24 maio 2011

Sombras e melancolia


Sobre o novo livro de Hildeberto Barbosa
À sombra do soneto e outros poemas

O poeta é aquele que se debruça nas bordas do seu próprio abismo e dali contempla o que não é e poderia ter sido. O poeta é um saudoso de si mesmo. Por isso, todo poeta é triste.

Hildeberto é poeta. Logo, é triste. Sofre dessa saudade de si mesmo a que se convencionou chamar melancolia. E o seu novo livro, À sombra do soneto e outros poemas é o seu testamento melancólico.

O teor melancólico começa pela própria escolha da forma da maioria dos poemas que compõem a obra. Como se vivesse ofuscado pelo excesso de luz com que o contemporâneo fere seus olhos, o poeta refugia-se na sombra geométrica dos sonetos, contrapondo aos excessos sonoros das ruas este pequeno som (soneto) para vasculhar as sombras do seu abismo.

E lá, no fundo do poço, passeiam as imagens irrecuperáveis do seu relicário poético. As coisas do amor, da terra de nascença, da infância vivida nas léguas de sol e cinza e as lições definitivas das pedras. Um cata-vento, um juazeiro, um vaqueiro, um boi e um canário vivem ali. E ali morre uma mãe. Tudo o que o poeta perdeu e ainda permanece.

Permanece o berço de pedra, a comarca das pedras, permanece o amor e a espera da morte que Hildeberto mente em não temer, pois para ele a morte “é apenas a névoa batendo no rochedo”.

Vencido o ciclo asfixiante dos sonetos, o poeta nos dá Outros poemas, em que disfarça mal o fumo melancólico do seu poço. Lá está um arroubo perdoável, uma loa à flama ardente que consome o seu coração rubro-negro. Mas logo volta o tema recorrente: “sempre amei as pedras”. Desde as pedras de sua trágica Aroeiras à pedra preciosa da poesia. E o poeta avisa a quem lima o diamante das palavras “que a poesia/é sagrada matéria/coroada de luz/ e abismo”. Lembra ainda “que em cada artéria/de sílaba e silêncio/pulsa o coração/de Deus/ e sangra o coração/do homem.”

Convido o leitor a se debruçar sobre o abismo do livro de Hildeberto Barbosa. Tenho certeza de que cada um de nós nele encontrará suas próprias sombras. E pagará o preço do encontro com a moeda da sua própria melancolia.

15 maio 2011

Invasão bárbara


Estava tudo programado para ser um sábado sofisticado. Começou logo nas primeiras horas, quando saímos de um bom restaurante onde jantamos um excelente salmão acompanhado de um vinho razoável. O que estava previsto em seguida, depois de umas boas horas de sono, era dedicarmos o dia a atividades exclusivamente culturais. Precisava me preparar para um encontro com a escritora Ana Miranda, o que incluía ler e reler alguns de seus livros e consultar sobre ela na internet. Além disso, precisávamos assistir “Cria cuervos”, de Carlos Saura, pois tinha sido convidado para comentá-lo numa sessão especial de cinema. Iríamos passar o sábado numa espécie de levitação.
Acontece que o homem põe, Deus dispõe e a mulher impõe. Deus até parece que havia concordado com a programação cultural. Mas minha mulher lembrou de uma receita de churrasco feito em panela de pressão que tínhamos visto no início da semana no programa de Ana Maria Braga. O problema era que nenhuma das nossas panelas estava em condições dignas de participar de semelhante evento culinário. Ante à proposta de minha mulher de adiar o prato para um dia em que tivéssemos uma panela de pressão decente, me indignei e tomei a decisão que se espera de um verdadeiro varão: hoje vai ter churrasco nesta casa, nem que eu tenha que mover céus e terras. Mover céus e terras, neste caso, consistia em pegar o carro e dar um pulo no shopping, o que foi feito em pouco menos de uma hora.
Nem precisou que o portão automático se abrisse todo para que aparecesse a figura arredondada do meu irmão, impaciente por não ter ainda iniciado os trabalhos do sábado. Daí em diante, dá pra imaginar o que aconteceu com o meu programa cultural. Livros e filme foram alegremente substituídos por fartos pedaços de carne, metros de lingüiça, generosos goles de cachaça e decalitros de cerveja bem gelada.
Saura e Ana Miranda que nos perdoem, mas não é todo dia que se compra uma panela de pressão.

10 maio 2011

Duas faces da maldade



Foi num mesmo dia da semana passada. Em dois canais diferentes de televisão. Primeiro, passou um documentário sobre a ablação do clitóris, ainda praticada em 28 países africanos. Depois, foi uma reportagem sobre os maus-tratos sofridos pelas pacientes da Maternidade Leila Diniz, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.
O documentário exibia cruamente um ritual de extirpação do clitóris de uma adolescente que aparece depois, evolvida num manto azul, falando do tamanho da dor que acabara de sentir.
A reportagem, depois de mostrar as cenas já batidas de enfermarias lotadas e corredores apinhados de macas, mostra uma mulher recém saída da sala de cirurgia, colocada numa cadeira desconfortável, que reclamava: “Sentada em cima dos pontos, dói. Dói pra caramba.”
Estima-se que cerca de 115 milhões de mulheres sofreram mutilações genitais em todo o mundo. Mas esta prática vem sendo combatida através de movimentos internacionais pelo direito ao controle do corpo e da sexualidade. E para que estes direitos sejam respeitados, é necessário o recurso às leis.
Não sabemos quantas mulheres têm negado o seu direito a um tratamento digno num dos momentos mais importantes de suas vidas, em que dão à luz um novo ser humano. Mas sabemos que há leis obrigando o Estado a cuidar da saúde dos seus cidadãos, principalmente dos pequenos cidadãos recém-nascidos e suas mães.
Talvez o que esteja faltando seja um movimento internacional que chame a atenção do mundo para a maldade que se comete não apenas com as mulheres recém-paridas neste País. Somos todos nós que somos postos a sentar em cima dos pontos dados às pressas nessa ferida vergonhosa em que se transformou a saúde pública no Brasil.

03 maio 2011

Generosidade cotidiana

Não vou falar da morte de Bin Laden, nem dos espetáculos midiáticos patrocinados pelas monarquias decadentes da Inglaterra e do Vaticano. Tampouco me interessa a composição da comissão de ética do Senado nem os rumores sobre a volta da inflação. Nada disso tem valor se comparado aos atos de generosidade com que somos contemplados no cotidiano.

Vejam se não tenho razão: cheguei em casa um dia desses e encontrei sobre a mesa o novo livro de poemas de Eloi Firmino de Melo, “Um floral de sombras”. A capa é bonita, os poemas são bons e me deixaram alegre um bom tempo. Outro dia, depois de algum tempo de aborrecimento numa agência bancária, ainda na fila do caixa eletrônico, recebo das mãos amigas do Águia Mendes outros dois livros de poemas: “Sol de algibeira”, em que o poeta passeia entre a morte e a paixão, e “Um boi pastando nas nuvens”, escrito para os nossos resquícios de infância.

É raro o dia em que não saio de casa de mãos abanando e volto com algum presente impresso dado por algum amigo poeta. Às vezes, nem tão amigo, às vezes nem tão poeta, mas a generosidade é boa e verdadeira.

Mas a generosidade que me cerca não se resume a livros bem ou mal escritos. Esta semana, uma vizinha, até que nem muito próxima, nos deu três abacates colhidos em seu próprio quintal. Me fez lembrar uns vizinhos que tive no Recife, com nossos quintais separados por um muro baixo que nos permitia saber das novidades sem sair de casa. O bom dessa intimidade é que, todos os sábados, entre as onze e o meio dia, lá estava um copo de cuba-libre me esperando suado em cima do muro.

Parece mentira que ainda existam vizinhos assim, por trás desses muros altos e cercas eletrificadas. Mas eles existem e nos dão de presente o fruto secreto de sua generosidade.

27 abril 2011

Como diz o ditado


Quando botou a baleadeira no bolso de trás das calças, ouviu sua mãe dizer: “boa romaria faz quem em sua casa está em paz”. Bateu a porta da casa e saiu.

“Cachorro que muito anda, apanha pau ou rabuge”, disse-lhe o pai que cuidava do jardim. Saiu sem fechar o portão.

Lembrou o que dizia sua avó: “junta-te aos bons e serás um deles, Junta-te aos maus e serás pior do que eles”. Juntou-se ao bando que o esperava na esquina. Ganharam o mundo em direção ao sítio de mangas.

“Quem com muitas pedras bole, uma lhe cai na cabeça”. Era a voz do tio que ouvia sempre quando acertava uma manga com a baleadeira.

“Mais vale uma pomba na mão do que duas voando”. Foi o que lhe veio à cabeça quando encheu cada bolso das calças com duas mangas espada.

Quando entrou em casa, seu pai garantiu que o matava se saísse com aquele bando de moleques novamente. Sua mãe disse que ele ia para o inferno se continuasse roubando mangas do sítio alheio. Sua irmã mais velha contou que não era apenas mangas que esses moleques roubavam. “Quem cala consente”, ouviu da velha empregada. E se trancou no banheiro.

Com a chegada da noite, os barulhos da casa voltaram ao normal. Ele deu uma carreira para o quarto e se escondeu na cama. "Quem não trabalha não come", falou a raiva do pai antes de mandar recolher a comida da mesa.

“Quem não arrisca, não petisca”, foi a última coisa que pensou antes de cair no sono, sem se importar com os fiapos de manga entre os dentes.

19 abril 2011

Rosbife


Ela morreu e não fez meu rosbife. Mas não foi por má vontade. Foi falta de tempo. Pois fazer um rosbife, para ela, demandava muito tempo. Primeiro, era preciso ir de véspera para o açougue escolher uma boa peça de filé. Limpar a carne era um trabalho de joalheria. Não podia ficar um fio de nervo, uma nesga de gordura. Já perto do almoço, às vezes do jantar, ela exercia sua tirânica vontade sobre toda a cozinha. Tudo devia estar à mão. Todos os temperos, todos os legumes, o azeite, o vinho e certos segredos sovinamente guardados. Panela aquecida, era o momento da mágica: a peça rolava sobre o azeite fervente no tempo exato para criar uma crosta dourada e revelar, ao fio da faca, o interior macio e avermelhado.

Na última vez que ela veio em minha casa, não toquei no assunto do rosbife. Sua saúde estava abalada e eu sabia que, se pedisse, ela tirava forças das entranhas e fazia o prato pra mim. Mas não valeria a pena. Não queria que o meu prazer custasse o seu sacrifício.

Daí que ela morreu. Agora, se eu quiser rosbife, que o faça. E é o que vou fazer. Qualquer dia desses crio coragem e vou no açougue. É provável que ela também vá, pois nunca confiou na minha capacidade de escolha no que tange às carnes. É só deixar que o seu espírito implicante guie minhas mãos revolvendo, apertando e afundando a unha do polegar em todas as peças até achar aquela que prometa a crosta mais crocante, o interior mais macio. Depois vai ser fácil seguir suas ordens estritas e deixar que a mágica se faça mais uma vez.

Cada um que se vai, mais do que uma imagem, deixa um cheiro na nossa memória. Meu pai me deixou o cheiro de jenipapo misturado com o suor do seu corpo. De minha mãe ficou o perfume do óleo que usava no cabelo negro e espesso. Cada um que se foi, deixou um cheiro. O cheiro que Zita deixou foi o de rosbife incensando a cozinha.

13 abril 2011

Só depois


Primeiro, é o tempo do trauma. A compreensão vem só depois. Estamos todos traumatizados com a tragédia do Realengo. É impossível para todos nós compreender o que leva um homem a invadir uma escola e atirar a esmo, matando e ferindo crianças e adolescentes. É doloroso assistir pela televisão o drama das mães, colegas e professores das vítimas, todos atônitos, como nós, frente à brutalidade do acontecimento.

Não satisfeita com o nível de dramaticidade inerente ao fato, a mídia se encarrega de multiplicá-la, aumentando, assim, o impacto traumático sobre os indivíduos atônitos. Numa pressa irresponsável em busca de audiência, exibem a opinião de supostos especialistas que, lisonjeados pelo privilégio, ofertam peças mal-acabadas de achismos travestidas em afirmações científicas.

Nada que se diga agora poderá nos explicar os motivos da mortandade do Realengo. Não adianta tentar compreender um ato não-racional com os argumentos surrados da velha razão cartesiana. O fato de não suportarmos a ambigüidade e a falta de sentido nos leva à busca apressada de causas que justifiquem os efeitos e nos leve de volta ao terreno seguro das certezas.

No caso específico do Realengo, estamos ainda no primeiro tempo. O tempo do trauma. Agora, nenhuma compreensão é possível, pois é próprio do trauma a falta de sentido. Só depois, a paciência nos mostrará o caminho para uma outra racionalidade. Uma maneira nova de ver e ouvir solidariamente o sofrimento humano. Uma forma de acolher e conviver com o estranho e inquietante que se move nos outros e em nós mesmos. Por enquanto, sejamos pacientes. Chegará o momento de uma outra razão que nos trará novos sentidos. Mas não agora. Só depois.

06 abril 2011

Memória das sombras



Ninguém manda na memória. E quanto mais se insiste em esquecer, com mais força volta a coisa que se quer esquecida. Por isso é que não foi possível deixar passar em branco o aniversário do golpe militar de 64.
A data inaugural de todo o tempo sombrio em que a liberdade nos foi cerceada bem que poderia passar despercebida, se não fosse um certo deputado federal vociferar saudosamente na televisão o nome de todos os militares que mandaram neste País durante 21 anos.
É claro que este homem só está no poder porque foi eleito por um número considerável de cidadãos. Pessoas que concordam com o seu pensamento truculento e retrógrado. Gente que apóia a violação das liberdades individuais, o banimento do direito à associação, as prisões sem mandato judicial, a tortura como método de interrogatório e as execuções sumárias como forma de se livrar dos inimigos.
Vivi a ditadura como um cidadão comum, participando de atos públicos e aproveitando os espaços possíveis para divulgação das idéias que achava e acho mais adequadas a uma vida digna para todos. Não tenho nenhum ato de heroísmo no currículo. Mas tenho na memória uma dose muito forte de medo. Um medo que fiz o possível para não transmitir aos meus filhos e do qual defendo minhas netas. Um medo que emanava de cada desconhecido que nos rondava. Medo de perder o emprego ou o curso por uma delação ou pela má vontade do chefe ou do diretor da faculdade.
É a memória deste medo que me faz, hoje, temer pessoas como o deputado saudoso e seus eleitores. Porque sei que os métodos brutais que eles defendem ainda existem e são aplicados nas celas escuras das delegacias e presídios, nas favelas e nos ermos deste País. São os restos das sombras do longo período de sombra que manchou a história deste País. E se não fizermos alguma coisa para eliminar estes restos, veremos uma grande sombra de iniqüidades se abater indiscriminadamente sobre todos nós.
Eu sei que as boas memórias nos trazem alegrias. Mas as memórias más nos trazem lucidez. Mesmo as memórias das sombras.

Imagem obtida em: http://www.moba.be/

29 março 2011

A crônica


Acho muito engraçado certos editais de concursos de literatura que exigem crônicas inéditas. Que se guarde um conto, um romance ou mesmo um poema na gaveta para tentar a glória de um primeiro lugar no mais profundo cafundó do judas, tudo bem. Mas guardar uma crônica por mais de um dia é a mais pura perda de tempo. A crônica é feita para ser jogada fora com o jornal em que for impressa. No máximo, alcançará o mérito de embrulhar peixes na feira.

Drummond dizia que suas crônicas eram como croissants servidos no café da manhã. Uma coisa gostosa, mas rapidamente digerida, dando lugar aos alimentos mais sólidos servidos nas páginas de economia, política ou policial.

Cony, por sua vez, concebendo o romancista como um peixe de águas profundas, que porta sua própria luz, compara o cronista com um peixinho de aquário que enfeita a sala.

Ninguém escreve crônicas pensando na eternidade. Escreve-se da mão pra boca, num sentido de urgência que não permite contorcionismos sintáticos ou exibições xaroposas de erudição. Rubem Braga contava que uma leitora vivia reclamando dos erros que encontrava em suas crônicas. Dizia que ele era um escoteiro ao contrário. Todo dia cometia uma má ação contra a língua portuguesa.

Crônica guardada cheira a mofo. Se não for logo dada ao público, seja num blog, no mural da escola ou no café da manhã da família, perde a sua função de portadora de contingências. Ou então não é crônica. Será um arremedo de conto, um pretenso poema em prosa, a catarse de uma dor de corno mal curada.

Mesmo aquilo que nasceu crônica, se não conhecer de imediato a luz, perderá o direito ao título. Será uma lembrança de si mesma, como qualquer uma dessas que são publicadas em livro. Já foram crônicas. Não são mais. São apenas testemunhas dos malogros do cronista todas as vezes em que tentou registrar o efêmero de um momento nessa forma efêmera, fadada ao lixo, ao esquecimento.

22 março 2011

Teatros


Não podia ser em lugar melhor. Foi o Teatro Municipal do Rio de Janeiro que Barack Obama escolheu para falar ao povo brasileiro. O espetáculo foi perfeito. O cenário, deslumbrante, com várias bandeiras brasileiras e americanas intercaladas, como coristas servindo de fundo ao artista principal. E ele estava num dos seus melhores dias. Saudou o público em português, sem esquecer de particularizar os nacidos em alguns estados que julgou importantes, tais como os mineiros e as « baianas ». Foi comovente e surtiu o efeito esperado em boa parte da população, muito bem documentado pela televisão.

Um dia antes, porém, o chefe da nação amiga já deixava claro as suas verdadeiras intenções: vender, vender mais, vender muito, vender tudo o que os EUA têm para vender. Mal disfarçando sob o manto da presidência o seu verdadeiro papel de camelô da indústria bélica americana, Obama cochichou no ouvido de Dilma Roussef as maravilhas dos seus aviões de caça FA-18.

O Brasil está interessado em comprar 36 aviões, numa trasação avaliada em cerca de seis bilhões de dólares. O negócio é tão bom, que, antes da visita de Obama ao Brasil, outro camelô internacional, Nicolas Sarkozy, barganhou o apoio da França à candidatura do Brasil a uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU em troca da compra dos caças Rafale, de fabricação francesa.

Enquanto os videotas brasileiros se embasbacavam com as maravilhas de segurança e conforto dos automóveis e aviões da presidencia americana, os sessenta empresários da comitiva ofereciam seus préstimos na construção da infraestrutura para a Copa e os Jogos Olímpicos da terrinha.

E para mostrar que não estava para brincadeira, Obama fez uma demonstração prática da utilidade do seu produto. Mandou bombardear as posições estratégicas das forças leais a Kaddafi. O recado estava dado. Se o espetáculo do Teatro Municipal não foi suficientemente sedutor, ali estava um argumento mais convicente: a eficácia dos seus mimos no teatro de operações. Deve ter sido mais ou menos isto que Obama cochichou no ouvido da Dilma.

16 março 2011

A grande onda


Dentre as mais de trinta mil obras que Katsushika Hokusai deixou, a mais conhecida é a xilogravura “A grande onda de Kanagawa”, publicada em 1830 ou 1831. Ali o artista flagra o enorme contraste entre a força inexorável da natureza e a extrema fragilidade do engenho humano. Uma onda gigantesca ameaça engolir três barcos movidos a remos. Ao longe o Monte Fuji, impassível e soberano, testemunha o embate.

O artista nasceu em Tóquio, 1760, com o nome de Tokitarō, no bairro de Katsushika. Daí o nome que adotou em 1805: Katsushika Hokusai. Mudava de nome quando mudava de estilo. Dizem que teve mais de trinta nomes em sua vida.

Definitivamente, Hokusai era um artista de vanguarda, de fazer inveja a qualquer geniosinho contemporâneo. Já em 1804, durante um festival de Tóquio, pintou com vassouras e baldes de tinta um retrato de 180 metros de um monge budista. Desafiado por um Shogun a competir com artistas mais velhos, pintou, na frente do chefe guerreiro, uma curva azul no papel, pondo para caminhar em cima dela uma galinha com os pés mergulhados em tinta vermelha. Inventou que era a paisagem de um rio com folhas vermelhas flutuando. Ganhou a competição.

Exatamente por ser obra de um gênio, “A grande onda” causa espanto a quem a vê agora, depois da tragédia que se abateu sobre a terra do artista. Ali, os homens desafiam a natureza e tudo faz crer que serão derrotados. É impossível olhar a xilogravura e não sentir a angústia que a fúria das forças naturais causa quando nos ameaça de morte. É impossível não sentir a fragilidade dos instrumentos com que desafiamos as forças da natureza.

Em todos os tempos, os barcos naufragam e os artistas nascem e morrem. O Monte Fuji permanecerá soberano, alheio ao sofrimento dos homens e aos movimentos das ondas.

09 março 2011

Crônico



Pesa sobre os cronistas a acusação de só falarem dos próprios umbigos. Considero isto uma injustiça. Todos os estilos literários são umbilicais. Poetas, contistas, romancistas, bons ou maus, todos eles falam disfarçadamente de seus umbigos. Escondem-se atrás de um “eu-lírico”, de um “narrador”, de um “fluxo de consciência” experimentalista, mas, no fundo, suas atenções sempre estão voltadas para aquele botão espetado no meio de suas barrigas. Na crônica isto fica mais à vista por conta da urgência com que ela é escrita. Geralmente da mão pra boca, sem muito tempo para tapeação.
Algumas mentes mais maldosas já devem estar desconfiando dessa enrolação preambular. É isto mesmo: vou falar mais uma vez do meu umbigo.
Como faço com uma vaga periodicidade, estou dando um tempo pra bebida. É que minha festa de fim-de-ano só acabou no dia três de fevereiro. Meu fígado me deu um ultimato e cá estou eu, há um mês e uma semana sem uma gota de álcool. O que tem desta vez de diferente, é que eu estou gostando da abstinência. Ando morrendo de sono e consigo dormir a qualquer hora do dia. Com isto, a cabeça está mais leve, junto com o corpo que já enxugou uns dois quilos.
Tenho sonhado muito e me lembrado dos meus sonhos. Eles estão me levando para lugares íntimos, que reconheço como meus, mesmo que nunca antes tenha estado lá. Geralmente visito alguma ruína recoberta de mato e arbustos. São lugares antigos, de uma antiguidade irrecuperável que o tempo se ocupa em ocultar. E esta antiguidade atravessa o umbral do meu sonho e acorda comigo. É isto, enfim, o que quero dizer. O sono me faz antigar. Não é mais velho que acordo, pois velho já estou. Cada vez que acordo, acordo mais antigo. E estou gostando muito de contemplar este umbigo crônico e antigo.

01 março 2011

O pastor de enigmas




Algumas orelhas dizem que foram sessenta livros. Outras dizem que foram setenta. Um jornal arriscou dizer que foram mais de oitenta. De qualquer forma, morrer aos setenta anos e deixar praticamente uma biblioteca escrita não é para qualquer um. Eu já vou fazer sessenta e quatro anos e só escrevi uns dez. Nunca vou ser um Moacyr Scliar.
Se me perguntassem qual livro do Scliar eu gostaria de ter escrito, responderia sem a menor dúvida: “A mulher que escreveu a Bíblia”, de 1999. Todas as manhas, todos os recursos, toda a competência de um escritor estão ali, contando a história de uma mulher feia que conquista o poderoso Salomão.
O Scliar não é apenas um bom ficcionista. Colocou seu talento a serviço da saúde pública. Mas ao escrever seus textos científicos, não esqueceu que era um grande escritor. Daí o meu fascínio com a leitura de “Saturno nos trópicos”, de 2003, em que conta como herdamos a melancolia européia e o quanto tentamos disfarçá-la. Lévi-Strauss que o diga.
Os que amamos a palavra, ouvimos três vozes que nos falam do extremo sul: Veríssimo (o pai), Quintana e Scliar. É inútil insistir que estão mortos. Para mim, estão onde sempre estiveram. Em algum lugar na desordem de minhas estantes. Ali, á mão, prontos a me mostrar os mistérios da palavra escrita. Mas só para mostrar esse mistério, nunca a sua decifração. Pois os bons escritores são criadores de enigmas. Todos eles esfinges, loucos para nos empurrar penha abaixo, desesperados por não trazermos a senha. Mas como bom humanista, Scliar sabe do sofrimento de cada um de nós confrontados com os enigmas que nos lança à cara. Por isso permanece junto a nós, nos consolando em nossa incapacidade de tradução.
Morreu Moacyr Scliar, o pastor de enigmas. Mais do que isso, o pastor dos que sucumbem aos enigmas dos livros e do mundo.

23 fevereiro 2011

Poder



O mundo assiste, perplexo, os levantes populares contra os velhos ditadores de países do Oriente Médio e norte da África. Líbia, Egito, Bahrein, Marrocos, Argélia, Tunísia, Jordânia, Síria, Irã, Arábia Saudita, Iêmen, países que sofrem há décadas o peso da ditaduras ou do autoritarismo monárquico, vêem abaladas suas caducas estruturas de poder pelo povo nas praças. E o resto do mundo, espantado e solidário, acompanha em tempo real o que nos vem através das redes sociais. E foram estas mesmas redes que permitiram a veiculação das informações e das palavras de ordem que levaram as pessoas às ruas.
Agora, vem a parte que nos cabe. Como e quando iremos usar estes instrumentos de comunicação instantânea para denunciar e derrubar os milhares de ditadores que se perpetuam em todas as instâncias do poder neste País? Quando as pracinhas de nossas cidades do interior serão tomadas pelos famintos espoliados há séculos pelas oligarquias rurais? Quando o povo tomará as praças em frente aos palácios das capitais para exigir respeito e dignidade aos grupos de poderosos que se revezam no poder?
Nada contra o espanto e a solidariedade aos manifestantes das praças do mundo contra a ditadura e a corrupção. Apenas gostaria que esta onda de esperança que lava as praças do Oriente Médio e do norte da África lambesse também as portas dos nossos velhos ditadores.
Sabemos muito bem quem são os nossos khadafis, mubaraks e abdullahs. São os eternos donos das terras e das gentes acostumados ao mando e ao desmando sem nenhum pudor ou temor da justiça. São os mesmos que agora, fantasiados de democratas, se perpetuam no poder pelo voto comprado àqueles que temem que lhes invadam as praças. Por isso os mantém famintos, ignorantes e distantes das redes de comunicação social.

16 fevereiro 2011

Retábulo




Determinados eventos têm o poder de nos transformar de uma maneira irreversível. Não estou falando dos escândalos da paixão nem das agonias da morte, casos extremos e inevitáveis em nossa condição de viventes. Não me refiro tampouco aos fenômenos naturais, enchentes, furacões, tsunamis, nem aos desastres ambientais. Falo de acontecimentos mais sutis, que nos pegam de surpresa em certos momentos da vida. Pode ser um encontro com algum desconhecido, ou a revelação de uma qualidade nova em algum velho amigo. Você tem um colega de trabalho que vive uma vidinha de nada. De repente, ele senta num piano e toca uma sonata de Chopin. Eis um pequeno exemplo de espanto.
Existe outro tipo de acontecimento menos gratuito. É aquele que você vai procurar sem saber muito bem o que irá encontrar. Pode ser a releitura de um parágrafo de um livro que você já leu muitas vezes. Naquele exato momento, duas ou três linhas ganham um significado novo que você nunca imaginou que estivesse ali. Outras vezes é o impacto de uma música que ouvimos pela primeira vez. Pode ser também o detalhe de um quadro conhecido, mas que se mostra totalmente outro quando o vemos diretamente na parede de um museu.
Estou falando disso tudo, para chegar a uma experiência perturbadora a que me submeti no último domingo: Retábulo. O mais novo experimento cênico do Grupo de Teatro Piollin. O trabalho é uma tentativa de responder a um desafio fundamental para o teatro contemporâneo: construir, para o público de hoje, narrativas cênicas que possam, realmente, ultrapassar os limites do convencional. A resposta do Piollin foi dada a partir do texto rigoroso de Osman Lins para instaurar, nas palavras do diretor Luiz Carlos Vasconcelos, “uma cena também rigorosa, apoiada simultaneamente na poesia da palavra e do corpo em ação”.
Retábulo não é uma peça para se assistir. É uma experiência para se viver. Mergulhar com todos os sentidos e sair dela com todos os sentidos afetados pela novidade do acontecimento. E a partir daí, encontrar novos sentidos nas pequenas coisas do cotidiano.

10 fevereiro 2011

Desvio de função



A partir de certa idade, o que mais nos faz perder tempo é o que chamo de desvio de função. Esclareço. Se eu estiver indo em direção à cozinha pegar um copo d’água, não me peçam para apagar ou acender uma luz. Daí eu posso ver se o portão lateral está fechado, depois vou aguar as plantas e depois me sentar no terraço para terminar de ler o jornal. Somente aí é que vou me lembrar que estou com sede. E saio de novo em direção à cozinha na esperança de que não me peçam para apagar ou acender nenhuma luz.
Quando ainda não existia internet, um dos meus passatempos preferidos era varar as noites pulando de livro em livro das minhas estantes, assunto puxando assunto, num exercício de livre associação que sempre acabava num texto que me espantava e às vezes servia de inspiração para um poema ou um conto. Mesmo que andasse à deriva pelas prateleiras, nenhum contratempo me desviava do meu intento. Estava ali para flanar. E flanava.
Hoje, a própria internet me bota em desvio de função. Quando me sento na frente do computador para escrever um texto, não me furto à tentação de dar uma olhada no e-mail. Daí vou ler as páginas dos jornais, depois, às vezes, vou ver como está o rombo na conta bancária. Quando me lembro do motivo pelo qual abri o computador, já perdi no mínimo uma hora em desvio de função.
Agora, se juntar os labirintos virtuais em que me perco, com os desvios de rota pelos cômodos da casa, sobra-me muito pouco tempo para as coisas objetivas. Vocês não imaginam quanta coisa aconteceu ao meu redor enquanto me preparava para escrever esta crônica. Comecei em casa, ontem de noite, e estou terminando ao meio-dia, na redação do jornal. Juro que não aconteceu nada de extraordinário de lá pra cá. Apenas me pediram para apagar a luz do corredor, quando eu ia pegar um copo d’água na cozinha.

03 fevereiro 2011

Ferida oriental



Eu avisei que não valia a pena. Mas Robinson e Patrícia insistiram e lá fomos nós visitar o ponto mais oriental das américas. Eles tinham ido lá há mais de dez anos e ainda nutriam a esperança de rever as maravilhas que feriram suas jovens retinas: a imponência da falésia, a praia ensombrada de coqueiros. Eram essas imagens que meus amigos queriam deixar nos olhos de suas filhas Marina e Cacau, como marca indelével de sua estada entre nós.
.
Mas a incúria dos homens é inexorável. E as maravilhas da Ponta do Seixas não escaparam à incúria dos homens. A fúria natural das águas solapa a falésia e avança indiferente sobre coqueiros e barracos favelizados que fazem as vezes de bares. Homens e mulheres de olhares perdidos procuram alguma coisa que já não está mais ali. Bebem cerveja barata e mal gelada, ouvem um arremedo de música e fazem de conta que se divertem. Como agravante, soma-se a rapina das terras da União pelos vastos muros eletrificados que privatizam o pouco de praia que resta do avanço do mar.
As marcas dolorosas deixadas nas retinas dos amigos foram mitigadas pela visita à imponência arquitetônica da Estação Ciência e pelo deslumbre dos arrecifes de Picãozinho. Mas onde quer que estivessem, a imagem feia insistia na memória, estragando o passeio.

Fazia muito tempo que não andava por aquelas bandas. Não me dá prazer nenhum ver ou mostrar às minhas visitas o resultado de décadas de descaso com o bem público. E se lá de cima, no mirante do farol, com a vista perdida no mar grande, ocorre sempre a idéia da proximidade com a África, é impossível evitar a comparação com os séculos de maus-tratos infligidos ao povo e ao chão do continente do qual nos separamos.

É muito ruim, chega a ser doloroso, em meio a tanta coisa bonita pra mostrar, ter que expor aos olhos ávidos de beleza de Marina e Cacau, essa ferida que nos enfeia as costas.

27 janeiro 2011

Savana




Para Robinson, Paty, Marina e Cacau

Entre um cliente e outro, eu dava uma chegadinha no terraço e eles estavam todos lá. Esparramados nas poltronas ou espichados no sofá, estavam lá, na vagabundagem, enquanto eu suava no tanque do consultório. Claro que eu reclamava, mas eles nem se mexiam. Para ser mais fiel ao espetáculo, deveria escrever “elas”, pois eram sete mulheres e só um homem, entre hóspedes e gente da casa.
Foi imediata a associação com a cena de uma savana africana num fim de tarde. Aquela hora em que ninguém come mais ninguém, reinando a paz entre presas e predadores.
Fiquei feliz ao ver o terraço da minha casa servir de savana para aquele bando de animais de olhares vagos e conversa arrastada. Todos eles mereciam aquela paz de começo de noite. Quatro deles, o homem, sua mulher e duas filhas, tinham vindo de São Paulo, depois de trabalhar muito, todos eles, em troca de alguns dias de sossego entre os amigos da Paraíba. As outras três, uma avó, uma filha e uma neta, faziam as honras da casa e tiravam proveito do clima de vagabundagem.
A mim, restava sentir inveja de não poder ficar ali, envolvido por aquele miasma benfazejo, deixando o corpo se entorpecer pelo afeto bom e silencioso que circulava entre as criaturas de modos bovinos ou felinos, segundo suas índoles.
O tempo se arrastava no consultório. Édipos, narcisismos, traumas infantis, tudo aquilo me parecia sem sentido. Tinha vontade de dizer a cada paciente que não valia a pena tanto sofrimento. Bastaria que fossem passar alguns minutos no terraço da minha casa. Veriam, então, que tudo o que procuram na vida poderia ser encontrado ali: a possibilidade de conviver em paz com seus semelhantes, como os bichos convivem nos fins de tarde nas savanas.

19 janeiro 2011

A alma da casa



Não pense que uma casa é um simples amontoado de tijolo, cimento e telha. Toda casa tem uma alma. E como toda alma, a alma da casa tem suas nuances, suas alegrias, seus azedumes. Cada vez que se entra em casa, ela nos recebe de um jeito diferente. Logo na porta da frente, você percebe se ela está contente com a sua chegada. Tem dias em que sentimos uma luz, um brilho diferente. A casa nos aconchega, nos acolhe com intimidade. Outros dias tem umas sombras, um não sei que de estranheza lá pelos fundos do corredor. A minha casa, pelo menos, é de veneta.
A casa de Cabedelo, que é meio minha, meio de minha filha, ficou inviável com uma reforma do sistema hidráulico. Faltou água. Por isso, vim passar uns poucos dias no Bairro dos Estados. A princípio, a casa da cidade pareceu alegre com minha chegada. Mas acho que ela andou escutando umas conversas de que voltaríamos para Cabedelo assim que a reforma ficasse pronta. Foi o suficiente para que o mau humor tomasse conta do domicílio. Começou a pingar água do split do quarto, molhando uma caixa de CDs. Vazou água na pia do banheiro social. Emperrou a porta do meu consultório. Queimou uma lâmpada na sala e outra no terraço.
Nada de grandes desastres, tudo podendo ser resolvido com um pouco de dinheiro e paciência. Mas para mim ficou patente que a casa estava com ciúmes. Ela é maior, mais antiga e confortável que a outra. Não deve suportar que a troquemos por uma simples casa de praia, com seus improvisos, seu desconforto, sua frivolidade.
Recomendo a quem tiver juízo que afaste-se de casa toda vez que precisar falar de algum dos seus defeitos ou fazer qualquer comparação com outra casa, seja sua ou de um amigo. Sobretudo, evite folhear dentro de casa aquelas revistas de decoração. Sua casa vai se sentir insultada e não se sabe o que uma casa ciumenta é capaz de fazer.

Foto obtida em http://blogartmariajose.blogspot.com/2010_05_01_archive.html

16 janeiro 2011

Estação da morte



É verão de novo. E por mais que poetas, cronistas e publicitários queiram nos mostrar as delícias do sol nas praias, lá vem a enxurrada de notícias estragando nossas férias. Rios que transbordam, encostas que deslizam, casebres que desabam. E mortes. Muitas mortes.
É verão de novo. E cá estamos nós, tentando salvar a nossa paz em meio ao horror dos desabrigados, ao desespero dos enlutados. Pobres, todos eles. Quando não perdem a vida, perdem tudo que a vida permitiu guardar.
É raro, muito raro, ver uma vítima desses desastres que não seja extremamente pobre. Pois só os pobres se sujeitam a morar nestes fins de mundo para onde são enxotados pela exploração imobiliária e pelo descaso das políticas públicas.
No ano passado, morreram uns poucos ricos em Angra dos Reis. Este ano, algumas mansões das serras do Rio foram ao chão pela força das águas. Mas se compararmos o número de mortos por classes sociais, veremos que os pobres ganham fácil este ranking de morbidez.
Pode parecer sarcástico, mas devemos esperar que aumente o número de vítimas nas classes média e rica para que alguma medida preventiva venha a ser tomada para controlar os efeitos desta calamidade sazonal.
É verão de novo. E mais uma vez temos que conviver com esta ambigüidade de sentimentos. Esperamos com ansiedade a estação que nos trará o sol, o mar e o tempo livre para o convívio amigável. Mas lá no fundo, tememos pela chagada deste mesmo tempo, pois sabemos que, para muitos, será novamente uma estação de sofrimento e morte.

05 janeiro 2011

Amigos




Uma amiga vivia insistindo para que eu entrasse no Facebook. De tanto ouvir suas loas às maravilhas de pertencer a essa rede social, cedi à tentação, mesmo sem saber o que queria dizer uma palavra supostamente tão fácil. “Livro de caras”, supus, e resolvi dar as caras por lá.
Logo de saída, a primeira surpresa. A minha amiga, uma das mais íntimas, veio pedir para ser minha amiga. Será que ela não estava segura da minha amizade? Ou seria a amizade no Facebook uma coisa muito séria, algo assim como uma irmandade secreta, uma maçonaria?
A primeira impressão evaporou à medida em que começou a chover pedidos de gente querendo ser meu amigo. Aí a ficha caiu e comecei a compreender que estava lidando com um outro conceito de amizade. Para ser amigo dessas pessoas, inclusive dos velhos amigos, basta clicar aceitando a amizade e pronto. Não precisa acontecer mais nada entre nós. Não ficamos sabendo onde essas pessoas moram, o que fazem, do que sofrem, a quem amam. Basta ver suas caras sorridentes e ficar feliz com o número crescente de amigos que pingam diariamente na sua página.
Não me sinto bem com essa banalização do conceito de amizade. Na vida real, um amigo é um privilégio que não se obtém com um simples pedido eletrônico. A amizade é um tipo particular de relação amorosa que deve ser conquistada com esforço. Para ser meu amigo, por exemplo, é preciso uma certa dose de masoquismo. Eu sou chato, irônico e mal-humorado. É preciso ralar para ter acesso às minhas parcas qualidades. Tem uma crosta resistente a ser atravessada até atingir o núcleo da minha ternura. São pouquíssimos os que têm paciência para chegar lá.
Pode ser que um dia eu me acostume a ser chamado de amigo pelo pessoal do Facebook. Mas vou logo avisando: não esperem nunca que eu vá aparecer de repente em suas casas exigindo que me sirvam uma refeição com um vinho lá do fundo da adega. Isso é um privilégio que reservo para meus poucos e verdadeiros amigos.

28 dezembro 2010

Tempo dos ipês



Existe um tempo dos relógios e dos calendários, uma espécie de utensílio criado pelo homem para fixar e controlar essa coisa inefável que escorrer entre os dois pontos incógnitos de sua existência. Mas existe outro tempo que o homem contempla. É o tempo do mundo, do sol e da lua, do estio e da chuva, do verde e do cinza, do quente e do frio. Dentro deste tempo, o homem se encontra como coisa entre coisas. Seu poder é nulo. Resta-lhe apenas submeter-se ao círculo das repetições, até que ele mesmo um dia não retorne. Outros retornarão.
É dentro deste tempo fora dos relógios que se repete, todo fim de ano, no coração da capital da Paraíba, a floração dos ipês. Quase toda a população da cidade passa ali pela lagoa. Todos os ônibus a contornam. Quem tem carro, vez por outra passa por ali. Um belo dia, de fato, um belo dia de dezembro, a alma dos passantes se espanta com as copas douradas dos ipês.
Aí acontece uma mágica na cidade. Quem chega ao trabalho pergunta: vocês viram os ipês da lagoa? Quem volta pra casa, anuncia: os ipês da lagoa floriram. Quem arranja um namoro convida: vamos ver os ipês da lagoa? Os antigos amores revivem sob o teto dourado dos ipês da lagoa.
Depois vem o vento e derruba as flores mais velhas. Uma parte do ouro cai do céu e vem forrar o chão das margens da lagoa. Então, a mágica se completa. As pessoas se rendem por completo ao milagre do amarelo.
Mais uma vez é tempo dos ipês no coração da cidade. Mais uma vez, o ouro dos ipês se instala no coração das pessoas. Daqui a pouco, as folhas voltarão a ocupar o espaço das flores. Sabemos disto e ficamos um pouco tristes pela passagem deste tempo. Mas nos despedimos dele com uma ponta de esperança de que estaremos aqui quando voltar o tempo dos ipês.

Foto: Mano de Carvalho

22 dezembro 2010

Os bichos, a palha



Não importa se é mito, não importa se é fato. Crente ou descrente, nenhum membro da cultura ocidental pode ficar alheio à figura do Cristo. Principalmente às imagens estabelecidas como o princípio e o fim da sua vida terrena. Dispensemos, por hora, a imagem da solidão e do sofrimento do Calvário. Vamos ficar com a imagem da origem, aquela cena simples do menino deitado na palha, velado pelos bichos, sob os olhos dos pais. Não precisamos de nenhum recurso à divindade para compreender o que tal cena nos quer dizer. Ali está representado, ao mesmo tempo, todo o desamparo humano e as possibilidades da sua reparação.
A marca do humano é o desamparo. Somos lançados prematuramente no mundo, antes que tenhamos alcançado o nível de desenvolvimento suficiente para fazer o que qualquer mamífero consegue: erguer-se sobre as patas e buscar o peito da mãe. Deixado as suas próprias custas, o ser humano não vinga. Para isto estão ali o pai e a mãe do menino. Para fazer por ele o que o seu desvalimento não permite. Mas o que representam, então, a manjedoura e sua palha, os animais e seu silêncio? Cada um de nós pode tentar sua própria interpretação. Para mim, a pobreza do cenário serve para dizer que não se precisa de muito para estar no mundo. Para o frio da noite do deserto, está ali o calor da palha. Para as tentações do poder dos homens, ali está a humildade dos bichos.
O menino vai crescer, vai deixar seus pais, vai correr o mundo pregando uma mensagem até hoje incompreendida. E quanto mais longe estiver deste cenário de origem, quanto mais certeza tiver da sua divindade, mais perto estará da imagem final da solidão e do sofrimento. Por isso, a cada ano, devemos nos lembrar que para sermos solidários em nosso desamparo de humanos, precisamos guardar em nós o calor da palha, a humildade dos bichos.

15 dezembro 2010

O fantasma do Urso




Crematório de Vila Alpina, São Paulo. Um homem pede informações detalhadas sobre os serviços e os custos. Tira o talão de cheques do bolso e paga à vista. Quando a atendente pergunta onde está o cadáver, o homem responde: “O cadáver sou eu.”
Alguns meses depois, no dia 19 de dezembro de 1990, com 77 anos, morre Rubem Braga, o Urso, dono de sua morte, assim como foi dono de sua vida.
Hoje, vinte anos depois, o fantasma do Urso vem se instalar às minhas costas e quase não consigo dar cabo desta crônica. Cada palavra, cada frase é imediatamente comparada ao estilo do mestre, denunciando minha fragilidade de cronista. E sinto que o Urso me desdenha por chamá-lo de mestre. Mas é bom que me desgoste e tire os olhos do meu texto. Só assim consigo escrever sem o peso do seu fantasma, sem ter que adivinhar seu focinho de leão marinho se contorcendo a cada frase mal escrita.
Agora, livre do fantasma, posso falar sem preocupação do encantamento que tive e tenho ao ler as crônicas do velho Braga. Posso chamá-lo assim, pois sou seu íntimo. Pelo menos ele é íntimo de mim. Pois nada do que li dele me foi estranho. Ele sabia falar de mim de uma forma tão simples, tão humana, revelando minhas grandes fraquezas e pequenas virtudes como se eu as tivesse vendo pela primeira vez.
Nos meus momentos de solidão e sofrimento, não é aos grandes poetas e filósofos a quem recorro. São os livros do Rubem que folheio, na busca de uma tirada irônica ou mal humorada sobre as chateações naturais da vida. E nos bons momentos de minha vida, é ainda ao Braga que recorro, para que ele me mostre o quanto tudo é transitório, efêmero. E foi desta transitoriedade e desse efêmero que Rubem Braga fez a sua obra.
Quando leio um texto de Rubem Braga, tenho a certeza de que foi um homem que o escreveu. Um homem, sim. Do gênero masculino. Um homem aberto para a compreensão dos seus semelhantes e cuidadoso com as peculiaridades do feminino.
Me desculpem, mas eu tenho que terminar esta crônica. Já ouço uns passos atrás de mim e sei que o fantasma do Urso volta para bisbilhotar meu texto. Tenho que desligar rápido o computador, pois não quero sentir o seu focinho se entortar de reprovação a tanto desperdício de palavras. Nem muito menos que perceba o nó na garganta traindo o sentimento pela sua falta.

08 dezembro 2010

Passatempo




O médico demorava a chegar e a conversa corria solta na sala de espera. Os velhos temas de sempre. O trânsito, a violência, o rápido passar do tempo. Aí, uma senhora disse suspirando: minha gente, já é Natal novamente. Parece que foi ontem que desmontei a decoração lá de casa. Perdi de vez a concentração no romance que tentava ler e voltei meus ouvidos para a conversa. Todos foram unânimes em concordar. O ano passara voando.
Não consigo imaginar como um ano voa, mas tenho que concordar: o ano passou voando. Meu gesto inaugural de ano novo é o momento solene em que passo o primeiro cheque do ano. A caneta treme na mão, devido ao esforço para não escrever o número do ano passado. E parece que foi ontem que paguei a feira de verduras e frutas com o primeiro cheque de 2010.
Mas não foi só este ano que passou voando. Pra mim, passa voando a vida inteira. Faz um pouquinho de tempo que eu era menino. Caçava lagartixas com baleadeira, brincava só, transportando formigas no meu avião de baquelite dourado, trocava tiros de espoleta com meu irmão. Indagorinha mesmo era rapaz. Ouvia os Beatles, Caetano, Chico e Gil. Bebia com os amigos, varava madrugadas escrevendo versos ruins. Foi quase ontem que casei, tive filhos, comprei um fusca.
Ainda procuro conceber a imagem do tempo voando. Teria asas, o tempo? Viajaria de primeira classe nos aviões? Acredito que não. Ainda prefiro a velha imagem do tempo como um rio. Um rio que nos pega de manhã e nos entrega quando chega a noite. Um rio com suas corredeiras, suas cachoeiras, suas enchentes gordas de tempestades. Algumas vezes manso, de águas frescas e margens sombreadas. Mas sempre um rio que devemos aprender a respeitar e aceitar as surpresas do seu percurso. Um rio que passa à revelia do nosso enfado, estejamos quebrando pedras, escrevendo crônicas ou jogando conversa fora nas salas de espera dos consultórios.

01 dezembro 2010

Zeu e seu olimpo




Pelas musas começar, pois é próprio das musas louvar os feitos dos deuses. E como louvaram as musas midiáticas os feitos destes deuses de bermudas e pés de chinelo que reinavam no olimpo de vielas e valetas. Como foram fartos os hinos cantando o poder de vida e morte das divindades mulatas sobre seus súditos aterrorizados. A farra das musas enaltecendo os bondes, enlouquecendo ao embalo dos funks, entregando-se ao torpor das ervas, das carreiras de pó e das pedras flamejantes servidas pelos bacos de motocicletas. E os raios divinos cruzavam os céus noturnos, recados dos senhores dos becos escuros para quem ousava enfrentar o seu poder.
Mas não há deuses que resistam ao tempo. Zeus, o grande Zeus Porta-Égide, exilou-se do seu trono do Olimpo. Vieram muitos deuses depois dele. Até chegar o tempo desta leva de demônios donos das encruzilhadas michas das favelas. Deuses marionetes, animados por um poder distante e alheio a esse olimpo mal-cheiroso.
Tome-se como emblema este Zeu. Este deus mutilado e humano que traz de batismo o nome de Elizeu Felício de Souza. Foi um dos responsáveis pela morte cruel do jornalista Tim Lopes. Participou da ação que derrubou um helicóptero da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Foi um dos comandantes da invasão do Morro dos Macacos, em Vila Isabel numa guerra entre facções de traficantes.
Como tantos outros pequenos deuses da sua laia, Zeu mostrou a sua verdadeira face quando foi preso pelas forças que tomaram de assalto o seu olimpo no alto do morro do Alemão. Uma cara amedrontada, de quem sabe do seu destino. Um deus vaiado pelas pessoas de bem a quem subjugava pelo terror. Um deus de calças mijadas, exposto ao ódio do mundo pelas câmeras de televisão.
Pobre Zeu. Pobres pequenos deuses. Vão mofar na cadeia ou fugir de volta para as escadarias das vielas fedorentas. Longe deles, homens de carne, osso, poder e muito dinheiro continuarão a criar e manipular novos fantoches com ares e insígnias de divindades.

27 novembro 2010

Os ratos de Los Angeles



Um homem morava com sua filha em Los Angeles. Ele tinha problemas mentais, e sua filha, provavelmente, também, pois adotou uma ratazana grávida como bicho de estimação. Com o tempo, aconteceu o inevitável: os filhotes se reproduziram como ratos e praticamente consumiram a casa do homem e da menina.
Neste ponto, entra na história a North Star Rescue, uma ONG dedicada à proteção dos animais. Pois é. A entidade fez isto mesmo que você está pensando. Recolheram os pobres animais sem teto em um enorme galpão e foram procurar lares adotivos para cerca de mil roedores. Se você não tiver um lugar confortável para instalar um casal destes amáveis bichinhos, pode mandar doações de alimentos. A ONG sugere que você envie cereais saudáveis que serão misturados com comidas para rato, macarrão, frutas secas e soja.
Não consigo distinguir a ironia embutida na notícia. Por um lado, a ONG pode estar querendo por a nu a nossa hipocrisia patente na predileção afetiva a certos animais (gatos, cachorros e mesmo os hamsters, primos sofisticados dos gabirus) enquanto outras espécies, como ratos, sapos, cobras e morcegos, são reservados ao nojo e à violência dos humanos.
Por outro lado, todo o episódio talvez venha revelar a falta de interesse que a mídia e a piedade humana dispensam a certas situações de desamparo. A notícia, publicada pela BBC, não traz nenhuma referência à intervenção de qualquer entidade, governamental ou não- governamental, em favor do pai e da filha que perderam a casa. Se não fosse a insólita intervenção da ONG, continuariam lá, no esquecimento reservado aos loucos, aos pobres, aos desabrigados.

18 novembro 2010

O paletó de Mia Couto




Quem me conhece de perto, sabe que sou um invejoso incorrigível. Tenho inveja, principalmente, de quem escreve bem. Seria natural, portanto, que eu tivesse inveja do estilo de Mia Couto. Ou da devoção com que é tratado pelas mulheres.
Nada disso. O que mais quero ter do Mia Couto é um paletó que ele usou na sessão de autógrafos da Flip de 2006. Além do corte perfeito, era feito com um tecido leve com finas listras azuis sobre um fundo branco. Nada mais adequado para o clima quente e úmido de verão em Parati.
Saí da fila de autógrafos me roendo. Nada mais adequado para mim naquele momento do que andar cabisbaixo pelas ruas coloniais. Coisa que poderia ser natural, pois todos ali têm que andar de cabeça baixa para evitar tropeções nas pedras desalinhadas dos calçamentos centenários. Mas minha cabeça baixa tinha outro motivo: a inveja. E minha inveja tinha um objeto claro: o paletó de Mia Couto.
Desde então, minha vida virou um tormento. Vasculhei as lojas de roupa de todos os lugares por onde passei de 2006 para cá. Vasculhei a internet, pedi a ajuda de amigos... Nada. Parece que só fizeram um único exemplar do paletó, exclusivamente para o escritor de Moçambique. A intenção era clara. Eu poderia, com bastante esforço, chegar a escrever tão bem quanto o Mia Couto. Poderia até alcançar a devoção de algumas mulheres. Mas o paletó, aquele paletó, eu não o teria jamais.
Este fim de semana, Mia Couto estará em João Pessoa. Vai conversar com o seu vasto público no auditório da Estação Cabo Branco. Claro que eu vou estar lá. Mas não garanto nada do que possa acontecer com ele se estiver usando o meu paletó.

07 novembro 2010

Vazio





Já disseram antes de mim, mas é como estivesse dizendo pela primeira vez: na medida em que envelhecemos, o mundo vai ficando cada vez mais vazio. Cada morte de um amigo nos deixa uma parte do mundo em escombros, como a explosão de um obus.
Hoje, meu mundo ficou mais vazio. Mais um pedaço de sua construção ficou em ruínas.
Morreu Luís Martinho Maia.
Maia será lembrado por muitos pelo mestre que formou gerações de psicanalistas na Paraíba. Será lembrado por muitos dos que beberam de sua sabedoria nas salas de aula do Departamento de Psicologia da UFPB. Mas só os que provaram da sua amizade poderão avaliar o verdadeiro sentido da sua perda.
Cada um, certamente, se lembrará com carinho de um ou muitos momentos de intimidade com o Maia. Eu tenho muitos momentos desses gravados na memória. Um deles, porém, me volta sempre à lembrança, como a maior oferta de cuidado que se possa receber de um amigo.
Eu e Glória tínhamos perdido um filho com cinco anos de idade. Foram muitos os amigos que cuidaram de nós nesse momento de franco desespero. Mas foi o Maia que fez por nós o que a dor nos impedia de fazer. Ele estava em nossa casa e acompanhou todo o nosso esforço em acalmar e botar para dormir o nosso filho mais novo. Então, ele tomou o menino nos braços, foi com ele para a calçada e lá ficou até que o nosso filho parou de chorar e dormiu.
É esta lembrança que me enche os olhos de lágrimas agora, em que tento escrever esta homenagem ao amigo morto. É esta lembrança que torna o meu mundo menos vazio, mesmo com o desaparecimento do amigo. E será esta lembrança que me salvará todas as vezes em que eu me sentir vazio de amigos.

31 outubro 2010

Caído do céu*




Acordou com o ronco do helicóptero, mas só abriu os olhos quando o pedaço de papel colorido pousou na sua cara. Tinha dormido entupido de cola e não entendia nada do que estava acontecendo. Só o cheiro da tinta no papel conseguiu chamar sua atenção. Viu a máquina metálica desaparecer do céu para as bandas do mar.
Só então afastou o papel da cara e notou as fotos coloridas dos monumentos. Não sabia ler, mas não importava. Bastava-se com a beleza daquelas formas esquisitas, lembrando coisas que já conhecia, mas cada uma mostrando uma novidade para seus olhos de menino. Duas daquelas, ele já conhecia. Mas só de passagem, quando zanzava em volta dos muros da universidade. Nunca tinha prestado atenção àqueles montes de ferro, um lembrando o diabo, outro parecendo um cavalo de brinquedo. Levantou-se e foi ver de novo os dois monumentos, mas desta vez demorando em cada linha, em cada curva, na textura do metal, na estranha harmonia do que primeiro parecia desarrumação.
Quis conhecer as outras peças mostradas pelas fotos. Perguntou aqui e ali e foi andando a pé para os giradores e praças onde as esculturas esperavam por seus olhos.
O dia já terminava quando ele viu os quatro pássaros dançando em roda na entrada do altiplano. Cimento, Eram de cimento, suas mãos informaram. E o menino se espantou com a possibilidade de uma coisa tão leve e tão bonita ser feita com a brutalidade do cimento.
Ia em direção à praia quando se lembrou que tinha passado o dia todo sem comer, mas também sem cheirar cola. E ficou intrigado com a falta de fome e de cansaço. Sentou-se na areia e ficou olhando o mar. Barriga vazia, mas os olhos cheios de uma coisa que talvez mais tarde ele soubesse se chamar poesia.

Foto: Ivan D'Paula


* Na última semana de campanha política, um helicóptero sobrevoou os bairros de João Pessoa despejando um chuva de panfletos com imagens de monumentos instalados em lugares públicos da cidade. Cada uma das obras era identificada com uma suposta entidade dos cultos afro-brasileiros, querendo fazer crer que um dos candidatos a governador, ex-prefeito da cidade, teria contraído obrigações com tais entidades com o intuito de ganhar as eleições.

26 outubro 2010

A féria





A aula de português se arrastava pela tarde, quando o professor ofertou a palavra férias como exemplo de substantivos que só se usam no plural, os esquisitos pluralia tantum. Resgatado da sonolência pelo que considerava um absurdo, discordei do professor, afirmando que existia a palavra féria. E dizia isso com a autoridade de um inveterado leitor de gibis, onde a coisa mais comum era um magote de bandidos invadir o saloon, limpar o caixa e depois sair atirando, sob os desmaios das dançarinas de can-can. “Eles levaram toda a féria da semana”, lamentava-se depois o dono do bar ao xerife que sempre chegava atrasado.


Mas professor é professor. Como toda autoridade que se preze, está sempre com a razão. Disse que eu estava falando besteira e continuou a desfilar sua sapiência, deixando-me entregue à abundante crueldade dos colegas.

Entrei em casa furioso e fui direto ao "Pequeno dicionário da língua portuguesa" que dormitava em cima do bufê, ao lado das palavras cruzadas do meu pai. E para lavar a minha alma, estava lá: Féria. Entre muitos significados, a singularíssima palavra queria dizer: “Em casa comercial, o dinheiro das vendas realizadas no dia, na semana, etc.”

Não fosse eu quem sou desde menino, me dobraria ao saber da autoridade, aceitaria a zombaria da classe como lição de humildade e nunca mais poria as mãos num gibi, esse subvertor de sonolências catedráticas. Fui salvo pelo amor à verdade, à minha verdade, pela obstinação em defendê-la, mesmo que para isso tenha de recorrer a uma arma tão plebéia como a palavra impressa num gibi.

Desse amor à verdade, deriva o meu amor às palavras. Um dia, um poeta cubano dizia numa conferência que não existiam palavras feias. Todas as palavras eram belas, afirmava, e pedia a confirmação d platéia. Discordei, dando como prova a palavra bochecha, que é uma palavra feia, por mais rosada e diáfana que seja a coisa por ela nomeada. Não sei se tinha razão, mas não importa. Feias ou bonitas, amo as palavras pelo muito que me servem de veículo em busca da verdade.

Sou um trabalhador da palavra, vivo delas, tiro delas meu sustento. Falando, escrevendo ou escutando, é das palavras, feias ou bonitas, que faço minha féria. Essa féria, também ela, convenhamos, palavra tão feinha, mas tão generosa que me salvou da mediocridade nos tempos de ginásio. E que me salva outra vez, agora, ao permitir que, divagando em torno dela, tenha cumprido o compromisso desta crônica.

Acabou




Até que enfim, acabou. Chega ao fim a mais infame campanha política que já testemunhei em toda minha quase longa vida. Já não aguentava mais o Serra com seu Paulo Preto e a Dilma com sua Erenice, ambos enrolados em piruetas verbais para se descontaminar da proximidade insalubre dos velhos companheiros de jornada. Já não aguentava as injúrias sem fundamento lançadas pelos candidatos estaduais contra aliados de anteontem.
Basta. Acabou. Sigam, os vitoriosos, para o inferno climatizado dos gabinetes ornados de mármore e cristal. Voltem, os derrotados, para o purgatório de suas varandas, lambendo as feridas enquanto esperam alguma nesga de poder proporcional ao número de votos obtidos.
Vitoriosos ou derrotados, saiam, por favor, da minha frente. Não agüento mais a gritaria, os sorrisos forçados, os abraços ruidosos, os dentes arreganhados do lobo por trás da máscara de cordeiro.
Quero de volta a normalidade dos crimes passionais, dos ajustes de conta do tráfico, dos acidentes naturais, da corrupção cotidiana que já não causa indignação, de tão banal.
Quero as ruas sem bandeiras, sem os entulhos dos santinhos jogados fora no rastro das carreatas. Quero de volta o lixo comum entulhado nas calçadas, os cruzamentos devolvidos aos mendigos, vendedores de bugigangas e limpadores de pára-brisas.
Fica, mais uma vez, o gosto amargo de que seremos nós, os eleitores, que pagaremos a conta alta dos gastos de vencedores e vencidos. Fica, mais uma vez, a certeza de que seremos solenemente esquecidos em nossos anseios de cidadania, até que chegue a próxima temporada de iniqüidades.
.

22 outubro 2010

Sacristão ou diácono?




Sempre achei que esta eleição fosse para Presidente da República e, aqui na terrinha, para Governador do Estado. Por isso, esperava que a propaganda dos candidatos priorizasse os temas ligados às políticas públicas necessárias ao bem-estar do nosso povo e à estabilidade econômica do País. Mas pelo nível e pela qualidade dos argumentos, tudo me faz parecer que estou sendo convocado para eleger o sacristão da de paróquia ou o diácono de um templo evangélico.

Nunca antes na história deste País fui tão bombardeado por mensagens do mais baixo nível fundamentalista. Nunca o demônio foi tão veementemente convocado como cabo eleitoral. Nunca vi candidatos com tanto medo de arder no fogo do inferno. Ou de perder o voto dos eleitores que se deixam enganar pelo discurso dos pseudo-fundamentalistas.

A grande vedete da discussão, a nível nacional, é a questão da legalização do aborto. Ambos os candidatos estão na maior saia justa, pois, como pessoas esclarecidas que são, em algum momento de suas vidas devem ter se declarado a favor do aborto assistido. É divertido ver as piruetas verbais que são obrigados a fazer para desmentir suas antigas posições.

Os candidatos prestariam um imenso serviço à nação se declarassem que a legalização do aborto é uma questão de saúde pública. Contra o argumento farisaico da defesa da vida, basta mostrar as estatísticas das mulheres que morrem ao se submeter ao trabalho dos clássicos fazedores de anjos, bastante conhecidos e freqüentados por muitos dos fundamentalistas quando querem se livrar da aporrinhação de um filho fora do casamento.

Quanto à baixaria a nível estadual, não me espantaria se o próprio diabo saísse vitorioso no segundo turno, tanta é a gritaria em torno do seu nome. Parece que os próprios candidatos esqueceram que o Estado é laico. Da forma como seus estrategistas de campanha dão ênfase à pureza de suas convicções religiosas e atacam as supostas ligações do adversário com o capeta, parece que a eleição é para algum cargo de prestígio duvidoso na igreja da esquina.

Por mais que o Serra se pareça com Dom Helder, não confio nele para administrar o apurado das esmolas da paróquia. E Dilma não me convence que saiba o menor versículo da Bíblia de cor. Portanto, parem de nos tratar como um rebanho de idiotas e mostrem seus verdadeiros programas de governo.

14 outubro 2010

O parto da terra


Um a um, a terra devolve à superfície os trinta e três mineiros que guardou no seu ventre por sessenta e oito dias. É impossível resistir ao poder simbólico do episódio que a mídia nos serve a domicílio.
Um a um, ficamos prisioneiros da tragédia que latejava no meio do deserto chileno. Todos nós ficamos grávidos destes homens que desceram aos infernos e ficaram prisioneiros de suas entranhas. De repente, fomos tomados por um medo atávico. O medo de ser enterrado vivo.
Era preciso resgatar aqueles homens. Não suportaríamos acompanhar a sua lenta agonia. Não suportaríamos, isto sim, a encenação da nossa própria angústia diante da ameaça da morte. Daí ter sido providencial a comunicação com os soterrados. Benditos celulares que nos trouxeram as vozes e depois as imagens da vida a quase setecentos metros de profundidade. Sofríamos, sim, mas estávamos vivos.
De repente, os técnicos se deram conta de que não existia um plano de resgate pronto para a situação. Tudo teve que ser improvisado. Existia, sim, uma tecnologia disponível, mas estava dispersa em diversos dispositivos de diferentes instituições. De repente, o mundo se dá conta de que o valor da vida dos mineiros, como a de qualquer outro trabalhador em qualquer lugar do mundo, é inferior ao das riquezas produzidas por suas mãos.
Diz a mídia que o trabalho nas minas não será mais o mesmo depois do acidente chileno. Não acredito. Daqui a pouco todos nós esqueceremos o sofrimento dos mineiros do deserto de Atacama, assim que uma catástrofe nova atrair os olhos da mídia. Mas enquanto isto não acontece, permanecem em nossos olhos as cenas comoventes desses trinta e três mineiros paridos pela terra. Esses que viveram mais de dois meses de inferno e de lá nos ensinaram o poder da solidariedade e da esperança.

05 outubro 2010

Resultado das eleições




Quem saiu às ruas na segunda-feira depois das eleições viu a primeira manifestação de falta de cuidado dos políticos com o bem público: as toneladas de lixo espalhadas pelas ruas, restos inúteis do material de campanha dos candidatos vitoriosos ou derrotados.

É fácil identificar, pela cor predominante nos monturos, qual foi o átila que passou por ali nos últimos momentos da campanha. Tanto faz. Todos eles tratam nossas ruas com o mesmo desrespeito. É apenas um aviso de como nos tratarão quando forem eleitos. E não poluem apenas nossos olhos. Violam nossos tímpanos com carros de som a todo volume, com suas mentiras viçosas e seus jingles de gosto duvidoso.

Mas a poluição maior, a violação mais patente, é a falta total de escrúpulos dos partidos na escolha dos candidatos mais aptos a abocanhar um fatia de poder. E não estou falando dos palhaços, das mulheres frutas, das celebridades da hora ou dos doadores de sopa. Falo dos fichas-sujas, dos velhacos, dos filhos diminutivos das velhas raposas.
Vamos ter segundo turno de votação para os cargos executivos aos níveis federal e estadual. Vamos ter que agüentar mais de vinte dias de uma disputa que dificilmente nos trará qualquer novidade. A não ser, é claro, uma baixaria mais cabeluda que possa jogar mais um pouco de lama no adversário. Seria bom que os nossos candidatos orientassem os seus partidários a respeitar os nossos olhos e ouvidos. E eles próprios respeitassem a nossa inteligência de eleitor.
Não é com bandeiras, santinhos e adesivos que se conquista um eleitor consciente. Deixem claro quais são suas propostas de governo. E deixem nossa cidade livre da sujeira e do barulho que apenas confundem a nossa capacidade de decidir com serenidade em quem devemos votar.

04 outubro 2010

Anti-sintaxe





Piedade pelo morto
que não sabe que vai morrer.
Ou não quer saber.

Vaidade do morto antecipado
que não se deixa ver
enquanto morre.
O morto não se quer feio.
O morto não se quer morto.

O morto antecipa-se à morte.
Encena a morte
Enquanto espera a cena.

Não vai ver.
Não vai estar.
Estar é ser.
E não será.

As últimas palavras
Rondam a memória que morre.
Estáticas. Anti-sintáticas.


Ronaldo Monte
04.10.2010

03 outubro 2010

Abismos e tropas


“O País está à beira do abismo”. Estas palavras podem não fazer o menor sentido para o pessoal mais novo, mas elas foram ouvidas à exaustão pela turma da minha geração. Ao menor vislumbre de avanço social, vinha um espertalhão bradar que estávamos rolando abismo abaixo. A contrapartida era a ameaça sinistra dos generais: “vamos botar a tropa nas ruas”. Maus tempos aqueles, em que a vontade popular valia menos do que um golpe de cassetete. Péssimos tempos, em que os tanques decidiam em lugar das urnas.
Não, não estou com nenhuma síndrome de pessimismo. Não há nada no horizonte que possa ameaçar o atual processo de consolidação da nossa democracia. Toco no assunto para lembrar a algumas pessoas que implicam com o atual processo democrático, que existe uma alternativa. Mas já a conhecemos e não a queremos de volta.
Se atualmente somos obrigados a suportar uma penca de candidatos de moral duvidosa, alguns, inclusive, juridicamente declarados imorais, somos os únicos responsáveis pela mudança deste cenário que nos dá voltas ao estômago. O voto, e somente o voto, é o instrumento que temos para fazer uma faxina nesse celeiro de fichas enodoadas.
O País afastou-se da beira do abismo. Mas isto não elimina o grande abismo que divide as nossas classes sociais. E ainda nos sobra o abismo moral que separa o nosso povo dos seus supostos representantes.
Ainda temos muito que fazer para enxotar de vez a metáfora do abismo do nosso vocabulário político e social. Basta, a cada eleição, botar a tropa nas ruas. Não aquela de antigamente, uniformizada e subserviente. Mas esta tropa colorida e ruidosa que sabe o poder do voto que tem nas mãos.

28 setembro 2010

Deserto



Passei os primeiros anos da minha vida adulta proibido de votar para presidente, governador e prefeito. Tinha fome de voto. Com a reconstrução democrática, nunca deixei de votar nem uma vez. Nem sempre meus candidatos ganhavam, mas fazia bem à saúde participar da vida política em toda plenitude. Carreatas, passeatas, panfletagens, faixa no portão, muro pintado, adesivos no carro. Por fim, a procissão familiar até a zona eleitoral, as ruas atapetadas com o lixo democrático dos santinhos.
Este ano estou quase proibido de votar. Não encontro a quem confiar meu voto com o mesmo entusiasmo dos outros anos. Não precisam me lembrar que estou envelhecendo. Tenho encontrado muita gente jovem com a mesma preocupação. Estamos saturados de escândalos, conchavos, jogadas sujas para manchar a honra dos adversários, se é que ainda existe alguém de honra imaculada.
O cenário político atual é um vasto deserto ético, onde o vale-tudo é a regra para pilhar o oásis do poder. Aqui e ali, é claro, resistem as exceções que mal servem para confirmar a regra. O respeito pelo direito e pelo bem público desertou das instituições. O empate da votação do Supremo que definiria uma posição sobre a chamada lei da ficha limpa foi a mais recente e cabal prova de que a opinião pública não merece o menor respeito. A pouco mais de uma semana das eleições, e os eleitores ainda se viam ameaçados pela possibilidade de vitória dos bandidos travestidos de representantes do povo.
Grandes são os desertos, cantava Fernando Pessoa. Grande, enorme, gememos nós, é este deserto ético que teremos que atravessar até chegarmos às urnas. É bom não nos deixarmos iludir pelas miragens que costumam nos seduzir no horizonte inalcançável das promessas impossíveis.

22 setembro 2010

Morte e inferno

O deputado Luiz Couto está condenado à morte. Seu erro foi ter denunciado todos os nomes dos envolvidos com o crime organizado na Paraíba, quando presidiu uma Comissão Parlamentar de Inquérito, encerrada em 2005. Foram mais de trezentos nomes apontados, entre políticos, juízes, promotores e policiais. Gente graúda que exigiu a cabeça de Luiz Couto. Sem nenhuma metáfora. Depois do assassinato do advogado Manoel Mattos, um dos depoentes na CPI, o deputado Luiz Couto foi anunciado como o próximo da lista de extermínio. Faz muito tempo que o deputado vive sob a proteção da Polícia Federal.

O padre Luiz Couto está condenado ao inferno. Seu pecado foi ter defendido o fim do celibato e o uso da camisinha, numa entrevista ao programa “Congresso em Foco”. Por isso, está proibido de celebrar missas pelo arcebispo da capital da Paraíba. O padre Luiz Couto sempre esteve ao lado dos oprimidos e injustiçados. Suas idéias sempre contrariaram o bando mais conservador da igreja católica, que tem no atual arcebispo um de seus mais ferrenhos representantes. Nada mais natural, portanto que seja condenado à excomunhão e o conseqüente fogo do inferno.

O deputado Luiz Couto e o padre Luiz Couto não são duas pessoas distintas. Quem conhece o discurso e a prática do padre, sabe o que pode esperar do parlamentar. E vice-versa. Mas não são apenas os oprimidos e injustiçados que conhecem a coragem deste homem íntegro que se chama Luiz Couto. As forças retrógradas do coronelismo, laico ou clerical, também a conhecem. Por isso o querem morto e condenado ao inferno. Mas nós, que nos sentimos representados pelo parlamentar e incitados pelo religioso, queremos Luiz Couto vivo. E nada precisamos desejar aos seus inimigos. Estes já estão condenados pela história à morte política e ao inferno moral.

12 setembro 2010

Chapola e Pedro Paulo



Chapola é “de menor”, tem dezessete anos. O que não o impede de ser conhecido como “o terror do Renascer”, bairro da periferia de João Pessoa. Chapola foi preso sob a acusação de chefiar uma gang responsável por vários assassinatos e assaltos ligados ao tráfico de drogas da Grande João Pessoa.

A prisão de Chapola teria passado desapercebida pelas páginas policiais se a polícia não tivesse encontrado em seu celular um vídeo em que ele botava um cigarro de maconha na boca de uma criança de três anos.

Pedro Paulo Dias não tem apelido. Mas atendia prontamente quando o chamavam de governador. Nada mais normal, pois foi governador do Amapá duas vezes. Pedro Paulo foi preso pela Polícia Federal por chefiar uma gang que desviava dinheiro público, principalmente do Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb). Com ele foram presas mais treze pessoas. Dentre elas encontra-se Waldez Góes, ex-governador e candidato a senador pelo Amapá e o presidente do Tribunal de Contas do Estado, José Júlio de Miranda Coelho. Como era um negócio de família, também foram presas a namorada do governador e a mulher do ex-governador. Tudo gente fina.

Existe um elo entre as gangs de Chapola e Pedro Paulo. O dinheiro do Fundeb desviado pela turma do governador era para pagar professores e comprar merenda escolar e material de manutenção para creches e colégios do ensino médio.

Quer dizer que, se o dinheiro desviado no Amapá e em vários estados do País fosse devidamente aplicado, o Chapola certamente estaria terminando o ensino médio e a criança de três anos estaria numa creche decente, longe do assédio perversamente precoce dos traficantes.

Posso antever que, dentro de pouco tempo, Chapola vai ser encontrado morto num boteco do Renascer ou num matagal ali por perto. É possível também que a criança a quem ele apresentou o primeiro baseado se transforme no próximo “terror do Renascer”, repetindo o manjado círculo da morte.

Mas o que mais me dá raiva é saber que, daqui a poucos dias, a gang do Pedro Paulo vai voltar para suas mansões em seus carros importados e continuar com a imunda produção em escala industrial de novos chapolas.

Dói mais ainda saber que é nas comunidades Renascer plantadas na periferia das grandes cidades que moram os eleitores de criminosos como Pedro Paulo e Waldez Góes.