21 fevereiro 2009

Senhores e escravos


No final de uma oficina de leitura, um rapaz jogou um pedaço de papel no chão e pedi para que o apanhasse e botasse na lata do lixo. Fiquei surpreso com a arrogância da resposta: jogando este papel no chão, eu estou dando emprego a muita gente.
É com este mesmo tipo de pensamento que as pessoas jogam suas latinhas de cerveja pela janela do carro, pontas de cigarro acesas ao largo das estradas, potes usados de iogurte pelas janelas dos apartamentos e deixam montanhas de lixo nos parques e nas praias.
Passei muito tempo tentando entender como um adolescente pobre e mestiço chega a reproduzir uma ideologia típica de uma classe antagônica à sua, pois são justamente os trabalhadores pobres e mestiços que limpam a sujeira que uma minoria abastada espalha pelo mundo desde tempos imemoriais.
Entre os que sujam e os que limpam, ele já escolheu o seu lugar. Ficando do lado dos que sujam, ele pode se imaginar rico, poderoso, sem qualquer obrigação de prestar contas a ninguém dos seus atos de vandalismo. É isto o que ele quer ser quando crescer. É isso o que ele já pensa que é, em sua pouca idade. O que ele não sabe, é que não tem lugar para ele no lado dos que sujam. Todas as vagas já estão garantidas para os filhos dos sujões de hoje. Queira ou não, o seu lugar já está reservado no lado dos que limpam. E não apenas limpam, mas que trabalham no subterrâneo para fabricar, transportar e vender os produtos com os quais os outros sujarão a superfície do mundo.
Na versão pós-moderna da dialética do senhor e do escravo, não há lugar para a esperança de que o escravo tome consciência do valor do seu trabalho. Consequentemente, o senhor também não se libertará da sua estagnação que se daria ao acompanhar a tomada de consciência do escravo.
Ambos, escravo e senhor, estão soldados em um projeto de sujar e exaurir o mundo. O que nos torna a todos, enfim, servos de um sistema louco de autodestruição.


Imagem obtida em www.vivercidades.org.br

15 fevereiro 2009

Aquarius


Finalmente, no sábado passado, a lua entrou na sétima casa e júpiter se alinhou com marte. Estamos em plena era de aquário. Agora é só esperar que a paz sirva de guia aos planetas e o amor oriente as estrelas. Pois era isto o que nos prometia a já antiga canção, a mais bonita e emocionante de Hair, o musical que conquistou corações e mentes em todo o mundo.
Eram promessas feitas por uma geração que vivia a guerra do Vietnam e as ditaduras sul-americanas. Estreando nos Estados Unidos em 1967, onde teve 1918 apresentações, Hair foi recebido a mão armada em outros países. Depois da primeira apresentação no México, a peça foi proibida pelo governo. Os atores, ameaçados de prisão, deixaram o país às pressas. Encenado no Brasil em plena vigência do AI 5, Hair estreou em São Paulo depois de uma dura negociação com os censores. As várias cenas de nudez foram reduzidas a uma única e rápida exposição em que os atores não podiam mexer um dedo. Também foram proibidos de dançar em cima de uma bandeira dos Estados Unidos, como se fazia na versão americana, tendo de se contentarem com um lençol branco.
Passaram-se mais de quarenta anos. É claro que os tempos são outros. A guerra do Iraque não manda tantos mortos para casa como a do Vietnam e as ditaduras do cone sul são coisas do passado. Talvez ainda nos seja permitido sonhar com um tempo de harmonia e compreensão. Um tempo abundante de simpatia e confiança. Tempo sem mentiras ou escárnios. Em que possamos sonhar com visões douradas e a revelação do místico cristal. Pois é isto o que nos promete a canção. Este é o espírito da verdadeira libertação.
A crer nos astros, estamos assistindo o advento da era de aquário. A crer nos antigos poetas, a paz guiará os planetas e o amor orientará as estrelas. Eu lembro dos meus cabelos longos e insisto em sonhar o velho sonho impossível.

Imagem obtida em: LIFE

O garanhão sem memória



São umas insensatas. Escrevem para mim sem se importar se minha mulher ou minhas filhas têm acesso à minha correspondência. Falam abertamente de coisas que fizemos juntos das quais se dizem saudosas e ardentes de desejo em repeti-las. E para que não reste dúvida quanto às minhas proezas, todas elas mandam fotos comprometedoras que me nego a ver. Vejam o que me diz uma certa Lu:
“Oi, eu falei que ia tirar umas fotos especiais pra vc.. separei essas ai so pra vc, o resto está no anexo. depois manda um email dizendo o que achou tá bebê ! Agradeço desde já por tudo que aprendi contigo =* Beijosss...”
Claro que há uma certa contradição em me chamar de bebê e ao mesmo tempo agradecer pelo aprendizado. Mas pela grafia do Beijosss, acho que trabalhei muito bem.


Queixosa, Vera implora por uma migalha da minha atenção:
“olla!! Por que você faz isso comigo? Passou por mim ontem e fingiu que nem me viu... será que poderíamos conversar um pouco? Não sei se você lembra dessa foto que tiramos juntos. Espero que goste um pouco de mim, nem que seja pela nossa amizade. Beijos, te adoro muito. !! Bejos!”


Lacônica, Vick faz um mea culpa mas não esquece a fatídica fotografia:
“Oiiii...!! tudo bem? Pois é eu sumi... mas eu não esqueci daquela nossa foto. Você lembra né?! Pois aqui está a foto que você tanto queria...Abraços!!!”


De riso frouxo, Tamira é das mais perigosas, pois não conhece só a mim. Fico pensando quem são esses “todos”:
"Acabei mandando a foto kkkkkkkkkkk... Mais ver se manda uma tbm viu??? Ficou show D+, manda um abraço ai pra todos, e não esquece de mandar uma tua! ;) Se não tiver gostado muito, manda um recado que te mando outra!"

Por fim, Rafinha revela não possuir apenas uma foto, mas um álbum completo com as coisas que fizemos juntos. E o que é pior, sugere que eu mesmo tenho uma coleção semelhante que, juro, não sei onde possa ter guardado:
“Oieeee, quanto tempo heim... nada de me responder.. porquê?!
Olha oque o pessoal fez com as fotos da gente... ficou muito legal :)
Achei a maior graça... Porque você nao faz um destes?
Eu adoreiiii!!!Abraços, e uma ótima semana!”

Pelo nível do português, vocês devem estar imaginando os lugares em que procuro companhia para minhas horas de tédio. Pois aí é que está o mistério. Toda essa fama, todo esse desempenho, toda esta documentação, e não sou capaz de me lembrar de nada do que ando fazendo com essas moças. Definitivamente, preciso deixar de beber.

08 fevereiro 2009

Um dia, um homem...



Minha mãe se casou com um homem bonito, de coração brando e alma de artista. Fazia teatro, pintava aquarelas, escrevia poemas. A casa de vila, num subúrbio perdido, estava sempre com o aluguel atrasado. Minha mãe sustentava a casa dando aulas de inglês. Meu pai passava as manhãs dormindo, acordava para o almoço e saía no meio da tarde. Voltava de madrugada, de olhos vermelhos e um sorriso perdido na cara. Minha mãe dormia sentada na cadeira de balanço, comigo no colo. Mais tarde me contou. Não esperava meu pai. Um dia, sonhava, um homem entraria pela porta e a levaria para uma casa bonita, com um jardim florido, numa rua com árvores e um carro na porta.

Minha avó se casou com um homem de bigode, sério e calado, dono de um armazém sortido na rua principal de uma cidade bonita do interior. Meu avô fechava o armazém às seis da tarde, jantava calado e saía para jogar baralho. Um dia, chegou afobado, quase de manhã. Acordou minha avó e ordenou que arrumasse a mudança. Tinha perdido o armazém e a casa no carteado e assim que clareasse ia entregar as chaves para o ganhador. Se mudaram para uma casa de taipa no fim da rua da Lama. Minha avó passava as noites acordadas olhando a porta. Mais tarde, contou pra minha mãe. Não esperava meu avô. Um dia, sonhava, um homem bonito viria e sairiam pelas ruas de mãos dadas, primeiro para o cinema, depois tomar sorvete, depois namorar na praia, depois morrer de amor.

Minha bisavó casou com um homem sem sorte. Estava sempre no lado errado da vida. Entrou na Coluna Prestes quando ela passou pela Paraíba, em 1926, de volta do Piauí. Fugiu quando o último recurso da tropa era se refugiar na Bolívia. Minha bisavó ficou dois anos esperando a volta do herói. A sorte lhe sorriu um pouco quando o marido foi trabalhar numa torrefação de café. Já era quase gerente quando veio a crise de 29 e o preço do café começou a desabar. A torrefação quebrou, o casal se mudou com os filhos para o Recife. Ainda viviam como remediados com a sobra das economias. Dava ainda para pequenos luxos, como tomar uma gasosa na Confeitaria Glória, no bairro da Boa Vista. Estavam justamente lá, num fim de tarde friorenta de julho, quando um homem desesperado gritou “João Pessoa” e atirou. Um tiro foi o que bastou para lembrar todo o sofrimento nas marchas da Coluna. Meu bisavô saiu correndo e foi preso como cúmplice do assassino. Minha bisavó voltou para a Paraíba com os filhos e desde então deixou de dormir. Passava as noites vigiando os passos na rua. Mas não esperava o marido. Ela mesma contou para minha avó. Um dia, sonhava, um homem de sorte bateria em sua porta com um buquê de flores e um anel de brilhantes. Tomariam um navio e viveriam felizes em Paris.

A mãe de minha bisavó foi roubada de casa por um fazendeiro. Quando ele perguntou se ela queria fugir, não disse que sim nem não. Mas deixou a janela do quarto aberta. Qualquer coisa seria melhor do que aquela vida miserável de trabalhar no eito. Foi morar numa casa grande, quase uma tapera. O pai do seu marido tinha sido rico, dono de escravos e muitos pés de algodão.Mas veio a Lei Áurea, veio a república, veio a praga que acabou com o algodoal. Agora seu marido ficava ali, sentado na espreguiçadeira, fazendo contas de quanto estaria colhendo se ainda estivesse plantando. A mulher ficava sentada nos batentes da entrada, olhando os rachões da terra até que os olhos ardessem com tanta luz. Aí então, os fechava para sonhar que um dia, um homem vestido de couro viria buscá-la em seu cavalo. E sairiam a galope até um lugar coberto de grama verde, cortado por um riacho perene, onde se amariam rodeados de bois e passarinhos.

Não sei onde começa esta lenda do homem que virá. Talvez ela se perca entre as lanças de Alcácer Kibir, onde mais de um homem desapareceu, além de Dom Sebastião. Só sei que esta espera acaba aqui, comigo. Se algum homem quiser me encontrar, que venha sem que eu o espere. E não me queira levar para lugar nenhum. Pois estou bem onde estou, contente com quem sou. Tenho meus sonhos, claro. Mas o tempo em que vivo não comporta lendas.

Ronaldo Monte
Clube do Conto, 07 de fevereiro de 2009.
Imagens obtidas em:
http://www.terrabrasileira.net/ (vaqueiro)
zig.blogs.sapo.pt (homem com flores)
br.geocities.com (casa com jardim)
redeparede.com.br (mãos dadas)

06 fevereiro 2009

Eu avisei

Lula critica pacote 'protecionista' de Obama
Em entrevista exclusiva à BBC, presidente sugere que proposta dos EUA fere regras da OMC.

UE e Canadá criticam protecionismo em pacote de Obama
Cláusula de preferência por produtos americanos causa apreensão internacional.

É só olhar a quarta postagem abaixo.

01 fevereiro 2009

Passageiros



Somos todos passageiros. Nem o motorista e o cobrador escapam. Estamos todos de passagem. Indagora mesmo, passamos de um ano para outro. A rigor, nada de mais aconteceu na ordem natural das coisas. Acontece que não somos naturais. Somos animais de cultura. Temos alma, temos memória, sentimos saudades e alimentamos a teimosia da esperança. Por isso precisamos marcar a passagem do tempo. Para construir um elo entre a saudade e a esperança.


Somos todos passageiros. Um dia, todos passaremos. E conosco passarão todo o júbilo e todo sofrimento, todo o amor e toda ira que julgávamos eternos. Sejamos, pois, pacientes. Mergulhados no rio do tempo, deixemos que ele nos lave de toda pretensão de eternidade.

Somos todos passageiros. Viajamos no bojo de uma nave que nos leva por um caminho invisível e sem estação de chegada. Da janela vemos o sítio infinito por onde vagamos e nos damos conta do quanto somos miúdos. Do quanto somos frágeis e desamparados. Por isto inventamos mitos, alimentamos heróis, criamos lendas, fazemos poemas, construímos cidades.
Somos todos passageiros. E sabemos que a qualquer momento a nossa viagem pode chegar ao fim. Por isto somos melancólicos, sofrendo por antecipação uma perda que sabemos inevitável. Toda separação é dolorosa. Todo desaparecimento é temível. Por isto erguemos monumentos. Por isto tiramos fotos, por isto criamos na memória uma história sem mácula, em que somos todos bons.

Estamos em trânsito. Trazemos de nascença a marca da transitoriedade. Transitemos pois com esperança para o ano que começa. E que não tenhamos motivos para ter saudade desse ano que já passou tarde.

Ronaldo Monte

Imagem obtida em: www1.folha.uol.com.br

23 janeiro 2009

Corpo a corpo

No sábado passado, o Clube do Conto da Parahyba decidiu que o tema para a próxima reunião seria “coveiro”. Não gostei, mas como não me ocorreu outra sugestão, acabei concordando. Já estava decidido em não escrever nada, quando encontrei na newsletter da BBC Brasil uma notícia sobre uma exposição de obras de arte contemporânea inspiradas em atentados extremistas, intitulada “Embedded Art”.

Dentre as obras que ilustravam a matéria, uma me tocou profundamente. Era a foto de um corpo enrolado em um lençol, o que se configurou para mim uma representação expressiva dos muitos corpos de palestinos vítimas de atentados ou represálias israelenses. Sua autora era a fotógrafa alemã Christina Zueck.
Logo que vi a foto, pensei no tema do Clube e decidi escrever um conto em que um coveiro fazia considerações sobre um corpo anônimo à espera da competência do seu trabalho. Mas logo nas primeiras linhas, o texto começou a se configurar como um poema e assim se concretizou até a última linha.

Assim que postei o poema no meu blog, acompanhado da foto com os créditos do autor e da fonte, enviei para a minha lista de endereços, recebendo imediatamente vários comentários referentes à contundente emoção causada pelo texto e sua ilustração. Dentre essas respostas, infelizmente, havia a da fotógrafa Christina Zueck, solicitando a retirada da foto que ilustrava o poema. Lamentei profundamente, mas atendi à solicitação. Telefonei então para o meu amigo Fábio Cavalcanti, que além de um guitarrista virtuoso é um excelente desenhista e ilustrador. Ele se comprometeu a trabalhar no tema com a urgência possível.

Enquanto esperava a solução do amigo, recorri então ao Google, onde encontrei uma foto jornalística que não possuía a beleza poética da foto anterior, mas me serviria provisoriamente de ilustração.


Hoje de manhã, abro minha correspondência e encontro outra mensagem de Christina Zueck reconsiderando o seu pedido e me autorizando a publicar a foto no blog. Decidi então esperar a ilustração do Fábio para tomar uma decisão, depois de ouvir o Conselho Familiar. Quando chega, enfim, o trabalho do Fabinho, vejo que é uma versão estilizada da foto da Christina.

A decisão coletiva, que decidi acatar, foi que usasse o desenho do Fábio como ilustração definitiva do poema, já que a foto da Christina tinha sido contemplada na postagem inicial. Espero que esteja encerrada esta minúscula querela sobre corpos palestinos envoltos em lençóis.

22 janeiro 2009

O corpo


O que fazer com este corpo?
Onde deve ser enterrado? Ou deverá ser cremado?
Que signo lembrará a sua morte?

Quem conhece este corpo?
Que nome tinha, como era o rosto, quais cicatrizes, como sua voz?

De onde vem este corpo?
Onde morava, com quem vivia, teria filhos, quem são seus pais?

O que fazia este corpo?
Com que lutava, o que comia, a quem amava, com quem dormia?

De quem é este corpo?
De algum vizinho, de algum parente, de alguém distante, talvez o meu?

Ronaldo Monte

Desenho Fábio Cavalcanti




21 janeiro 2009

Não aceitamos reclamações


Melhor não esquecer: Barak Obama não foi eleito presidente do mundo. E quando ele treme a voz para falar "América", não está nem um pouco preocupado com a gente daqui de baixo.

18 janeiro 2009

Isla Ngra convoca: I INTIFADA POÉTICA INTERNACIONAL

Hay que llamar a las cosas por su nombre: lo que está sucediendo en Palestina se llama genocidio.
Es así de simple. Y la única manera de pararlo, de detener la matanza, es con la presión internacional, presión a todos los niveles: cultural, política, diplomática, económica, militar, ética, y todas las variantes y herramientas posibles para garantizar no sólo el STOP a la masacre, sino la plena ocupaciòn de los territorios legítimos pertenecientes a Palestina, por los palestinos...
Ademas de la condena moral al gobierno sionista de Israel (que no representa el absoluto sentir del pueblo israelita) la concreciòn de un juicio a los responsables del genocidio en los estrados internacionales.
Los poetas no podemos mantenernos al margen de la realidad, ni del sufrimiento de niños, madres y padres pertenecientes al pueblo palestino que están siendo masacrados. No podemos mantener nuestra voz en silencio cuando vemos que, en pleno siglo XXI, se intenta borrar del mapa a todo un pueblo, como ya sucedió en reiteradas oportunidades con otros pueblos del mundo. Tenemos que hacer valer los versos de Gabriel Celaya: "La poesía es un arma cargada de futuro" y utilizar, por lo tanto, ese arma, para detener esta guerra.Por eso, los poetas Gabriel Impaglione y Fernando Luis Pérez Poza proponemos la realización de un bombardeo poético de las instituciones, embajadas, empresas, y demás tinglados relacionados con el gobierno israelí, incluida la Casa Blanca de los EEUU.
Proponemos a todos los poetas de la tierra, sin distinciones de ninguna especie, que afinen su puntería y hagan llegar sus poemas por fax, correo postal, e-mail, en definitiva, de todas las formas posibles a dichas instituciones.
Proponemos la
I Intifada Poética Internacional

en la que sustituyamos las piedras por poemas que incluyan los nombres de los responsables del genocidio, la memoria de sus víctimas, el Basta riguroso, indeclinable, a la barbarie.
Allá donde estés envia tu poema a una institución israelí o a la Casa Blanca. Respondamos a las bombas con poemas.
Pueden organizarse los poetas de la manera que crean conveniente.
Hay grupos en todo el mundo que han alzado la voz contra la tragedia, que se han nucleado en la poesia, que han elaborado documentos, publicaciones, organizado marchas y actividades culturales contra la violencia sionista. Poetas que ya han dado el ejemplo con sus versos y su compromiso personal junto a millones de personas que desde sus actividades han sumado la protesta. Pueden los estudiantes de todos los niveles de enseñanza escribir una poesia, incluirla en un sobre y enviarla por correo, personalmente, a una embajada israelì. Todas las formas de lucha poética están a la mano. Poesía ilustrada que se muestre en plazas, calles, lugares públicos. La convocatoria ya esta lanzada, como una piedra-poema... esta acciòn puede decirlo todo con pocas palabras.

Estas son nuestras armas: LA POESIA!!

Visitá el blog: http://isla_negra.zoomblog.com Isla Negra en el Directorio Mundial de la Poesia - www.unesco.org/poetry

17 janeiro 2009

Dor


Tenho um nome, é claro, tenho um nome. Mas esse nome não me diz quem sou. É preciso que me toquem para que eu saiba que alguém me chama. Tenho família, sim, mas não é minha. Eles morrem um a um e não sinto que o mundo se esvazia. Também não tenho história. História para mim tem começo, meio e fim, com um fio condutor ligando os dias. Não tenho fio. Tenho pedaços soltos sem nenhum sentido. Tenho profissão, emprego, cartão de crédito e tudo aquilo que dizem ser preciso. Tenho um carro com farol halogênico e um som de tantos mil decibéis. É com isto que me sinto vivo. Quando acendo os faróis e vejo o pessoal dos outros carros se ofuscar. Quando paro no bar com a mala aberta e as pessoas das mesas pedem a conta. Não gosto de ninguém perto de mim. Nem homem, nem mulher. Só quando estou só me sinto um pouco vivo. É quando bebo para me encher por dentro e ligo o som para sentir a pancada do lado de fora. É quando sei que uma coisa como um grande saco plástico contém o meu transbordamento. Uma borda. É tudo que preciso, uma borda. Quando era menino, batia a cabeça na parede para sentir onde eu terminava. Fiz cruzes com gilete pelos braços. Depois enchi o corpo com tatuagens de demônios. Coisa boa foi quando descobri o tamanho da dor que podia causar nos outros. Briguei muito, senti o gosto de quebrar uma cara com um soco inglês. Apanhei muito, também. E foi apanhando que aprendi que existia um dentro e um fora. A dor marcava essa fronteira. Me viciei em dor. E como em todo vício, fui precisando de doses cada vez maiores de doer. Agora, estou pronto para a dose final. Vai ser como um raio, um microssegundo. Mas no mínimo tempo em que sentir o calor da bala, vou me sentir o mais vivo dos vivos.

Ronaldo Monte
Clube do Conto da Parahyba. 17.01.2009

Imagem obtida em
raparigadaslaranjas.blogs.sapo.pt/arquivo/200...

16 janeiro 2009

Segunda chance

Se for achado em Gaza
um menino em uma manjedoura,
rodeado pelos pais,
três magos
e alguns bichos,
por favor, protejam-no.



Pois a matança dos inocentes
já começou
e a rota de fuga para o Egito
está interditada.

Ronaldo Monte.
16.01.2009
Imagem obtida em: www.nodo50.org

06 janeiro 2009

Sobre "Som e sofrimento"

Foram muitas as pessoas que responderam à provocação que fiz na última postagem do meu blog sobre o problema da agressão sonora como epidemia ameaçadora à saúde pública.
A razão da ampla divulgação do texto deve-se à sua transcrição pela revista eletrônica Sim Paraíba, editada pelo fotógrafo Guy Joseph (http://www.simparaiba.com/), onde convive com dois textos excelentes do jornalista Petrônio Souto. Teve também a decisiva acolhida que recebeu nas listas http://www.umaseoutras.com.br/, mailto:cidadeecultura@yahoogrupos.com.br e mailto:coisademulher%40yahoogrupos.com.br. O jornalista Rubens Nóbrega também deu uma força na sua coluna de hoje (6.01.09) no Correio da Paraíba.
Desânimo
O que me chamou a atenção, porém, foi o grau de desânimo quanto à possibilidade de enfrentar a marcha progressiva dos batalhões dos predadores sonoros. E a principal causa do desânimo é a descrença na vontade dos poderes públicos em enfrentar o problema.
Daí que a maior parte dos comentários sugere a mudança pura e simples dos incomodados, dado o risco do enfrentamento pessoal e direto. Um deles me sugere a fuga na leitura de um bom livro e aproveita a oportunidade para, modestamente, recomendar um romance de sua autoria, recém editado. Se ele me autorizar, posso publicar o nome da obra e do autor. Outra me sugere a compra de um bom fone de ouvido e me fornece o endereço eletrônico de uma rádio que toca música clássica.
Dentre os relatos daqueles que tentaram enfrentar o problema, tem o de uma escritora que, em setembro de 2007, prestou queixa à Sudema e à Ouvidoria da Prefeitura de João Pessoa sobre esse tipo de agressão. Somente em outubro de 2008 recebeu uma resposta da Ouvidoria perguntando se ela gostaria mesmo de manter sua reclamação. Acontece que a reclamante já havia se mudado há mais de um ano, só lhe restando agradecer a presteza do atendimento.
Por outro lado, duas amigas me encaminharam e-mails da Secretária Adjunta da Secretaria do Meio-Ambiente da PMJ, colocando-se a serviço do movimento que porventura surgir a partir da discussão objetiva do problema.
Extensão do problema
Como é sabido por todos, o problema da sujeira sonora não se restringe à nossa Capital. Recebi testemunhos da mesma degradação em cidades como Pombal e Bananeiras. A extensão da epidemia é reafirmada por mensagens enviadas de Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Florianópolis.
Uma lista de discussão
Por considerar como correspondência privada a maior parte dos comentários enviados para o meu e-mail, não me sinto no direito de divulgá-los. Por isso, sugiro que alguma lista já existente se ofereça para abrigar as postagens sobre o assunto, o que proporcionará aos interessados uma visão de conjunto das opiniões e sugestões.
Próximos passos
A partir das sugestões oferecidas na lista que for disponibilizada, sugiro que agendemos uma reunião em que sejam convocados os agentes públicos responsáveis, incluindo aí representantes da cidade de Cabedelo, pela contigüidade territorial e compartilhamento dos problemas causados pela epidemia.
Enquanto isso, minha “assessoria jurídica” (leia-se Ana Lia, minha filha) está fazendo um levantamento das leis e regulamentos já existentes e disponíveis na rede sobre o assunto.
Sugiro a todos que procurem tomar conhecimento de programas desenvolvidos em outros lugares para combater a epidemia sonora. A rede existe para isso.
Não sei, mas tenho a impressão que vamos conseguir alguma coisa se levarmos adiante o movimento. Um abraço ruidoso para tod@s.

02 janeiro 2009

Som e sofrimento


Era véspera de ano novo e eu estava na fila do supermercado. Como sempre, nestes momentos, me distraio escutando o que as pessoas falam ao redor. Mas não era motivo de distração o que ouvi de um senhora atrás de mim: Ai meu Deus, daqui a pouco vai começar a barulheira. Todas as casas da minha rua botam o som nas alturas. Eu não consigo dormir. Fico com uma dor na nuca e uma vontade enorme de vomitar.
Dor e sofrimento. Eis o resultado cabal do desvario a que chegou o uso irresponsável da parafernália sonora ao alcance de qualquer orçamento.
Mas o sofrimento pelo uso do som alto não vitima apenas aos que o escutam involuntariamente. Prestemos atenção aos seus executores. Quando carregam o som na carroceria de suas camionetes, geralmente estão sós, os olhos perdidos muito além do pára-brisa. Quando, em grupo, abrem portas e malas de seus carros na frente de um bar, balançam-se como autômatos, geralmente sem qualquer companhia feminina. Em casa, são deixados a sós na sala pelo resto da família.
É preciso alguém estar muito mal do espírito para infligir a si mesmo, por horas a fio, tamanha tortura. É necessário também uma boa dose de ódio aos seus semelhantes para atacá-los tão agressivamente.
Isto sem falar na qualidade da música, geralmente reduzida a um ritmo primitivo e repetitivo e, quando existe, a uma letra simplória e pornográfica.
Lembrei-me da mulher do supermercado quando, na minha casa de Cabedelo, atravessei a noite do ano novo sob o fogo cruzado de duas baterias sonoropornográficas. Começaram na tarde do 31 e só findaram no começo da noite do dia primeiro. Foram mais de vinte e quatro horas de barbárie.
Exasperado, telefonei para o plantão de polícia para escutar de um sonolento e simpático atendente que o problema não era mais deles. Deu-me o número da Sudema e se despediu com um certo tom de dever cumprido. Disquei para o 88391909 esperando que alguém viesse em socorro do meu meio-ambiente auditivo. Uma voz muito minha conhecida me informou que o número discado estava desligado e não tinha caixa postal.
Desamparado pelo poder público, fui ver o que podia fazer com meu pobre poder pessoal. Me aproximei da casa barulhenta, mas não tive coragem de falar com ninguém. Era um pequeno grupo familiar, com algumas crianças desoladas pelos cantos e um punhado de adultos bêbados de olhares perdidos e passos autômatos. Um quadro mórbido de solidão e sofrimento.
Os problemas causados pelo uso inadequado dos aparelhos de som já se caracterizam como epidêmicos. São, portanto, um caso de saúde pública. Gostaria de fazer alguma coisa mais efetiva para combater esta epidemia. Aguardo sugestões.

Ronaldo Monte

Imagem obtida em:paginaemconstrucao.blogspot.com

31 dezembro 2008

A espiral do tempo




Alguns pensam que o tempo é uma linha reta. Começa-se num determinado ponto e segue-se em marcha batida para onde nos indica a flecha. Para outros, o tempo é um grande carrossel, em que os cavalinhos tangem infinitamente os mesmos lugares.Cada um tem o direito de pensar o tempo como achar melhor, mais conveniente. Para mim, a melhor imagem do tempo é a da espiral. Como aquelas escadas que sobem como um caracol e dão medo de cair a quem olha pra baixo.Alguns mais cultos chamariam, a escada e a figura geométrica, de helicoidal. Mas não há tempo para sermos cultos: o tempo é uma espiral, e pronto. E o que ganhamos com essa imagem do tempo em espiral? Que vantagem tiramos em subir (ou descer) pelo tempo dando voltas e sentindo vertigens?As vantagens, sugiro eu, são exatamente as voltas e as vertigens. Se o tempo é uma espiral, a cada volta sua não passamos exatamente pelo mesmo lugar. Se estamos subindo, passamos mais acima. Se descemos, passamos mais abaixo. Para cima ou para baixo, haverá sempre uma novidade a nossa espera. Subindo ou descendo, nosso corpo se afetará tanto com o movimento quanto com a novidade. Daí a vertigem, daí a sensação de redemoinho, de mar agitado que o tempo às vezes nos traz.Mas nem sempre é tempo de novidade e vertigem. Existem momentos de calma e repetição que merecemos desfrutar. É um tempo assim que eu desejo para você nas festas de Natal e Ano Novo. Em paz, na sua casa ou fora dela, com as pessoas queridas de sempre.E se alguém ou algo novo se insinuar neste tempo, que esse novo seja acolhido na calma repetição dos momentos de confraternização que aprendemos a viver com nossos antepassados e teimamos em transmitir aos que sobreviverão a nós.

imagem obtida emwww.mat.uc.pt/.../conchas/imagens/helicoidal.png

29 dezembro 2008

Edifício do tempo
















Edificar
pedra sobre pedra

pelo tempo esperar

com o tempo
ver passar a dor
e o que finge ser dor

ver passar o bem
e o seu avesso

o amor
e a sua falta

ver o próprio tempo passar
tombando pedras.

Tempo de novo
pedra sobre pedra
edificar.

Do livro "Tecelagem noturna" (2000).
Ilusttração: Time



26 dezembro 2008

Um poema de Márcia Maia






anti-elegia

para Rona




a dor
sobrepõe-se ao silêncio
quase religioso
do azul sem nuvens
que
opressivo
derrama-se
sobre o vidro da janela

corrói e corrompe
conspurca a beleza do instante

numa concretude impalpável
indizivelmente real



Márcia Maia

Imagem obtida em: olhares.aeiou.pt

22 dezembro 2008

Grávidos de Deus



Mais uma vez vai nascer um menino. Cada um, a seu modo, neste lado do mundo, quer deixar marcado este dia em que se convencionou que o menino vai nascer.
De quem é o menino que nasce? Quem é seu pai, sua mãe? Ele mesmo nos dirá mais tarde: sou o filho do homem. Nasce, pois, de cada um de nós, de nossa humanidade. Isto quer dizer que ele é o que virá depois de nós. O modelo daquilo em que o ser humano se transformará, se tempo nos sobrar para tanto.
Mesmo que daqui a pouco estejamos lamentando sua morte, por nós mesmos decretada e executada, nada impede que agora estejamos contentes com o seu próximo nascimento. Por agora não sabemos nada da nossa maldade. Agora somos puros, somos virgens, inocentes de toda crueldade de que somos capazes. Por enquanto somos inocentes. E neste lapso de memória da matéria corruptível que nos forma corpo e alma, estamos prontos mais uma vez para gerar o menino e esperar que com ele renasçam nossas esperanças.
Esperemos, pois, com a paz possível, que mais uma vez nasça este menino. Façamos de conta que somos bons, que amamos nosso próximo, que cuidamos do planeta em que moramos. E se ele também se diz filho de Deus e nascerá mais uma vez de nós, estamos todos grávidos de Deus. Este é o milagre que se renova a cada ano no ventre da humanidade.


Imagem obtida em:raquel2006.flogbrasil.terra.com.br

20 dezembro 2008

A porta















A maçaneta girou, a porta rangeu e ficou entreaberta. Estava só em casa. Estava só no quarto. Ficou olhando a fresta com uma clara convicção: tinha alguém ali.
Estava só no quarto, estava só em casa, estava só no mundo. A solidão era seu elemento natural. A suposta presença atrás da porta desequilibrava seu modo de ser. Seja lá quem ou o quê estivesse ali, exigia que saísse de sua letargia, do seu alheamento às coisas do mundo.

Era penoso situar-se no lado de lá da fronteira de si. Só sentia segurança da pele pra dentro. E agora, alguém ou algo espreitava, aguardando o menor descuido para entrar de vez no centro do seu refúgio.

Respiração pesada, suor pegajoso, olhos pregados na fresta que lançava um ângulo de luz quarto adentro.
Respiração pesada, suor pegajoso, olhos fechados pelo peso da vigília. A paz do escuro dentro do círculo fechado do sono.
Respiração pesada, suor pegajoso, olhos abertos em susto. A porta toda aberta.

Ninguém nem nada para além do umbral.


Ronaldo Monte - Clube do Conto da Parahyba
20.12.2008

Ilustração: Fábio Cavalcanti

16 dezembro 2008

O olhar como gesto




Está cada vez mais difícil olhar o mundo com nossos próprios olhos. Antes de olharmos o mundo, somos doutrinados a ver apenas o que os meios nos mostram. E os meios nos treinam para ver um mundo ruim, onde a ganância e a maldade dirigem todas as ações humanas. Se quisermos ver o mundo, é preciso, antes, limparmos os olhos de toda a cinza que turva a nossa visão.

Sair para a rua, conversar, andar por aí de olhos e ouvidos abertos. Fugir do lugar comum das opiniões consagradas. Não deixar passar a frase feita que nivela a todos pela medida mais rasa. Não, brasileiro não é preguiçoso. Nem todo político é ladrão. Não, as periferias das cidades não são povoadas por marginais. A grande maioria é gente solidária e batalhadora. Não, as pessoas não gostam de pornografia. Elas se extasiam na presença da poesia.

Superar o lugar comum dos olhares requer uma disposição ao espanto do novo. Requer esforço que nos arranque do ponto de vista caduco e nos ponha noutra posição de visada. Ver como os artistas. Os poetas e os pintores. Abandonar o olhar passivo que recebe o mundo que nos mostram. Exercer o olhar como gesto. O que inventa o mundo enquanto vê.

Ilustração: Flávio Tavares

05 dezembro 2008

Meus prêmios



Acabei de ganhar dois prêmios no Concurso Literário da Cidade do Recife. O primeiro lugar em poesia, com o livro “Onde a minha Rolleiflex?” e o primeiro lugar em ficção, com o romance “Peccata mundi”. Quem vai receber o primeiro prêmio é a minha Amiga Márcia Maia. O segundo, quem vai receber é o meu amigo Geraldo Maciel, o bom e velho Barreto. Nada mais justo, pois foram eles que escreveram os livros. Eu apenas fui premiado.

Há muito tempo sou premiado com o privilégio de participar da lista de correspondência de Márcia Maia. Conheço, pois, os seus poemas muito antes de se transformarem em livros. Fui escolhido por Barreto como um dos primeiros leitores dos originais de “Peccata mundi”, além de ter acesso à ouriversaria dos seus contos nos fins de tarde dos sábados do Clube do Conto.

Os prêmios de Márcia e Barreto não são os únicos que a literatura me deu. Eles fazem parte de um prêmio bem maior. O privilégio de conhecer e conviver com um bando de insanos que, premiados ou não, tecem as palavras com as quais transcendemos a banalidade do mundo.


Ilustração obtida em: www.imagensdahora.com.br

29 novembro 2008

Pequenina



Ele tomou teu corpo, Pequenina, e usou como alcova de todos os vícios. Ele te seduziu com o engodo da beleza e da juventude, mas não estava só. Trouxe com ele os homens velhos que se serviram de ti sem dó da tua pequenez, do teu desvalimento. Ele era apenas mais um daqueles que há muito tempo te cobrem de sangue e de luto.

Por duas vezes o mandaste embora, Pequenina. Mas ele sempre deu um jeito de ficar. E a raiva do desprezo fez com que viesse à tona o que restava oculto no porão dos vícios.

Teu pequeno corpo minguou mais ainda à sanha dos maus-tratos. Outros tentaram obrigá-lo a ir embora. Mas ele os convenceu de que ainda eras sua posse. E quando já pensavas em descansar e curar tuas feridas, uma nova carga de ódio se abateu sobre ti, pela ousadia de te pensares livre.
E teu corpo pequenino, exausto e arfante, espera indefeso o pontapé que te quebre a última costela.

Ronaldo Monte
Clube do Conto da Paraíba, 29.11.2008
Imagem obtida em: www.parceria.nl

28 novembro 2008

O prêmio no mural




Existem muitas formas de um autor ser premiado. O meu prêmio mais recente me foi dado por uma adolescente do Centro Comunitário de Mandacaru. Quando cheguei para a oficina de leitura, na terça-feira passada, ela me chamou pelo nome completo e me mostrou um painel escrito em letra cursiva. Fui eu que fiz, disse. E se afastou depressa, arisca como sempre. Tive uma emoção muito forte quando vi o fragmento de um texto que escrevi a algum tempo chamado “Consciência mestiça”. E estava lá como parte das atividades da semana da consciência negra:

O que me faz homem não é o lugar em que nasci, não é a cor da minha pele, não são as ondas do meu cabelo. O que nos faz a todos humanos é a linguagem que nos salva do isolamento e da morte. E o que me faz ser este ser humano particular é a língua que falo. Para saber quem sou, não precisa analisar meu sangue, vasculhar meus cromossomos, rotular a cor da minha pele. Basta escutar a língua que falo. E é nesta língua que encontro minha identidade.

A menina era participante do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil – PETI e há algum tempo eu tinha dado dois livros meus à monitora do Programa. Foi do livro de crônicas “Pequeno Caos” que ela tirou o texto.

Das várias maneiras de se receber um prêmio, esta é uma das mais preciosas. Vale para me reafirmar que é necessário continuar escrevendo, pois nunca sabemos que caminhos tomarão os nossos textos. E é uma emoção muito grande encontrar um deles escrito à mão numa cartolina, colado numa parede de um centro comunitário.

20 novembro 2008

Luto e espera




Definitivamente, a vida não é para principiantes. A minha, pelo menos, não é. Não fez nem três dias que perdi um irmão e já me vem a notícia de que vou ganhar mais um neto (ou neta, ainda não dá pra saber). E eu, que mal me introduzia nas sombras do tempo do luto, sou convocado às pressas ao tempo da espera.

O trabalho do luto nos serve para limar as arestas contundentes do morto, esmaecer os tons rascantes de sua índole, até que fique na memória um quadro resumido de suas qualidades, com o qual conviveremos em paz pelo tempo que nos sobra. O luto é uma conta de diminuir.
A espera de um nascimento é, ao contrário, uma conta de somar. A notícia nos coloca frente a uma tela em branco que nos cabe aos poucos preencher com os traços do nosso desejo. O rosto deve ter o contorno suave da mãe, com certos traços mais fortes do pai. Claro que não deve faltar alguma coisa dos avós, detalhes que admiramos nos tios, um fio da beleza de algum parente distante. Daqui a um tempo, vamos saber se é menina ou menino, o que nos exige certas correções no projeto. E ao fim dos breves nove meses, temos que fazer os ajustes finais entre o sonho e a sua realização.

Estava eu, pois, em plena operação de diminuir, quando me atropela a exigência de uma conta de somar. E aqui estou, diminuindo com uma das mãos e somando com a outra. Como um pedreiro contratado para uma demolição e que, mal começa o trabalho, sabe que terá, ao mesmo tempo, de construir uma nova casa no mesmo terreno. Ainda bem que não sou principiante.

Imagem obtida em: www.mexicanbeautygiftshop.com

17 novembro 2008

A vida depois da morte

Para meu irmão Othon Celso

Depois de bem lacrada a sepultura, esgotadas todas as lágrimas possíveis, os que singraram o tempo espesso da vigília têm pressa em sair dali. Cansados da roda em volta do esquife, anseiam pela intimidade de uma mesa, em torno da qual se quer comer e beber em memória do morto.

Pouco importa o sabor da comida improvisada. O que se quer é ouvir as vozes íntimas e em cada uma delas reconhecer um pouco da voz ausente. Pouco a pouco, a conversa vai se afastando das coisas da morte. A gravidade da falta vai aos poucos sendo vencida pelo relato dos pequenos casos, a lembrança dos cacoetes, das frases preferidas que não mais se repetirão.

A trama das palavras realiza uma vez mais o seu milagre. Cada relato revela uma pessoa diferente, vista como pai, avô, irmão, sogro, amigo. O que era um, agora se torna múltiplo. Revive de formas diversas na memória e no coração de cada comensal.

Desfeita a mesa, começa um novo tempo. Lentamente, a densidade da perda irá cedendo espaço para o sentimento leve da presença do ente amado dentro de nós. E desta forma ele partilhará conosco das infinitas surpresas que a vida nos reserva. Esta é a prova da vida após a morte.

09 novembro 2008

Ao animal que vai morrer


Há uma certeza inabalável no olho do animal que vai morrer. Vejam o boi no matadouro, o rato na pata do gato, o homem à margem do Hades.
Há um certo ar de nunca, um quê de último ato, uma antecipação da falta que dali a pouco se fará.
É obsceno se opor a esta certeza. Qualquer piedade é pornográfica. O Animal que vai morrer não nos pede nada. Ele quer apenas que fiquemos aqui, no cais dos sobreviventes, passivos ao desatar dos nós que deixarão fluir a barca de Caronte.
Há uma certa urgência no olho do animal que vai morrer. Ele tem pressa em apagar de vez a visão de nossas faces constritas e piedosas. Pois é esta visão que o impede de nos esquecer e se entregar por inteiro à novidade do nada.


Imagem obtida em : quadradoredondotriangular.blogspot.com

05 novembro 2008

A Cidade de Lau Siqueira










O troar dos tambores do urso, a doçura da flauta e dos pés dos caboclinhos, as ondas suaves da ciranda, o atávico gingar da capoeira e a dança nervosa das ruas louvam ao cidadão Lau Siqueira.


Todas as tribos, todas as vozes livres da Cidade das Acácias vieram acolher o homem que veio das lhanuras de um país sem fronteiras mostrar que as fronteiras não existem.

E ao nome de homem que lembra o ódio e a morte, por certo a Cidade escolherá este outro. O nome do poeta que junta os amantes, combate as misérias do corpo e da alma e constrói um futuro em que música, dança e poesia andem nas ruas de mãos dadas com a gente.

E por um tempo que os relógios não marcam, música dança e poesia habitaram a Câmara Municipal da Cidade de Lau Siqueira. E fomos todos cidadãos de Lau Siqueira, uma cidade feita de palavras e gestos de amor e solidariedade.




Texto sentido
Para Lau Siqueira










Um tênue manto envolve a pele do poeta.
Tecido de palavras ditas e a dizer,
esconde o corpo do poeta à cobiça da morte.
Engodo inconsútil,
finge proteger das asperezas do mundo
mostrando-se flagelo de enigmas
claros e escuros.
O poeta não vê,
não ouve,não cheira,não tateia
nem sente sabor.
O poeta sofre o peso do seu manto
e dele suga as palavras
que matam a sua fome de sentido.
Ronaldo Monte
08.11.2007

02 novembro 2008

Tempo e palavra


Para Waldir Pedrosa Amorim
Sessenta vezes o poeta
deu voltas em torno do sol
em busca da luz
que lhe mostrasse a palavra perdida.
E a cada nova estação
a palavra faltava ao encontro marcado
com o poeta.

Fez também o poeta
vinte e um mil,
oitocentos
e quarenta e oito
voltas em torno de si mesmo.
E a cada metade de luz
em que a palavra ao longe acenava,
sucedia uma metade de sombra
em que ela novamente
se perdia.

Por mais tempo que viva,
restará ao poeta as palavras-migalha
jogadas pelo tempo
como esmola
no seu chapéu de pedinte,
que ele catará ao fim do dia,
ávido de re-encontrar o verbo
que nunca chegou a conhecer.

Ilustração obtida em: terrag2.pbwiki.com

25 outubro 2008

Desabrigo


Estava sob as cobertas numa cama confortável, na penumbra de um quarto aconchegante de um apartamento amplo e seguro. Com tudo isto, sentia um enorme mal-estar. Era seu corpo que não mais servia de continente para aquilo que também sentia como si mesmo. O corpo e a coisa, definitivamente, não se entendiam.
Por mais que tivesse lido e ouvido os argumentos sobre a unidade do corpo e do espírito, o que sentia agora era todo o peso da velha doutrina dualista. O que mais lhe chamava a atenção é que os filósofos e os religiosos nunca encontraram um termo que nomeasse esta suposta entidade única e indivisível. Ao fim de todos os arrazoados, o vício lingüístico se impunha: corpo e alma, corpo e espírito, corpo e psiquismo, corpo e mente.
Ali estava ele, a mais crassa expressão do velho dualismo. Alguma coisa sobrava no seu corpo. Algo espesso e frio pendia das bordas da sua matéria. Era algo invisível, impalpável, mas percebido confusamente como uma coisa fora do seu lugar. Isto ele podia perceber do ponto de vista do seu corpo. Mas se tomasse o lugar da coisa transbordante, o que sentia era uma imensa sensação de desamparo, uma necessidade enorme de contenção. Pois à medida em que pendia, ameaçava dividir-se em gotas espessas, ao mesmo tempo em que se experimentaava como angústia pela deformação e o gotejamento da memória.
Não suportava mais a dupla condição em que jazia. Como corpo, sentia-se fracassar em sua função de continente. Como espírito, alma, mente, psiquismo, seja lá que nome tenha esta coisa informe e espessa, perdia a consistência da memória e da continuidade. Foi assim que desejou morrer. Se matar. Mas não sabia por qual parte começar.


Imagem obtida em: dois-rios.blogspot.com

Cila


Caminhava na praia entre o mar e a falésia quando avistei sobre as pedras um vulto que me pareceu de uma mulher. Enquanto andava em sua direção, configurava-se o corpo acinzentado de uma morta, fendido pelo sal e pelo sol. A boca meio aberta calava angústias. A cabeça pendida denunciava um longo tempo de agonia. Cheguei mais perto e mostrou-se a cauda ressequida de sereia. O ventre alto tinha marcas de coisas que antes pendiam dali.
Próximo daquela criatura que o tempo me trouxera, pude entender o que queria de mim: que contasse a sua história. Que a salvasse do esquecimento e da tortura a que estava condenada. A cada vez que o mar subia, à medida em que as águas molhavam suas carnes, sua memória despertava aos poucos, revelando traços, formando quadros, ligando tempos, mostrando cenas. Mas quando alguma história parecia se formar, já era tempo de baixar as águas. E com o líquido se esvaía também a possibilidade das lembranças. Seca e esquecida ficava ao pé da falésia até que novamente o mar subisse. Então eram outros os traços, os quadros, os tempos e as cenas. Uma história outra se insinuava. Mas antes de qualquer esboço de sentido, a maré novamente vazava.
Adivinhei seu nome: Sila. Busquei os antigos que narraram seu mito. Assumi o fardo de contar seus infortúnios. Até onde permitir o engenho, tecerei uma memória para Sila. Para que ela enfim possa livrar-se do esquecimento e eu possa enfim livrar-me do peso da sua presença.

20 outubro 2008

Teatro Falado




Atores falam a crônica trágica, Campinas, SP · 26/10
Neutzscha · Campinas (SP) · 8/10/2008 22:37 · 5 ·

Ainda, se fosse mulher feita, se entendia! Capava,mas se entendia! Mas um nada de calçola e nariz escorrendo!" - A atrocidade exposta no corpinho magro da criança morta e estragada -Atores montando a literatura de Ronaldo Monte O Grupo teatro falado foca a literatura do dia -a- dia, crônicas de amor e humor,autores nossos, que moram pertinho e podem participar do processo de criação e montagem. O Teatro Falado é descartável,dispensa altas produções, pode ser levado em bares, cafés e livrarias,pequenos eventos literários. A “Lógica” conto de Ronaldo Monte. A literatura envolvente e macia nos conduz ao miolo da violência sexual infantil, desfecho inesperado. Mas que escrito de uma forma contundente, onde os moradores resolvem a morte do estrupador. O Grupo abraçou a poesia dolorida com que foi escrito o conto. Uma cena ágil e trabalhada. Nada dramático. Não queremos chocar. Isso é inútil. Somos pela comoção. Pela emoção. Coincidentemente, a Secretaria de Cultura tem parceria com Ongs, entidades assistenciais que trabalham com crianças vítimas da violência sexual. Vamos apresentar o trabalho para esses profissionais. Vamos apresentar o Conto de Ronaldo Monte para as pessoas mais comuns da nossa sociedade, e para o segmento social que convive com a violência sexual infantil. Ronaldo Monte é Alagoano. Alem de escritor, é psicanalista e professor ,publica crônicas em jornais da Paraíba. A autoria e direção do projeto é de Neusa Doretto. No elenco,Carlos Gomes,Ademar Santos,Diego Pereira,Sonia Paiva,Jéssica Paiva e Elen Fernandes.
tags: Campinas SP artes-cenicas
onde fica

As apresentações serão na Casa de Cultura" Antonio da Costa Santos", durante o Evento Via das Artes, dia 25 às 17 horas,para Entidades que trabalhem com crianças vítimas da violência sexual. Maiores informações,com Neusa Doretto, cel.: 19-8173 3693 e 19-32587828 , das 13 às 18 horas.

12 outubro 2008

Construir um amor

Já faz algum tempo que escrevi este poema, inspirado na canção de Bola de Nieve. Compartilhe.

http://video.google.com/googleplayer.swf?docid=2768798523833005718&hl=en&fs=true

10 outubro 2008

Eu, Pio XII e a morte




O tempo voa. Um portal de informações me lembra: faz cinqüenta anos que morreu o meu primeiro Papa. Eu tinha onze anos. Meu pai tinha deixado de ser crente e minha mãe, com medo de que eu ardesse no inferno, me matriculou na escola da paróquia de Água Fria, no Recife, onde eu deveria me iniciar nos mistérios do catolicismo. E um dos mistérios mais indecifráveis era sobre o que fazia o bom pároco pra lá e pra cá no seu jipe, sempre acompanhado de duas ou três jovens paroquianas.

Uma certa manhã, todos reunidos no salão nobre da escola, transido em sofrimento, o padre nos anunciava a morte de Pio XII. Minha condição de católico adventício não me deixou contaminar pelo clima de consternação que tomou conta de todos. Como todas as tragédias têm seu lado bom, as aulas foram suspensas. No caminho de casa, pude ver que o clima de orfandade tinha se alastrado por toda a rua, todo o bairro. Em casa, sob os olhos marejados de minha mãe, soube pelo rádio que era o mundo todo que sofria de súbito desamparo. Eu me senti um estrangeiro, alheio àquele sentimento de perda e sofrimento.

Até hoje, cinco papas depois, não consigo compartilhar da comoção que se alastra pelo mundo toda vez que morre um Papa. Para mim são mortais comuns, sujeitos, portanto, à morte. Lutaram ferozmente pelo poder e o conseguiram na esperança de viver no fausto e no gáudio o resto de suas vidas. Se tivessem um mandato limitado, pouquíssimos deles resistiriam como figuras históricas dignas de respeito. Aí estão as suspeitas cada vez mais prováveis sobre as vistas grossas feitas pelo mesmo Pio XII à perseguição dos judeus pelos nazistas. Um dia saberemos dos bastidores da cruzada de João Paulo II e sua Opus Dei contra os avanços da doutrina do Vaticano II e suas investidas obscurantistas contra os avanços na ciência e nas relações sociais.

Numa coisa, porém, a igreja católica merece o meu respeito: é a sua capacidade de produzir espetáculos. Seja na exibição terrificante dos autos de fé medievais, ou no minucioso planejamento dos funerais de um pontífice. Se existe hoje uma sociedade do espetáculo, sua precursora é a igreja católica, com seus paramentos exuberantes, suas piedosas e sangrentas vias sacras, suas catedrais magníficas banhadas de arte e ouro.

Tive sorte em não ser envolvido pelo comoção global causada pelos funerais do controvertido Pio XII. Era apenas mais um espetáculo que a velha senhora oferecia ao mundo. Nada comparável ao sucesso permanente do seu carro-chefe publicitário, o melhor exemplo de espetacularização da morte nos últimos dois mil anos.

05 outubro 2008

Sinal


Uma mulher com uma criança no colo e uma menina agarrada à sua saia esperava que o trânsito pesado diminuísse para poder atravessar em direção a uma favela no outro lado da pista. Estava ansiosa e a menina tinha medo. Parei o carro perto dela e aconselhei que procurasse atravessar na faixa que estava ali, a uns dez metros, sob um semáforo operado pelos pedestres. Ela olhou intrigada para mim, com cara de quem não entendeu, e continuou no mesmo canto, com a mesma agonia.
O pequeno incidente me deixou com algumas perguntas para as quais ensaio umas respostas. Em primeiro lugar, o que faz com que uma pessoa escolha arriscar sua vida e a de seus filhos, tendo a pouca distância um sistema confiável que os deixaria com segurança no outro lado da pista? Em segundo lugar, por que, mesmo com a minha intervenção, essa pessoa insistiria em não usar a faixa e o sinal tão fáceis de alcançar?
A tentativa de resposta à primeira pergunta seria que a camada da população à qual a mulher pertencia está condicionada à desproteção, à ausência de serviços e equipamentos públicos que cuidem da sua segurança. De tal modo que não percebem quando um destes serviços ou equipamentos é colocado à sua disposição. O desamparo histórico ao qual estão condenadas faz com que essas pessoas simplesmente não registrem qualquer alteração nesse tipo de tratamento por parte do poder público. A faixa e o sinal de trânsito não foram feitos para aquela mulher. Por isso ela não os vê, mesmo que estejam instalados na entrada da favela em que mora.
Quanto à ineficácia da minha recomendação, a resposta não é muito diferente. Desde quando um motorista de um carro particular pára na pista para dizer qualquer coisa que não seja um impropério a uma pessoa daquela? Pelo olhar de intriga que ela me lançou, tenho certeza de que não entendeu nada do que eu disse, pois não faz parte da expectativa dela que uma pessoa como eu se preocupe com a sua segurança.
Não estou muito seguro do que digo, mas suponho que aquela mulher e as duas crianças são vítimas da falta de cuidado. E não basta uma faixa e um semáforo para que se sintam protegidos. Muito menos lhes serve a advertência de um motorista bem intencionado. O cuidado que lhes falta é atávico. São mais de quatro séculos de desamparo, à margem de políticas públicas que lhes permitam se perceber como cidadãos dignos de usar uma faixa e um sinal de trânsito e de escutar sem medo o que um outro cidadão lhes tem a dizer.

Imagem obtida em: melquilima.blogspot.com

28 setembro 2008

Trigal


Urubus em revoada
denunciam
a orelha decepada
que o trigal esconde.

Ronaldo Monte
Clube do conto da Paraíba
26.09.2008
Imagem obtida em: docafundo.blogspot.com

27 setembro 2008

Entre a Lapa e o Abasto






Estive na Lapa um dia destes. Quer dizer, não estive na Lapa. Pois a bem dizer, a Lapa não existe. O lugar onde estive é um arremedo daquilo que um dia foi a Lapa. Gastaram-se fortunas para fazer com que os bares ficassem parecidos com os botequins de antigamente. Um considerável aparato policial garante a segurança do faz de conta da classe média que devaneia procurando dar de cara com Madame Satã, ou sentar na mesma mesa de Noel Rosa e Araci de Almeida.

Um dia destes estive em Abasto. Da mesma forma, não estive em Abasto. Assim como a Lapa, o velho reduto portenho do tango, com seus becos, suas putas e cafetões foi maquiado para receber a classe média. Seu belo e imponente mercado público foi transformado em um shopping de luxo, sob o olhar complacente de uma estátua de Gardel.

Lapa e Abasto retratam muito bem o destino de muitos lugares do mundo. Transformaram-se em não-lugares. Ninguém mais mora lá. As pessoas passam, olham, compram, comem, bebem e vão embora.

O não-lugar foi o que restou para nós, a classe média da contemporaneidade. Vivemos nostálgicos de antigos lugares que não nos pertenceram. E os lugares que nos pertenceram viraram, quase todos, não-lugares. A casa em que nasci, a rua em que cresci, o colégio em que estudei, tudo isso desapareceu ou se transformou em ruína, supermercado ou templo evangélico.

Lapa, Abasto, Cidade Baixa, Recife Antigo, Centro Histórico de João Pessoa. São muitos os não-lugares que a pós-modernidade nos oferece na impossibilidade de nos preservar uma continuidade histórica.
Estive na Lapa, estive no Abasto. Pisei o mesmo chão que os antigos pisaram. Dobrei as mesmas esquinas que os bambas dobraram. Mas a linha do tempo se partiu. Entre mim, Gardel e Noel existe um abismo que a saudade não pode transpor. Melancolia é o nome deste abismo.

19 setembro 2008

O bom ladrão


Ainda tem gente que continua mantendo opiniões conclusivas sobre o caráter das pessoas, como se o ser humano fosse uma tela uniforme e monocromática. O exemplo do ladrão de carro de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, pode nos ensinar muito sobre a cordilheira multicolorida que constitui cada um de nós.
Depois de furtar um carro numa madrugada, o ladrão descobriu, quarenta minutos depois, que uma criança dormia no banco de trás. Levou o carro para os fundos de um posto de gasolina e telefonou indignado para o plantonista do 190: “Vou ser sincero: eu roubei um carro que tinha um piazinho dentro e eu não vi. Manda uma viatura lá pegar o guri e avisa ao filho da puta do pai dele para não fazer mais isso. Avisa que, da próxima vez que eu pegar esse auto e tiver o piá lá, eu mato ele.”
Por conta da violência generalizada com que nos habituamos a conviver, seria muito mais congruente esperar que o ladrão abandonasse a criança em um lugar qualquer e mantivesse a posse do carro. Acontece que ele é ladrão, mas provavelmente é um bom pai. E foi o sentimento de revolta pelo descuido com a criança que o fez abdicar do fruto do seu trabalho. E a muito mais: ter de se denunciar parcialmente como ladrão à própria polícia.
Alguns psicólogos chamam de “dissonância cognitiva” a este tipo de ambigüidade, como se cada um de nós estivesse condenado a um comportamento coerente, lógico, linear. Na verdade, todos nós somos muito parecidos com o bom ladrão de Passo Fundo. Roubamos e amamos, muitas vezes à mesma pessoa, sem nenhuma obrigatoriedade de uma dessas ações anular o efeito da outra.
Isto fica bem claro no final do telefonema do ladrão: a sua indignação é tão grande quanto o seu amor à profissão. Vai continuar roubando, sim. Mas o suposto pai da criança está avisado: se esquecer mais uma vez o piá no carro, morre.


14 setembro 2008

O mal da inveja




Faz muito tempo que um amigo meu me advertiu: “olha cara, aqui em João Pessoa, o melhor parâmetro para se medir o sucesso de uma pessoa é a quantidade de invejosos que falam mal dela. Te cuida, pois já começaram a ter inveja de você”.
Esta advertência me veio à cabeça durante o lançamento dos dois livros de Tarcísio Pereira, quarta-feira passada, no bar do Teatro Santa Roza. O pobre do autor quase pediu desculpas pelo duplo lançamento. Sabia que iam falar mal dele pelos dois romances editados pelo Fundo de Incentivo à Cultura, do Governo do Estado.
Não é de hoje este pendor de Tarcísio para provocar a ira dos invejosos. Teve um ano em que ele publicou, de uma tacada só, doze peças de teatro. Caíram em cima do rapaz, chamando-o de prolixo e ambicioso, dentre outras coisas que deixaram arregalados os seus olhos infantis (como os olhos de um bandido).
Claro que ainda não li os novos romances de Tarcísio, O homem que comprou a rua e O sacrifício dos anjos. Mas talvez deixe que eles furem a fila, pois conheço a prosa do autor desde Agonia na tumba, de 1993. Gosto muito de tudo que ele escreve.
O que eu quero que Tarcísio Pereira saiba é que seus leitores não esperam dele qualquer pedido de desculpas pela sua capacidade de produção. O que não vamos desculpar é que seus livros fiquem dormindo no fundo da gaveta, ou num canto perdido de um HD.

Quando Tarcísio veio na minha casa me dar a honra de apresentar sua novela Uma noite no céu, em 2006, me falou que tinha mais quatro romances prontos esperando publicação. Juro por Deus que não senti nenhuma inveja. Principalmente porque achei que era mentira.
Imagem obtida em releitura.wordpress.com

11 setembro 2008

Publicado no número 100 do Rascunho




A CONDIÇÃO E O EXERCÍCIO QUE TRANSTORNARAM A VIDA DO SR. QUIJADA - Ronaldo Monte

En un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme, no ha mucho tiempo vivía un hidalgo de los de lanza en astilero, adarga antigua, rocín flaco e galgo corredor. (....) En resolución, él se enfrascó tanto en su lectura, que se pasaban las noches leyendo de claro en claro, y los días de turbio en turbio, y así, del poco dormir e del mucho leer, se le secó el cerebro, de manera que vino a perder el juicio.
Herdara o sobrenome do pai espanhol que cansou de viver na pobreza fora das muralhas da cidade de Toledo e veio morrer de pobreza numa casa de vila no bairro de Jaguaribe. Foi a única herança que seu pai lhe deixou: o sobrenome de Quijada. Odiava que o chamassem pelo nome de Miguel, pois ninguém o pronunciava como gostava, com o "ele" final acentuado, como seu pai o chamava. Também não gostava quando abrasileiravam seu sobrenome, esquecendo de pronunciar o "rê" no lugar do "jota". Antigamente reclamava, mas ninguém ligava. Afinal, quem iria saber como se pronunciava o nome de um contínuo de repartição pública estadual, de paletó puído e a barba sempre por fazer?
Pelo menos aqui, nestas páginas, vamos chamá-lo do jeito que gosta: Miguéll Quirrada. Mas vamos também respeitar a grafia original do seu nome, pois ele a preza muito: Miguel Quijada. É a única coisa na vida que o torna diferente da massa de contínuos que vagam invisíveis pelas repartições públicas municipais, estaduais e federais de qualquer lugar do mundo.
Miguel Quijada tinha um sonho. Possuir uma grande biblioteca, daquelas que as pessoas vêm de longe visitar, que os professores do bairro vêm pedir livros emprestados, que os vizinhos desdenham de pura inveja ou ignorância. Vivia à míngua, guardando cada centavo para gastar nos sebos ou nas prateleiras modestas reservadas nas livrarias às edições de bolso. Mas não se pense que comprava livros por vaidade. Lia cada um antes de acomodá-los na estante.
Quando a mãe morreu, ocupou o quarto dela com seus livros. Sem ninguém mais com quem se preocupar, passou a torrar com livros o que antes gastava com remédios. Sua biblioteca crescia a olhos vistos, agora acrescida de livros de edições recentes das grandes editoras, alguns até de encadernação em couro. Miguel Quijada amava sua biblioteca.
Acontece que livros não fazem café, não varrem a casa, não forram cama nem se deitam nela. Miguel Quijada quis uma mulher e a teve. Chamou para morar com ele uma vizinha solteirona, de nome Dulcinéia, que um dia ficou impressionada com sua biblioteca. Se gosta de livros, há de gostar de mim.
Dizem que algumas pessoas têm os olhos maiores que a boca. Não era o caso de Dulcinéia. Por mais que gostasse de livros, por mais que os devorasse com os olhos, seu estômago roncava, atrapalhando a concentração na leitura. Não teve dúvida. Pegou o exemplar d'O crime do Padre Amaro que acabara de ler e trocou por uns pacotes de bolacha de água e sal e um pouco de manteiga. Num domingo de manhã, em que foi procurar o exemplar das Edições de Ouro d'Os Lusíadas, Miguel Quijada notou a banguela na prateleira do lado da porta. Faltavam bem uns vinte livros. Interrogada, Dulcinéia fuzilou: livro não enche barriga de ninguém.
Miguel Quijada amava os livros. Mas não podia viver sem Duilcinéia. Muito menos impedir que ela vendesse os livros nas horas em que tinha de ir para o trabalho. Instalou-se então uma batalha cruenta. Miguel Quijada decidiu-se a reler todos os livros que ainda lhe restavam, antes que Dulcinéia os trocasse por bolachas. Varava as noites de olhos pregados naquelas páginas preciosas, se despedindo de uma em uma. A cada manhã, Dulcinéia entrava no quarto e levava para trocar por comida o livro que a mão do homem adormecido tentava proteger.
Um dia, ela entrou no quarto e encontrou Miguel Quijada sentado, de olhos abertos, apertando contra o peito um grosso volume de capa de couro verde, com o título impresso a ouro. Ela estendeu a mão, imperativa. Ele fez um não com a cabeça. Ou ele, ou eu. Você escolhe. Ele olhou para o livro e deu as costas para ela. Ela saiu porta afora para nunca mais.
Sozinhos, enfim, o homem e o livro. Miguel Quijada olhou para as estantes vazias, pronto para recomeçar. Não perdera tudo. Restava aquele ali, que colocou com cuidado sobre a mesa, abriu numa página qualquer, com os olhos anuviados pelo sono. O vento que folheou as páginas em sua frente movia agora as pás de um velho moinho lá para as bandas da linha do horizonte. Miguel Quijada montou em seu Rocinante e avançou de lança em riste contra o gigante que roubara sua amada.

RONALDO MONTE mora em João Pessoa (PB). É autor do romance Memória do fogo (Objetiva).

06 setembro 2008

Força estranha



Ela me ataca por dentro. Toma meu corpo de assalto. Não importa onde eu esteja. Na cama, na mesa, em frente ao computador. Não se anuncia. Assume o comando dos meus músculos, dos meus ossos, das entranhas. Obriga-me a movimentos desordenados, a estertores, solavancos, caretas e contorções. Deixa-me os olhos arregalados e turvos de lágrimas. O corpo todo dói.
A noite é o seu tempo de rainha. Odeia me ver dormir. Mas a luz do dia não inibe seu exibicionismo. Prefere os momentos em que preciso de calma e concentração. Tira-me do sério.
Não entendo o que ela diz, essa estrangeira. Emite sons de fera enlouquecida. Grunhidos de monstro de outro mundo. Nada nela faz sentido. Não sei a que vem, nem por qual motivo vai embora.
Meu pânico se antecipa ao seu ataque. Já me dou por vencido ao menor sinal de sua presença. Não adianta qualquer reação. Por isso continuo escrevendo, mesmo sabendo que agora mesmo ela vai entrar em erupção.
Não suporto mais esta tosse seca.

Ilustração obtida em: nautilus.fis.uc.pt