadas em que trabalho. Quero-as de volta, uma a uma, para com elas aprender as eternas lições do tempo.

Aprendo com a tarde que o mais longo dos dias entregará sua luz à penumbra. Não adianta, nem vale a pena, querer retardar o passar do tempo. Inútil negar a lenta invasão das sombras com as luzes atemporais dos shoppings e escritórios. A tarde sempre cairá.

Por mais árduo que seja o dia, a tarde sempre nos espera com uma promessa de descanso. Pagamos um preço alto por não atender a este chamado. Nos lugares em que ainda existem árvores, vemos o recolher das aves assim que o sol começa o seu declínio. Os únicos bichos que não voltam de tarde para casa somos nós, que trocamos o tempo por dinheiro. E vendemos a tarde por tão pouco.

Ainda existem lugares em que as pessoas levam suas cadeiras para a calçada e ficam esperando a tarde findar. Ficam ali, incrustadas no tempo, passando com o tempo, sem resistir a ele. Sabem que dali a pouco será noite e a noite será bem-vinda, pois marcará o fim de mais um ciclo de luz e sombra. O fim é sombra.

Talvez seja o medo do escuro que nos faça melancólicos ao fim da tarde. Talvez seja o medo da morte que nos faz sentir medo da noite. Talvez seja a incerteza de que depois da noite volte a amanhecer. Temos medo de ser despejados do ciclo das noites e dos dias.

A tarde existe para nos ensinar a deslizar entre o claro e o escuro. É a mestra que nos prepara pacientemente para pisar o terreno estrangeiro do sono e por lá encontrar o que temos de mais íntimo e estranho.

A tarde me ensina a arte do silêncio e da espera. E, mais que isto, me ensina a lição da entrega ao escuro que carrego dentro de mim.

Foto: Ana Patrícia

17 abril 2012

Voltando à vida



Os cegos nos causam compaixão pelo tanto de beleza que supomos que lhes escapa. Os surdos mudos nos põem nos limites da nossa própria incomunicabilidade. Nada sabemos das pessoas que despossuem o tato. Mas existem dois sentidos que vez por outra nos privamos deles, o que nos faz perder, por um tempo, a graça de viver. Estou falando do olfato e do paladar, dois bens que nos fogem tão logo nos assola uma gripe bem fornida.

Já tive em casa uma cozinheira que não tinha olfato. Não sei se ela também não tinha paladar. Mas ficava muito intrigado em saber como ela acertava nos temperos. Ninguém até hoje conseguiu fazer uma fritura como ela.

Não sei nada a respeito das pessoas que não têm olfato ou paladar. Não sei nem se existe uma nomenclatura específica para estas patologias e estou com preguiça de consultar a wikipedia. Mas sei muito bem a falta que fazem estes sentidos. Estou gripado há mais de uma semana.

Não existe nada mais irritante do que você por uma fruta na boca e não sentir o seu sabor. Comer uma pizza tem a mesma graça que mastigar um papelão. Um gole de vinho equivale a um copo de água morna.

Quanto aos cheiros, parece que o mundo perdeu o viço, a natureza abandonou o cio. O caldeirão, que antes anunciava o feijão gordo dos sábados, fumega sem que a boca nos afogue de saliva. Perdem-se os cheiros doces da noite, inúteis os jasmins e as roseiras.

Mas, como já disse, minha gripe já passa de uma semana. Agora mesmo estou tomando um vinho e já descubro o grau do seu tanino. Pude sentir uma pequena diferença entre os sabores das frutas do café da manhã. Aos poucos, a vida vai voltando ao paladar e ao olfato. E mesmo que a idade já me leve um pouco da audição e um muito da visão, sou grato à vida por voltar pra mim com seus cheiros e suas catingas, com seus doces e seus amargos.

10 abril 2012

Quero Bromil



É o xarope dos poetas. Foi Olavo Bilac quem o chamou de “amigo do peito”. Depois, Bastos Tigre escreveu As Bromilíadas, uma paródia de “Os Lusíadas”, em métrica e sistema de rimas semelhantes aos de Camões. O próprio dono do laboratório era poeta. Como poeta, mesmo dos menores, tenho o direito de tomar Bromil.

Mas não é ao Bromil de rótulo desvirtuado que encontro hoje nas farmácias que estou me referindo. O que eu quero mesmo é o Bromil de antigamente, aquele que vinha numa garrafinha fina, sextavada, embrulhada em papel de seda, que depois se usava para botar molho de pimenta. Quero o Bromil que minha mãe trazia nas longas noites de tosse e acessos de asma. Quero o gosto mentolado do Bromil na minha boca e a sensação do peito livre da angústia e do chiado. Quero a reconquista do sono depois do beijo tardio de boa noite. Quero o peso nos olhos e o quarto se desmanchando em sonhos.

Quero as velhas gripes e os antigos resfriados que todo mundo sabia diagnosticar. Um resfriado era um certo mal estar que lhe deixava o nariz escorrendo e com um pouco de tosse. Uma gripe era coisa mais séria. O corpo doía e você passava o dia de meias. Era ridículo, mas tinha o privilégio de não ir à escola. Em ambos os casos, era proibido beber gelado ou tomar picolé. Hoje em dia só existe essa hipotética virose que passou a nomear qualquer coisa que os médicos não sabem o que é.

Tenho uma mulher cuidadosa que me dá remédios, tenho uma amiga médica que me cura as mazelas, tenho duas filhas e um filho que se preocupam com a minha saúde, mas nada disso é capaz de me confortar no estado de desamparo a que uma gripe me condena. O menino velho que tosse e geme espera o único e impossível gesto que o salvará: uma colher do antigo xarope levado à boca pela mão antiga que depois afagará sua cabeça e o fará dormir.

02 abril 2012

Derivas


Os judeus celebram a Páscoa em memória da libertação da escravidão no Egito. Os cristãos comemoram a passagem para o novo tempo que a ressurreição do cristo anuncia. Liberdade, renovação. Que sentido fazem estas palavras fora do seu contexto estritamente religioso e litúrgico?
Um olhar mais atento sobre o mundo nos mostrará que a única liberdade visível é a que se anuncia como liberalidade do mercado. E todos sabemos o quanto isto tem acentuado a desigualdade entre os países e aprofundado a distância entre as classes. Quanto à renovação, ela se dá do ponto de vista estrito das mercadorias, o que nos empurra para um processo alucinado de consumo.
A humanidade ainda não conheceu a Páscoa. Somos todos errantes. Vivemos à deriva num deserto ético em que só os sistemas religiosos parecem apontar alguma salvação. E nisto reside a nossa miséria e nossa esperança. Miséria, porque todo o nosso percurso histórico ainda não conseguiu prover a humanidade dos instrumentos tecnológicos e ideológicos necessários a uma convivência de bonança e harmonia. Esperança, porque alguns desses sistemas religiosos apontam para certas saídas éticas que contemplam uma convivência na diversidade.
Judeus ou cristãos, muçulmanos ou budistas, pagãos ou ateus, nenhum de nós conheceu ainda a liberdade ou a renovação. Vivemos todos ainda à espera de uma Páscoa que nos resgate a todos deste êxodo em que ainda não vislumbramos nenhuma terra prometida. E enquanto esperamos a Páscoa, reconheçamo-nos humildemente como seres de incertezas e derivas. Que a humildade seja o nosso único ponto em comum. No mais, cada um que derive a seu modo.
O cuidado maior, enquanto derivamos, é não dar ouvidos aos que apregoam suas crenças como caminhos exclusivos para a salvação. Todos temos o direito de escolher se e como queremos ser salvos.

Ilustração :"Le Radeau de la Méduse", de Théodore Géricault (1791-1824).

27 março 2012

Eu, o quase assassino




Ela tem algo de perverso que a leva sempre a repetir os mesmos erros. Ela não respeita os meus espaços, os meus objetos, os meus estados de humor. Ela está sempre onde não deve, fazendo tudo errado, criando problemas com os vizinhos, exasperando os habitantes da casa. Ela é, literalmente, uma cachorra. Tem seis meses de idade e atende pelo nome de Choquita. Já estava aqui em casa, quando vim morar em Cabedelo. Pertence à minha neta e eu não tenho nada a ver com isso.

Na verdade, não tinha nada a ver, pois agora metade do meu tempo é gasta em assistir aos seus malfeitos. A outra metade é gasta para repará-los.

Por conta de uma reforminha que andei fazendo (a última, juro), uma escada externa ficou temporariamente desprovida da proteção lateral. Uma noite, sozinho no terraço, ouço ruídos no telhado. Fiquei com medo de algum ladrão à moda antiga, desses que ainda pulam muro para roubar galinhas. Fui ver, era a dita Choquita que passeava alegremente pelas telhas. Não satisfeita, pulou para cima da casa ao lado, o que me fez, pela manhã, ir pedir desculpas aos vizinhos assustados.

Atualmente, nossas relações estão seriamente abaladas. Gastei tempo, dinheiro e muito esforço para limpar, pintar e cultivar uma pequena jardineira que instalei embaixo da janela do quarto. Cansado do esforço, fui descansar, orgulhoso do trabalho bem feito. A tarde já caía quando saí do quarto para contemplar a obra. O leitor já deve ter adivinhado o que aconteceu: a cachorra, a grandessíssima filha de uma cachorra, havia cavado a terra da jardineira e arrancado as mudas que eu plantara. Claro que eu perdi os meus parcos vernizes pacifistas e parti com toda a ignorância para cima da malfeitora.

Dois dias depois, passada a raiva, reconduzido à minha serenidade civilizada, estou mais uma vez no quarto quando escuto minha mulher dar uma bronca homérica na tal Choquita. Adivinhei o que tinha acontecido e não me atrevi a sair do quarto. A razão dessa vez falou mais alto e impediu que me transformasse num assassino.

Imagem obtida em: http://minhaaruanda.blogspot.com.br

20 março 2012

Falta e presença de Rosa Godoy


Conheci a Professora Rosa Godoy nos tempos de luta do movimento docente da UFPB contra o arbítrio da ditadura militar. Eram muitas as vozes que se faziam ouvir em defesa da autonomia universitária e do restabelecimento do estado de direito. Mas quando chegava a vez da reflexão histórica no contexto das análises de conjuntura, era a voz da Professora Rosa Godoy que se impunha.
Estivemos juntos mais uma vez como membros da equipe do Professor Neroaldo Pontes na Reitoria da UFPB. Ela foi pró-reitora de pós-graduação e soube dar a dimensão exata dos nossos objetivos quanto à pesquisa e à formação do quadro docente.
Cidadã em tempo integral, mesmo nos momentos da boa camaradagem entre os mais íntimos, seu pensamento não perdia o prumo do argumento certeiro e demolidor. Nas reuniões de trabalho, todos esperávamos o momento em que ela tiraria a bic do canto da boca para disparar sua opinião justa e apropriada.     
Agora, a Professora Rosa Godoy deixa a cidade de João Pessoa, de volta a São Paulo, seu estado de origem. Vai retomar de uma vez os “erres” caipiras que as décadas paraibanas não conseguiram eliminar. Não sei os motivos que a levam embora. Mas tenho a certeza de que é uma decisão pensada com cuidado, como todas as outras que ela tomou em sua vida.
Vamos sentir sua falta, Professora. Mas com o mesmo peso, continuaremos a sentir sua presença. Aqui ficam os muitos discípulos que você forjou com o rigor do seu pensamento. Ficam também os muitos amigos que você cultivou com a sua generosidade. Sobretudo, fica para sempre na UFPB e em toda a cidade de João Pessoa a marca da sua palavra exata contra os desmandos e desvarios dos eternos inimigos da cidadania e do bem-estar coletivo.  

11 março 2012

Pessimismo



Algumas pessoas reclamaram do meu pessimismo quanto ao futuro do meu neto João. Acontece que meu pessimismo é congênito. Nasci assim. Mas exatamente por ser assim é que cultivo a esperança, como quem cuida de uma flor rara numa estufa. Vivo procurando motivos para manter uma mínima crença de que o ser humano algum dia venha a mudar sua índole fundada na maldade.
Não é por acaso que as notícias sobre o mal são facilmente aceitas, mesmo procuradas pela grande maioria das pessoas. O feio, o mórbido, o violento recebem tratamento diferenciado nos meios de comunicação, resultando numa via de mão dupla de alimentação: mais notícias ruins, maior audiência. Maior audiência, mais notícias ruins. E se não fizermos um esforço de reação, acabaremos, mesmo os mais lúcidos, envolvidos nesta gosma midiática de pornografia e violência.
De minha parte, este esforço se traduz em resistir à naturalidade do mal com a construção de certos artifícios racionais como a solidariedade, a compaixão e a esperança. Falo de artifícios, pois esses atributos não são congênitos. Eles têm de ser construídos no cotidiano de nossas relações. Todos sabemos o quanto é difícil manter a boa vontade em um meio competitivo e desagregador. Daí que, em boa parte as vezes, somos vencidos pela corrente majoritária do mal. Mas é preciso perseverar.
Não estou propondo que saiamos polianamente tirando lições de otimismo das adversidades. Como o menino de quem ninguém gostava que, ao ganhar uma caixa cheia de excrementos como presente de aniversário, gritou exultante: ganhei um cavalo...
Não é este o tipo de otimismo que desejo para o meu neto João, nem para ninguém. No pouco tempo em que convivermos neste planeta, gostaria que ele aprendesse um pouco dessa teimosia em cultivar numa estufa precária essa flor improvável da esperança. 

06 março 2012

Outras vidas



Certo dia, num encontro festivo, me pediram para falar sobre os amigos e eu disse que os amigos serviam para que a gente pudesse viver simultaneamente outras vidas. E o que eu disse sobre os amigos, repito agora em relação aos livros. Penso nisto porque acabei de ler um dos livros mais belos que já me caíram nas mãos. Chama-se “A trégua”, escrito pelo uruguaio Mario Benedetti.

Fazia tempo que um livro não me puxava para dentro dele e me arrastava sofregamente da primeira à última pagina. Uma história aparentemente simples de um viúvo prestes a se aposentar que se apaixona por uma colega de trabalho com idade de ser sua filha. Acontece que esta história banal é escrita por um dos maiores escritores latino-americanos. E a cada linha do texto somos levados a experimentar certos sentimentos que aparentemente não são nossos, a sentir certas saudades, conviver com um mal-estar que não desconfiávamos existir dentro de nós.

Não concordo com certos escritores quando afirmam que a literatura não serve pra nada. Ela pode não ter valor quando se propõe como mercadoria ou instrumento de persuasão ideológica. Mas a boa literatura tem o poder de nos fazer viver outras vidas, habitar outros mundos, existir em outras eras.

Quando olho de frente para as estantes de uma biblioteca, entro numa espécie de transe, pois me sinto tentado a experimentar de uma só vez todas as possibilidades de existência que cada um daqueles livros me propõe. Os que já conheço, me convidam para uma visitinha para rever alguma cena, ouvir de novo as antigas conversas. Os que não conheço, exigem que os tome nas mãos e os folheie. Querem se exibir, mostrar suas paisagens, me impor novas palavras, me sujeitar a novos sentimentos.

A única solidão saudável é aquela que vivemos num canto com um livro. E a melhor coisa a fazer em seguida é procurar os amigos para falar de mais essa vida que acabamos de viver.

28 fevereiro 2012

O bom e o mau


 

            Esta é uma história de amigos e do que se pode esperar deles. Eu e Barreto estávamos editando o primeiro livro de poemas de Waldir. Para quem não sabe, Barreto era o nome de guerra de Geraldo Maciel. Eu disse era porque ambos, Barreto e Geraldo Maciel, cismaram de sumir de nossas vistas inesperadamente. Waldir continua sendo o competente Dr. Waldir Pedrosa Amorim.
         Estávamos os três no escritório da casa de Barreto dando os últimos retoques na capa do livro de Waldir. As nossas mulheres certamente falavam mal da gente lá pra dentro e um uísque honesto cuidava de manter o tom fraterno da conversa. Fraterno até demais, pois os dois gastaram um bom tempo louvando minhas qualidades, que eu era generoso, disponível, um bom escritor e outras coisas do gênero. Mesmo que não concordasse plenamente com alguns dos elogios, sorria num misto de satisfação e falsa modéstia.
         Aconteceu que o uísque aumentou o calor do escritório (o condicionador de ar estava quebrado) e resolvemos continuar a conversa no terraço. Aí não foi só o lugar da conversa que mudou. Mudou radicalmente a opinião dos dois sobre mim. De repente eu me vi classificado de irônico, gozador, mal humorado e outros epítetos do gênero. Nem o famoso Dr. Jekyll se transformava tão rapidamente no monstruoso Mr. Hyde.
            Quando vi que o repertório dos meus atributos negativos estava superando a lista dos elogios, resolvi interromper a fuzilaria sugerindo que voltássemos ao escritório. Apesar do calor, lá dentro eu era um sujeito bem melhor do que aquele do terraço.   
            Claro que os dois não concordaram e eu só fui salvo da fogueira inquisitória porque vieram avisar que a água do macarrão estava fervendo e cabia a Barreto, famoso pelos seus dotes culinários, calcular o tempo do macarrão ao dente.
         Todos à mesa, aberto o vinho, brindamos ao nosso encontro fraterno. E eu bebi e comi como um frade, feliz com o que ouvi a meu respeito na primeira parte da conversa.  

21 fevereiro 2012

Um mundo para João



João nasceu em plena noite do domingo de carnaval. Chegou saudado pelos tambores dos maracatus do Recife, dos afoxés da Bahia e das escolas do Rio. Nasceu imerso na folia sazonal que assola este País, quando uma amnésia coletiva empurra nossas eternas mazelas para o mês de março.
João nasceu num momento em que uma euforia mal-fundada comemora a maioridade econômica do País, elevado à sexta economia do mundo. E aqui começam os problemas de João.
Ele não sabe ainda, mas escolheu um momento muito complicado para nascer. Já faz tempo que um certo mal-estar avisa a seus pais, tios e avós que alguma coisa muito séria vem acontecendo. Ninguém está dormindo bem. Uma insegurança generalizada em relação ao futuro nos leva a mudanças bruscas de humor.
Não se pode confiar na velha regularidade das estações. A chuva inunda cidades, enquanto o sol racha as terras com tradição de fertilidade. A morte dos nossos semelhantes tornou-se uma coisa banal. Cada vez menos somos comovidos pelo sofrimento dos nossos vizinhos, morem eles em outro continente, num país próximo ou na casa ao lado.
Não quero assustar João enquanto ele mama no seio da mãe ou é embalado pelo pai. Não vou falar dessas coisas enquanto agita os braços ou ensaia um sorriso para a irmã. Tenho vergonha de mostrar a ele um planeta ferido de morte pela nossa ganância. Quando João souber que temos tecnologia suficiente para acabar com a fome do mundo e preferimos usá-la para destruir a vida dos nossos semelhantes, certamente vai ficar com raiva de nós. Por isso, peço desculpas ao meu neto João.
E ao mesmo tempo nutro a esperança de que os Joões e Marias recém nascidos saberão construir um mundo melhor com os entulhos do mundo que entregamos a eles. Um mundo que mereça ser saudado pelos tambores de todas as tribos, de todas as nações.


12 fevereiro 2012

Resumo das manhãs



 Nossos pés descalços na praia descalça caminham esta manhã que mal começa e já nos deu tudo o que pode uma manhã. Um azul luminoso, um vento generoso e um espelho de mar ávido de horizontes. As casas ainda sonolentas jorram pessoas sonolentas em busca dos mais diversos destinos. Mas nossos passos andam alheios a qualquer destino. Tudo o que temos a decidir é o momento da meia volta que nos mostrará o lado da manhã que se ensaia às nossas costas. Pouco importa o nome dos passarinhos que brincam de ir e vir com as lâminas de água que avançam e recuam pela orla. Não sabemos bem o que eles fazem, mas parecem se divertir. Claro que o ritual deve ter uma finalidade para o bem da espécie. Somos nós que brincamos de ver.
Nesta manhã luminosa, somos dois seres despidos de qualquer gravidade. Nossos sentidos e nossa razão estão alheios a qualquer coisa ou acontecimento que exceda os limites deste invólucro de ar, luz e mar. Somos por um instante o casal primordial, anterior a todo mal, todo pecado. E bem melhor seria se assumíssemos a condição dos bichos, imersos na manhã sem a consciência da manhã. Como parte dela, apenas.
Mas somos humanos, meu amor. E sabemos o destino das manhãs. Mas não tentemos prever o destino desta manhã. Deixemos por enquanto que ela nos leve até onde nossos pés possam caminhar. Até onde nossos olhos possam se deixar inundar da sua beleza. Até onde todos os nossos sentidos se espantem com a eterna novidade dos dias que começam.
Foram muitas as manhãs que caminhamos. E muitas delas, em muitos e diferentes lugares, se ofereceram assim ao nosso espanto. E por sermos íntimos das manhãs, sentimos que esta pode muito bem ser vivida como o resumo de todas as manhãs que amanhecemos juntos.

Foto: Malke Maurício



  

07 fevereiro 2012

Parto humanizado




O evento está previsto para 17 de fevereiro. Pode ser antes, pode ser depois. Mais uma vez estou eu à mercê dos caprichos de um parto natural. Desta vez é João que se anuncia. Será o meu primeiro neto homem, o que lhe faz supor certas regalias. Mas, se conheço bem sua irmã mais velha e suas primas, ele não vai se dar tão bem quanto pretende.


A novidade que aprendi enquanto aguardava a chegada de João é que existe uma coisa chamada parto humanizado. Tal novidade consiste em dar prioridade ao bem estar da mãe e do bebê, devendo a equipe médica se adaptar às vicissitudes do parto, em vez de adaptar o parto às suas conveniências de tempo e conforto.


Ora, se chamamos de “humanizada” uma postura tão óbvia quanto esta de colocar a parturiente e seu filho no centro das atenções num momento tão crítico como o de um parto, como devemos chamar os procedimentos que não dispensam semelhantes cuidados? Não vamos mais um vez cair no erro de chamar estas técnicas de animalizadas. Quem já assistiu o parto de algum animal sabe o quanto a natureza é cuidadosa com os seus novos rebentos. Um parto, ou qualquer ato médico que não ponha o paciente no centro de suas atenções, é um ato de desumanidade.


É de causar espanto e indignação o quanto certos procedimentos médicos ignoram totalmente a integridade dos pacientes. A própria super-especialização contribui para que cada especialista cuide apenas do pedaço do corpo que conhece, ignorando que ali, na sua frente, existe um indivíduo com uma história de sofrimento desejoso de ser escutado em suas angústias e incertezas.


Acho ótimo que minha filha tenha escolhido um profissional preocupado no bem estar dos seus pacientes. Mas lamento muito que seja necessário chamar de “humanizado” um ato que deveria ser a coisa mais corriqueira na atenção médica dada a qualquer ser humano.

31 janeiro 2012

Cabedelo




Tem alguma coisa antiga que me liga a Cabedelo. Não é à toa que me mudei para cá. Quando vivia embarcado na costeira, meu pai montou sua casa em Cabedelo. E contam que quando ele vinha no trem de João Pessoa, jogava os pacotes das compras para minhas tias que esperavam na beira da linha. Um pouco de minha pré-história, portanto, foi vivida aqui.


Em Cabedelo reencontro alguns dos cheiros de minha infância. O sargaço do mar, a confusão dos perfumes e catingas da feira, o azedo do lodo seco nos esgotos a céu aberto.


Aqui reencontro o formigueiro matinal de trabalhadores e estudantes buscando sem pressa seus destinos, dividindo o sol com os cachaceiros que vararam a noite nas esquinas.


Aqui também fica mais fácil visualizar o conjunto do descaso do poder público pelo bem-estar dos cidadãos. A feira fede desordenadamente, enquanto um elefante branco que seria o novo mercado se arrasta há dois mandatos do mesmo prefeito. O lixo se acumula nas esquinas e as ruas calçadas sem drenagem ou saneamento se transformam em focos de mosquitos à mais rápida chuva de verão.


Sei que algumas pessoas devem me achar definitivamente desequilibrado em trocar o conforto pequeno-burguês do Bairro dos Estados por uma vizinhança barulhenta e mal cuidada. Mas é esta mesma vizinhança que ainda conversa nas calçadas, que varre a porta das casas de manhã bem cedo, que dá bom-dia quando passa por você, que baixa o som quando você reclama.


Talvez esta seja a última mudança na minha vida. Talvez seja a última vez que faço um puxadinho numa casa. Por isso não quero que seja apenas uma mudança de uma casa para outra. Talvez o que eu queira mesmo seja mudar o rumo da minha história, trazendo-a mais pra perto da história dos meus pais.

casanaestrada2.blogspot.com

25 janeiro 2012

Números e nomes



“Só tenho um número, só sou um número”. Foi o que Eliane disse à imprensa, mostrando um papel com a senha que recebeu depois que foi expulsa de sua casa na comunidade de Pinheirinho, na cidade paulista de São José dos Campos. Ela estava há quatro horas numa fila sem conseguir ser atendida. Tudo que queria era recuperar seus pertences deixados no barraco em que vivia com mais seis pessoas.  
Eliane é só um número dentre muitos que marcam esta operação de guerra em que se transformou a desocupação de Pinheirinho. Numa área de mais de um milhão de metros quadrados vivia uma população estimada entre seis a nove mil pessoas. Três vezes maior que o Estado do Vaticano, a área estava avaliada em 180 milhões de reais.  
Se quisermos mais números, saberemos que dois mil policiais militares com o auxílio da guarda municipal foram usados para desalojar os moradores. O reforço veio com mais de 220 viaturas, dois helicópteros além de carros blindados. Além disso, 40 cães e 100 cavalos também foram usados para intimidar e agredir os moradores.  
Podemos pensar que não há nada que justifique tamanho aparato e os atos de violência indiscriminada que o Estado usou contra pessoas pobres, abandonadas à própria sorte pelo poder público.   A não ser que suspeitemos de uma ação integrada entre o poder executivo de São Paulo e alguns membros do judiciário em benefício de algum poderoso muito bem articulado nos meios políticos estadual de federal. 
Quando sabemos que a área de Pinheirinhos pertencia à massa falida de uma empresa de propriedade de Naji Nahas, um bandido que já foi preso por evasão de divisas e lavagem de dinheiro, aí as coisas se esclarecem. Aí fica difícil manter a esperança de que Eliane deixe de ser apenas um número e que um dia venha a ser tratada como a Cidadã Eliane Borges Figueira.       

18 janeiro 2012

Tragédia grega


Uma mãe abandona um filho na porta de uma igreja porque já não tem como alimentar nem a si nem à criança. A cena se multiplica em frente às ONGs e aos órgãos governamentais. Não estou falando de nenhum país subdesenvolvido nem atingido por qualquer desastre natural. É na Grécia, país membro da comunidade européia, onde nasceu a civilização ocidental, que as mães estão tomando esta decisão extrema em favor da sobrevivência de seus filhos.          
De todas as misérias que a crise européia vem causando, nada se compara a esta tragédia que se abate como uma epidemia sobre as famílias gregas. Uma sucessão de governos perdulários torrou o dinheiro vindo da comunidade européia para ser aplicado em infra-estrutura e melhoria de serviços. Veio a crise financeira e o desequilíbrio das contas levou o país à bancarrota. Daí em diante, todo o dinheiro que entrou foi para livrar o prejuízo dos bancos. O governo que se virasse para cumprir as exigências dos financiadores. Era preciso cortar fundo na própria carne, diziam. Mas o que sangrou, como sempre, foi a carne do povo.
Uma das saídas apontadas para minorar o efeito da crise grega seria o país vender uma parte de suas ilhas, aquelas pérolas povoadas pelos mitos fundadores da cultura ocidental. Podemos supor que isto seria a vergonha suprema para o povo grego. Mas uma vergonha maior está sendo imposta pelos senhores do dinheiro aos indivíduos que vagam pelas ruas destituídos dos seus bens, dos seus empregos. E desta população humilhada, destaca-se o drama dessas mulheres levadas ao sacrifício extremo de abandonar seus filhos para livrá-los da morte pela fome.
Nenhum deus pode ser apontado como autor desta tragédia. Ela é fruto da maldade dos homens. Dos poderosos de sempre, alheios ao sofrimento que causam a seus semelhantes em qualquer lugar do mundo.

09 janeiro 2012

O que pode uma crônica?




Uma leitora desta coluna me pede, humildemente, que fale a respeito do baixo salário que ganha um policial militar na Paraíba. Ela é filha de um militar reformado que ficou doente quando soube do “acréscimo de 03% que o Governo lhe deu”.


Com toda sinceridade, não sei quanto ganha um PM, nem estou a par do percentual que o Governo concedeu aos policiais reformados. O que me chama a atenção é o profundo nível de desespero da leitora, que usa talvez como último recurso um pedido de ajuda a um cronista sem qualquer poder de influência nos atos do Governo.


Não sei a quantas instâncias a leitora recorreu. Imagino quantas portas lhe foram fechadas, quantas horas de espera foram desperdiçadas nos corredores inóspitos das repartições públicas. Suponho quantas ofensas teve que engolir, quanto desdém teve que suportar. Imagino o tamanho do seu desamparo para ter que decidir pedir a minha ajuda.


Não sei, minha cara leitora, o que este cronista pode fazer por você e pelo seu pai. Tudo o que tenho para oferecer é a minha solidariedade. Pois sou filho de um funcionário público que morreu sem receber uma migalha do que o Governo Federal lhe devia. Também fui vítima da humilhação nos corredores da burocracia. Sofri com minha mãe a espera dos “atrasados do meu pai” para comprar um sapato novo no Natal, uma roupa melhor nos aniversários. E os atrasados nunca foram pagos.


Conheço o gosto ruim da desesperança dos herdeiros da humilhação e do descaso do poder público. Sei também que esta crônica não terá poder nenhum para mudar a situação do pai da minha leitora ou de qualquer outro injustiçado. Uma crônica pode muito pouco. Mas espero que possa deixar claro para a minha leitora que ela não está sozinha no mundo. É só procurar outros injustiçados para que, juntos e organizados, possam exigir o direito de viver com dignidade.


02 janeiro 2012

Sobrevivemos



Aqui estamos, em pleno 2012. Fomos às lojas comprar presentes. Fomos ao supermercado comprar comida. Voltamos muitas vezes para comprar bebida. Visitamos amigos, recebemos parentes, fomos a vários encontros de confraternização. Se estou aqui escrevendo e você está aí, desperdiçando tempo em me ler, é porque sobrevivemos à maratona de fim de ano.


Estamos aqui, já singrando as águas rasas do ano novo, em direção ao mar alto e imprevisível que o tempo nos reserva. Daqui já podemos ver as ondas que nos esperam. Em breve será carnaval, em seguida vem a semana santa, depois as férias juninas. Virá agosto com suas sombras, depois setembro com suas luzes e logo-logo estaremos ocupados com mais um fim de ano. A cada fim de mês, teremos a costumeira vertigem do dinheiro sumindo. A cada fim de semana a dúvida se vai dar praia. A cada segunda-feira a chateação do recomeço da canseira.


Aqui estamos, eternos sobreviventes. Sobrevivemos à mega-roubalheira dos políticos. Sobrevivemos aos desatinos da globalização. Sobrevivemos à pequenez das decisões burocráticas.


Resistimos também ao olho grande dos falsos amigos, ao assédio telefônico das operadoras de cartões de crédito, à fome de multa dos agentes de trânsito, à falta de ruas para a enxurrada de carros, à insanidade dos motoboys, aos grandes e pequenos crimes dos traficantes.


Aqui estamos, mais uma vez lançados na espiral do tempo. Sabedores de que uma espiral não passa nunca duas vezes no mesmo lugar. Ou subimos, ou descemos. E quanto mais modestos formos na subida, mais leve nos será cada descida.


Aqui estamos mais uma vez dispostos ao que der e vier. Não esqueçamos que teremos eleições este ano. Vem aí mais uma temporada de promessas, mentiras e muita baixaria. Somos ossos duros de roer. Sobreviveremos.

Imagem obtida em: http://gartic.uol.com.br/desenhos

22 dezembro 2011

Restos do tempo




Resta ainda uma fachada do que antes era casa. As baronesas do açude fingem de pasto para bois imaginários. Fantasmas banham-se nas águas que tomaram os lugares onde se comia, se conversava, se dormia depois do amor. As almas dos bois, dos carneiros e das galinhas misturam-se às alminhas dos pagãos e às almas velhas que de tanto pecar perderam o direito ao repouso eterno. A luz solar afasta qualquer possibilidade de descanso aos mortos prisioneiros de um tempo de nada. Tempo que não passa por não ter para onde passar. Ninguém guarda esses mortos na memória. Ninguém vai reerguer a casa que bóia nas águas do esquecimento.
Esquecer não é passar. O tempo sabe disso. O tempo sabe também que a memória é coisa viva, mutante. De tempos em tempos, a memória se transforma. As dores se dissipam, os males se dissolvem. A dor e o mal são apenas sinais do que não deve ser repetido. O tempo é isto. Uma estrada marcada por sinais. Ali fomos felizes. Mais adiante sofremos. Logo depois tivemos um pouco de paz. O tempo é nossa matéria e nosso herdeiro. Pois quando não pisarmos mais o chão da terra, será o tempo que dirá de nós aos que ficam. Será também o tempo que cuidará do nosso esquecimento.


Estamos um ano a menos do nosso destino de ruínas. Mais cedo ou mais tarde, as águas inundarão o campo a nossa volta. E quando alguém passar nos lugares em que um dia vivemos, verá talvez um açude coberto de baronesas onde antes pastávamos com os bichos. E caberá somente ao tempo determinar se uma mínima fachada restará como memória do corpo que nos serviu de morada.

15 dezembro 2011

Presenças




Estamos todos reunidos novamente. Sem exceção, pois mesmo os invisíveis são pressentidos em algum canto da sala. Alguns destes não puderam vir, mas estão em algum lugar do mundo a se lembrar de nós. Outros deixaram de vir porque se foram definitivamente. Mas não interessam onde estejam realmente. Estão todos aqui. Se apurarmos os ouvidos, ouviremos suas vozes em meio à algazarra dos visíveis. Aqui e ali, eles deixarão entrever a marca registrada de um gesto, uma forma de olhar.

Estamos todos reunidos novamente. Alguns deixam bem claro o prazer de conviver conosco mais esta noite. Outros manterão o olhar vago e a expressão ausente de quem não está nem aí. De corpo inteiro ou três por quatro, é bom que nos vejamos mais uma vez. Alguns são velhas companhias de nossa trajetória pelo mundo. Outros só recentemente vieram se juntar à caminhada. Mas um fio de afinidade nos une a todos. E, um pouco mais, um pouco menos, todos nos queremos bem.

Sei que alguns solitários se sentirão excluídos desta crônica. Mas lembro a estes que uma sala virtual pode reunir todos os seus ausentes. A memória tem esse poder de atravessar o tempo e acender a lembrança desses que, por um motivo ou por outro, já não nos convivem mais.

A cada ano que passa, vai sumindo o sentido do Natal como uma festa cristã. Nos filmes de minhas netas, o velho do ho-ho-ho tomou definitivamente o lugar do aniversariante. O frenesi da lista de presentes substituiu o culto do eterno renascimento da esperança. Se quisermos, portanto, resguardar o sentido desta festa, temos que celebrar com ela a esperança. Claro que os dias que se seguirão darão um jeito de nos mostrar que nossa esperança é vã. Mas é preciso teimar em mantê-la como a única força capaz de nos unir em busca de um mundo mais fraterno, onde possamos conviver em paz com a presença dos nossos vivos e a memória de nossos mortos.

Imagem obtida em: http://www.ivanjeronimo.com.br

09 dezembro 2011

Demasia




Tudo demais é demasia. Eu ouvia sempre esta sentença dos meus pais, toda vez em que me excedia em alguma coisa. Bebida, comida, até mesmo estudo em excesso, diziam eles com grande sabedoria, fazia mal à saúde. Mais uma vez sou obrigado a concordar com meus velhos quando leio a afirmação de especialistas que exercício em excesso pode danificar o coração. Segundo os pesquisadores de uma universidade de Melbourne, da Austrália, “exames de ressonância magnética de 40 atletas que se preparavam para participar de eventos esportivos extremos, como triatlos ou competições de ciclismo em montanha, revelaram que a maioria apresentava distensões no músculo cardíaco”.

Eu tinha um amigo que vivia tirando sarro com a minha tendência à inércia. Ele corria na praia, jogava vôlei, tomava sauna. Ao vê-lo suado e esfalfado, eu retrucava: vais morrer com a maior saúde. Eu disse que tinha um amigo. Pois é. O amigo morreu. E o que é pior, sem saúde. Talvez sua mãe não o tivesse advertido de que tudo demais é demasia. Bebia demais, morreu cirrótico.

Já prevendo que alguns sedentários folgados como eu iam querer tirar proveito da pesquisa, os médicos se apressaram em dizer que não se deve concluir desse estudo que os esportes extremos sejam ruins para a saúde. Nem que as pessoas devam deixar de fazer exercícios tendo como desculpa os dados de uma pesquisa não conclusiva.

Não quero ser mal conselheiro instigando os atletas de fim de semana a pularem a pelada e partir direto para a roda de cerveja. Nem tampouco contribuir para o prejuízo das academias que vivem do sentimento de culpa dos que perdem muito tempo em frente ao espelho. Não nego que, de vez em quando, eu mesmo vou com minha mulher dar umas passadas na calçada do Cabo Branco. Mas estou sempre atento a outra pérola dos mandamentos dos meus pais: “boa romaria faz quem em sua casa está em paz”.

Imagem obtida em: http://soky-tf.blogspot.com

03 dezembro 2011

Vida longa







As estatísticas não mentem. O IBGE afirma, em suas cabalísticas Tábuas Completas de Mortalidade, que a expectativa de vida dos brasileiros cresceu em três meses e 22 dias. Vejam bem que vantagem. Em 2009, eu estava jurado para morrer com 73,17 anos. Em 2010, meu prazo de validade passou para 73,48 anos.

Longa é a arte, breve é a vida, já dizia Hipócrates, citado por Jobim. Pelos números das Tábuas, minha vida ficou um pouquinho menos breve, o que poderia muito bem ser aproveitado para produzir um pouco mais de arte.

Mas o que eu poderia produzir nesses quase quatro meses de prorrogação? Vamos por eliminação. Escrever um romance seria impossível, pois com esse tempo eu não sairia da frase inicial, aquela que dá mais trabalho ao escritor. Melhor se contentar com um bom conto. Mas como um conto precisa de uma gaveta confortável para descansar e mostrar a que veio, acho que não sairia de lá antes de uns bons seis meses. Um poema, então. Tentemos um poema. Mas um poema, como eu mesmo já disse, “não é coisa que se tem todo dia”. Pode muito bem acabar o meu tempo adicional e não aparecer nada que mereça ser chamado de poema.

Então, como eu mesmo também já disse, “todo dia o que se tem é viver”. E aqui está a solução sobre o que fazer nesses 142 dias que me sobram. Viver, simplesmente. Ou melhor, deixar a vida me viver. Bestar, no melhor sentido que este verbo possa ter. Ficar como besta, pastando na relva, ruminando o tempo na companhia de outros indivíduos da minha espécie, mugindo ou berrando de vez em quando, pelo simples prazer de anunciar que ainda estou vivo.

29 novembro 2011

Confraternizar





Ainda nem começou dezembro e minha agenda está cheia de compromissos de confraternização. E não são meros encontros de colegas entediados, doidos que o tempo passe para se livrar do incômodo. São amigos de verdade que me chamam. Gente que conviveu comigo nos mais diversos afazeres e agora quer comemorar mais um ano que passamos juntos.

Tem o pessoal da literatura que deixa para lançar todos os livros do mundo no fim de ano, de olho no décimo terceiro salário dos amigos. Tem os colegas do batente de poltrona e divã, ávidos de uma boa prosa longe da claustrofobia dos consultórios. Tem os amigos, puros e simples, que querem se desculpar da falta de atenção na correria do dia-a-dia. Tem a parentalha querendo matar as saudades dos tempos risonhos e limpos de mágoas.

Seja qual for o motivo da confraternização, é preciso que não esqueçamos o significado da palavra “confraternizar”. Fraterno, todo mundo sabe, é algo relativo a irmão. Confraternizar, portanto, é conviver fraternalmente, como irmãos. É preciso um tanto de ternura, uma boa dose de amor e um bocado de perdão para se conviver como irmãos.

É por isso que não vou a qualquer encontro que se chame confraternização. Uma boa parte deles é usada apenas como mais uma oportunidade de conhecer gente que possa alavancar nosso prestígio social ou nossa conta bancária. Outros são pura tortura, onde temos de conviver com pessoas que se odeiam mutuamente.

Sei quem são meus amigos fraternos. É com eles que me dá prazer confraternizar. Claro que isso é coisa que se pode fazer em qualquer época do ano. Mas no mês de dezembro as coisas tomam um ar mais solene, a gente fica mais sentimental, numa espécie de reflexo condicionado dos tempos da infância. Podem me chamar para as confraternizações. Mas por favor, respeitem uma única exigência: sem Amigo Secreto, pelo amor de Deus.

23 novembro 2011

Santas bugigangas




Se, por falta de tempo ou dinheiro, você não pode ir ver a mais nova exposição do Museu da Ciência de Londres, dê uma passadinha aqui em casa. Vai dar no mesmo. Aliás, em sua própria casa você pode apreciar réplicas idênticas às exibidas no célebre museu. O nome da exposição é bastante sugestivo: Hidden Heroes, quer dizer, Heróis Escondidos. E lá você vai encontrar em exposição coisas simples como o clipe, o pegador de roupa ou o filtro de papel.

Um dia, uma amiga agradecida, prometeu rezar todo dia uma ave-maria para o inventor do liquidificador. O mesmo louvor devem merecer os criadores do ferro de passar roupa, da geladeira, do desentupidor de pia. Mas estas são já invenções grandiosas, que dão na vista. O que o museu londrino quer mostrar são coisas menores, as pequenas bugigangas que passam despercebidas pelas nossas mãos a cada minuto das nossas vidas.

Mesmo contrariando a Danusa Leão, sou um entusiasta do palito de dentes. Louvo quase diariamente o inventor do mecanismo de abrir latas de cerveja. Gostaria de abraçar o gênio que colocou rodinhas nas malas de viagem. Beijaria sem constrangimento o inspirado criador do fecho éclair, que depois virou zíper para as gerações mais novas.

Mas o meu voto direto para santo é do inventor do clipe. Não existe desenho mais perfeito do que o desse objeto simples e despojado. Não há nada oculto, nenhum mecanismo obscuro. E são infinitas as suas possibilidades de uso. Serve para cutucar o ouvido, tirar o carro do prego, fazer um colar ou simplesmente ser desdobrado e jogado no lixo. Mas a sua função principal é quase divina. Um clipe liga uma coisa a outra, servindo de elo entre diferentes registros da nossa experiência cotidiana. Pode ser duas fotos, duas contas de supermercado, as folhas de um texto inacabado.

Unir e lembrar. Evitar a dispersão. Nunca pensei que uma simples bugiganga pudesse me lembrar o trabalho unificador de Eros. É nisso em que dá começar uma crônica sem um assunto claro na cabeça.



Imagem obtida em: http://www.ruadireita.com

16 novembro 2011

Arqueologia





Uma gaveta é uma espécie de sítio arqueológico. Quanto mais fundo cavamos, mais aparecem coisas antigas que ali jazem esquecidas. É por isso que é muito difícil para mim arrumar uma gaveta. Estou quase a meio caminho da tarefa quando me surpreendo com algo, papel ou coisa mais sólida, que me faz parar no tempo e no tempo mesmo regressar.

Hoje mesmo, revolvendo a primeira gaveta da cômoda em busca de qualquer coisa, dei de cara com dois objetos que custei a adivinhar a serventia. Um deles era uma espécie de moeda marcada por dois sulcos paralelos. Entre os dois sulcos, estava cunhada a palavra “local”. Acima deles, constava o número 1994. No verso, apenas um sulco dividia a moeda. No hemisfério superior estava escrito “Sistema Telebrás”. No inferior estava uma logomarca sugerindo um antigo telefone. Um pouco de paciência me lembrou a serventia do tal objeto. Era uma ficha telefônica para ser inserida nos aparelhos distribuídos em pontos estratégicos da cidade quando se queria fazer uma ligação local.

O outro objeto me exigiu mais tempo para identificá-lo. Era uma espécie de broche vermelho, em forma de estrela, vazado em branco com as letras “PT”. Fiquei um bom tempo com o pequeno objeto nas mãos, até que me veio uma vaga lembrança de um tempo de esperança em que muitas pessoas iam às ruas vestindo camisas e empunhando bandeiras com aquela cor e aquelas letras.

Devolvi os dois objetos inúteis à gaveta e ali eles ficarão até que venham os arqueólogos de um sistema solar distante vasculhar o que sobrou de nossa estúpida civilização. Se um deles achar minha gaveta, vai ter muito o que matutar sobre as coisas estranhas que dormem ali. Quando cruzar alguns dados de sua pesquisa, vai ficar querendo saber qual seria a pessoa para quem não telefonei. Vai também querer saber o destino da esperança que aquela estrela representava. Da pessoa, ele não terá resposta. Da esperança, vai voltar muito triste quando souber do seu destino.

09 novembro 2011

Felicidade





Chega a ser divertido o esforço das pessoas para definir o que seja felicidade. Antigamente, felicidade era um conceito vago, sua definição dependia das aspirações mais ou menos espirituais de cada um. Hoje a coisa ficou fácil, porque a felicidade passou a ser materializada pelos promotores de marketing. Pode ser encontrada num artigo de consumo disponível na prateleira de qualquer supermercado, nas revendas de automóveis ou no balcão das agências de viagem.
De tanto penar à procura de uma noção de felicidade que me deixasse feliz, resolvi aderir ao materialismo individualista pós-moderno e decidi: felicidade é o resultado do bom funcionamento das coisas.
Não existe coisa pior do que aqueles períodos em que todas as coisas da sua casa começam a deixar de funcionar. Começa pelas lâmpadas. Teve uma vez que cinco lâmpadas, nos mais diversos cômodos daqui de casa, deixaram de acender. Logo em seguida, inevitavelmente, quebra o liquidificador. Depois pode vir o ferro elétrico ou a televisão da sala. Daí em diante a coisa entra em progressão geométrica, podendo terminar com um vírus que corrompe todos os arquivos do seu computador, inclusive aquele que você deixou para fazer o back-up no final da tarde.
Tem uma coisa que aprendi a respeitar: o inferno astral. Isso existe, sim. E não consiste em nada de esotérico, espiritual. O inferno astral consiste exatamente nesse desmantelamento generalizado dos objetos domésticos. O que justifica a expressão: “minha casa está um inferno”.
Daí, espero ter justificado a minha definição de felicidade: É aquele estado de beatitude quando você entre em casa e as luzes se acendem uma a uma. O liquidificador prepara sua vitamina e você pode se jogar no sofá da sala para ver a mais nova besteira das oito. E depois poder ligar seu computador e ver que todos os seus arquivos estão ali, prontos para serem impressos. E a impressora está com tinta e funcionando. Pronto. Você está imerso no seu oásis particular de felicidade. Até que a próxima lâmpada deixe de acender.

02 novembro 2011

Abrir mão




Num gesto do mais autêntico autoritarismo, minha médica mandou a atendente medir a circunferência da minha barriga e tomou a decisão unilateral de me decretar obeso. Claro que protestei veementemente contra o reconhecimento científico do meu visível arredondamento. Mas no fundo eu já vinha achando que estava na hora de abrir mão de alguns prazeres para poder voltar a encarar sem medo a minha parte do guarda-roupa. Além disso, já andava chateado com a dificuldade em executar certos movimentos, fazer um mínimo de força, sustentar o peso de alguns objetos.

É um fato da vida. Vamos entrando nos anos, dobrando o Cabo das Tormentas (ou da Boa Esperança, para os mais otimistas) e nos damos conta de que nos falta força. Não apenas a força física. Aquele ímpeto que nos incita o espírito também vai esmorecendo.

É hora, então, de economia. É preciso aprender a abrir mão dos excessos. O primeiro deles é o excesso de peso. Do nosso próprio peso. Depois, comecemos a pensar nos outros excessos, verdadeiros pesos pendurados na alma, puxando-nos pra baixo, prendendo-nos ao chão. O maior desses pesos, o principal deles, é a presunção. Aquele sentimento de que valemos muito mais do que imaginam os nossos pobres semelhantes. Aquilo que nos faz roubar no peso e enganar no troco quando nos vendemos no mercado das vaidades. É dessa presunção que derivam todos os outros excessos.

Já me faltam as forças. Preciso me livrar de certos projetos inalcançáveis. Sem abrir mão dos sonhos, é claro. Mas a alma leve, num claro paradoxo, me faz sonhar mais ao rés do chão. Sonhos, digamos assim, da mão pra boca. Plantar milho em março pra colher em junho.

Vou sugerir à minha médica que, além da fita métrica normal, tenha no consultório uma fita metafísica para medir a alma da clientela. A partir de certa medida o freguês será declarado um obeso anímico, sendo então obrigado a fazer um regime para perder também os pesos invisíveis. Aqueles que mais dificultam a nossa caminhada.