08 junho 2008

Cara nova


Enquanto físicos, filósofos, psicanalistas e poetas não chegarem a um acordo a respeito do tempo, vamos sempre ter problemas ao falar dele. Ontem mesmo, conversando com Glória a respeito da idade de uma apresentadora de televisão, lembrei que a cara antiga dela era bem diferente da nova cara que víamos agora na televisão. Vejam bem, neste pequeno exemplo, a confusão que dá falar do tempo. A cara de antigamente era de uma pessoa nova. É, portanto, uma cara velha. A cara nova é a cara de uma mulher sábia e rodada, que se apresenta como novidade.
Perde-se no passado a cara nova que um dia já tivemos. Emerge da velha pele a nova cara que o tempo nos fabrica. Se gostamos ou não da nova cara, se aceitamos ou não a novidade, não é problema do tempo. O operário silencioso molda nossas máscaras à nossa revelia. E vinga-se dos que tentam mascarar o seu trabalho. A todos nós, sujeitos passivos do tempo, resta o trabalho de contemplar a cada dia as novidades que o espelho nos revela.


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01 junho 2008

O poema roubado

São muitos os destinos dos poemas. Coração na chuva, um poema meu, feito quase de brincadeira, foi roubado. O ladrão é um cara de uns dezesseis anos, da Oficina de Leitura de Mandacaru. Desde que foi lido, o poema fez o maior sucesso entre a moçada. E o cara estava apaixonado por uma menina do grupo. Coisa séria e sabida por todos. Um dia, a menina trouxe uma cópia do poema diagramado por ela no computador, ilustrado por dois corações em chamas. Daí, ele passou a dizer que o poema era dele. E, na maior cara de pau, afirma que fui eu que roubei e publiquei no livro o poema que ele fez.
Acho que a forma simples e direta do poema cai no gosto da turma. Ele é assim:

Os olhos do meu amor
são muito grandes
e chovem.
E o meu seco coração
fica secando os olhos dela,
querendo se molhar nos olhos dela.
Eu digo ao meu coração: esquece.
Meu coração não está nem aí.
Meu coração está lá,
debaixo dos olhos dela,
dos enormes olhos dela
que chovem.
Que chovem muito,
deixando meu coração ensopado,
encharcado,
resfriado de amor.


Dos muitos destinos dos poemas, coube ao Coração na chuva servir de brinquedo a um amor adolescente, fornecendo juntos, amor e poema, um pouco de leveza ao mundo tenso em que se encontraram.

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22 maio 2008

Nossas senhoras



Eu fui fazendo vista grossa, deixando para a semana que vem e de repente minha casa virou um inferno de pequenos defeitos.
Comecemos pelo muro da frente e vamos contando pela ordem dos cômodos. O interruptor da campanhinha estava quebrado pela enésima vez, pois um maluco dá um murro nele toda vez que lhe é negada uma esmola. O portão automático estava fora do trilho, com a fechadura emperrada e uma das placas magnéticas danificada. Na certa tentaram arrombá-lo. Na área de serviço, a máquina de lavar, uma torneira e uma telha transparente esperavam conserto. Na cozinha, o gelágua parecia ter queimado o motor. O micro de apoio só ligava quando bem queria. O aparelho de ar condicionado do quarto estava com o compressor furado.
Podem não acreditar, mas esta revolta geral das coisas se concentrou numa única semana. O suficiente para deixar claro quem manda aqui em casa.
Tem pra mais de trinta anos que escrevi um poema sobre o poder que as coisas têm sobre nós. Veja que coisa singela:
O direito das coisas
meus óculos
meu relógio
minha caneta
minha maquina de escrever
meu carro
meu copo gravado com meu nome.

meus livros
meus discos
meu toca-discos
minha calça listrada
meus tamancos
minha carteira profissional.

as coisas a que pertenço
exercem sobre mim o seu direito
dando-me forma e movimento
determinando o que sou
mantendo a ilusão de que são minhas.

Quando escrevi o poema, não tinha a menor idéia do que me esperava pela frente. As coisas ainda disfarçavam a sua ascendência sobre mim. Hoje, elas jogaram suas máscaras fora. Exercem abertamente sua tirania e não perdoam qualquer tentativa de insubordinação.

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18 maio 2008

Meia hora


Todo mundo tem medo de alguma coisa. André tinha medo de meia hora. Seu analista chegou a interpretar que ele temia perder a virilidade. Por isso lhe dava pavor o ponteiro dos minutos totalmente voltado para baixo do mostrador. Erro freudiano. André também tinha medo da meia hora em relógio digital.
A coisa era tão séria que, ao ver o ponteiro se aproximar do tempo fatal, ele tirava o relógio do pulso e ia se esconder em um lugar seguro. Só voltava quando já fosse qualquer hora e trinta e poucos minutos.
Não sabia muito bem o que poderia lhe acontecer de meia em meia hora. Mas a coisa era automática. Uma ponta de angústia lhe tomava o peito e ele já sabia. Nem precisava olhar o relógio. Prendia a respiração, fechava os olhos, controlava o tremor das pernas para depois ver tudo ir embora junto com o ponteiro em direção ao trigésimo sexto minuto.
Poeta famoso no quarteirão onde mora, André costumava ser reconhecido pelas meninas da vizinhança como aquele rapaz delicado que fazia versos de amor muito bonitos. Foi por isso que Marcela sentou junto dele na sorveteria e pediu: faz uma poesia pra mim. Olha, são quatro horas. Daqui a meia hora eu volto pra buscar.
O problema não era o prazo, pois André vivia treinando umas rimas para ocasiões extraordinárias como essa. O problema era a hora. Pegou o guardanapo, traçou as catorze linhas do soneto, mexeu um pouco para disfarçar o plágio, ficou uma beleza. Ainda admirava a obra quando começou a sentir o aperto no peito. Marcela não podia encontrá-lo assim, tremendo, resfolegando, suando as mãos. Correu para o banheiro.
Quando voltou, Marcela já saía pela porta da sorveteria. O relógio marcava quatro e trinta e cinco.
Clube do Conto da Paraíba, 17.08.2008
Imagem obtida em brandusblog.blogspot.com

15 maio 2008

Revisitando Millor





"Até aqui me ajudou o Senhor", disse o crente suicida ao passar pelo décimo andar, depois de se jogar do vigésimo.

Tristes tempos estes, em que os crentes se suicidam.

imagem obtida em investclub.blogspot.com

11 maio 2008

Estação Mandacaru


08 maio 2008

Ainda é maio


Não sei o que Dôra Limeira estava fazendo em maio de 68, ou antes e depois dele. Sei que ela tem o hábito de usar a bolsa com a alça cruzada no peito, sinal de que ela já levou muita carreira da polícia. Agora, eu sei bem o que Dôra estava fazendo no fim da tarde do dia quatro de maio de 2008. Estava participando da Marcha da Democracia, junto com a filha e o namorado desta. Quero só esclarecer que esta marcha foi organizada como protesto à proibição pela justiça de uma marcha anterior a favor da legalização da maconha. Vamos deixar a própria Dôra dizer o que viu, do alto dos seus setenta anos:
“Havia muitos jovens, muitas cores, sorrisos, brincadeiras e palavras de ordem. Era muita a energia que ali estava canalizada. Portavam e exibiam toscos cartazes em cartolinas, com mensagens escritas com pincel atômico. O que queriam aqueles jovens assim irmanados naquele momento, naquele espaço? O que diziam aqueles cartazes e faixas rústicas, algumas, podia-se ver, confeccionadas em casa? (...) Queriam eles que fossem respeitadas as suas opiniões, seu direito de ir e vir, queriam falar, dizer. Queriam sorrir, jogar fora mordaças, bradar por liberdade de manifestação.
“(...) No entanto, em dado momento, percebi um tumulto se formando em torno do carro de som. O que seria? Policiais de trânsito e policiais militares anunciaram que o carro não podia prosseguir, alegavam irregularidades burocráticas.
“Aquilo foi mesmo que jogar água fria na fervura. Mas a turma acatou, mesmo que a contragosto, fazer o quê?. A turma era gente do bem. Fariam a festa ali mesmo, em volta do carro, os microfones ligados, a música tocando, a multidão dançando no meio da rua. Não haveria a caminhada, mas apenas um protesto. Gentes sentavam no asfalto, encenavam mordaças, alguns iniciavam coros dizendo abaixo a repressão, democracia sim. Mas as autoridades só queriam truculências, tumultos. Policiais desligaram o som do carro, repuxaram fios, danificaram a instalação e fizeram um cinturão em torno do carro de som, como quem diz aqui ninguém encosta mais. Exacerbaram-se os jovens, até então muito calmos. Os policiais disseram ‘vamos levar o carro’. Os jovens disseram que não. Um rapaz se deitou na frente do carro para impedir, os policiais arrastaram o corpo do rapaz para que saísse da frente à força. Os policiais extrapolaram em suas posturas e levaram o carro embora. Vi quando os policiais espancaram um moço. (...) Ouvi impropérios, gritos de ‘abaixo a repressão’, insultos de lado a lado.
“De repente, que horror. Tropa de cavalaria invadiu a rua, os cavalo’s se postaram em posição de atacar. A turma se irmanou (...). O hino nacional avançou nas vozes afinadas dos manifestantes. Os cavalos ameaçaram pisotear todos. Vi repentinamente quando os animais avançaram na multidão, bombas de efeito moral explodiram. Meninos, rapazes e moças, senhores e senhoras, anciãs e anciãos correram atabalhoados para escapar das patas dos animais. Entrei em pânico, todos entraram em pânico. Algumas pessoas tentaram se proteger entrando nos bares, os cavalos entraram também nos bares, uma multidão correu para a areia da praia, tentando se proteger, os cavalos invadiram a areia galopando atrás da multidão. Eu não via mais nada, sabia apenas que precisava correr muito na areia. Finalmente, senti braços protetores em meus ombros e ouvi alguém me dizendo palavras de conforto. Era minha filha e o namorado dela falando comigo. Alguns rapazes desconhecidos também me cercaram em gestos de proteção.
Dôra está aí para nos lembrar que ainda existe maio. Que a chama que se alastrou pelas ruas do mundo em 68 ainda não se extinguiu. Ela ainda arde nos corações de pessoas como Dôra, prontas para ir às ruas com a alça da bolsa cruzada no peito, dispostas ao que der e vier.

01 maio 2008

O poema e o créu



O que pode um poema contra uma foto de Andressa Soares, a mulher melancia, na capa da Playboy? Para os pouquíssimos que ainda não sabem, a garota é aquela que fez o maior sucesso no último carnaval, e depois dele, agitando os 121 centímetros de diâmetro de sua bunda na famigerada dança do créu. Ela já deu entrevista no Jô, já apareceu no Casseta & Planeta, tornando-se figura obrigatória em qualquer aglomerado de celebridades.
Numa demonstração cabal da importância cultural que a mulher melancia alcançou, a revista com o seu imenso glúteo na capa foi lançada na livraria Nobel, em um Shopping do Rio, com sessão de autógrafos da própria fotografada. A foto está aí, para não me deixar mentir.
Uma das minhas preocupações com a garotada da oficina de leitura que ajudo a tocar no Bairro de Mandacaru, em João Pessoa, é com o nível das letras de música que eles, principalmente elas, cantam nos intervalos entre as atividades. É pornografia no seu nível mais direto e grosseiro. Sem metáforas ou meias-palavras. Isto sem falar na coreografia que ilustra os temas das peças musicais.
Constatando que de nada adiantava a minha reprovação verbal a cada demonstração áudio-visual, resolvi pedir que as meninas trouxessem as letras das músicas, com a intenção de fazer um paralelo entre o seu conteúdo e alguns poemas eróticos de autores como Drummond ou Bandeira, ou gente mais nova, como Marta Medeiros, Márcia Maia ou Vitória Lima. Ainda não posso relatar o resultado da experiência, pois ela ficou programada para o próximo módulo. Prometo prestar contas assim que tiver algum resultado, seja ele qual for.
Mesmo que não consiga muita coisa, sei que o meu trabalho irá se somar ao de muitos outros viciados em esperança. É muito pouco o que pode fazer um punhado de agentes sociais bem intencionados contra o poder de fogo das grandes redes de comunicação de massa. A luta é desigual. O créu está ganhando. Mas o poema insiste, como um mosquito da dengue.

28 abril 2008

Um problema adiado


Existe vida após a morte, afirmam crentes de vários credos. Acho que a frase está invertida. O certo mesmo é que existe morte após a vida. Não vejo nenhum sentido, por exemplo, em receber, depois de morto, um camisolão branco e uma lira para cantar loas eternas ao Criador. Por maior que seja a paciência divina, um dia Ele enxotaria o bando de puxa-sacos para o andar de baixo.
Muito menos aceito a idéia de que exista um mundo um pouco acima do nosso, em tudo idêntico ao nosso, de onde os mortos dariam palpites em nossa vida. Se é para continuar a fazer o mesmo que fazemos em vida, pra quê, me digam, morrer?
Isto sem falar na hipótese da transmigração, em que eu posso voltar a este mundo na forma de algum animal, vegetal, ou mesmo mineral. Claro que sentiria um certo orgulho em ter sido a pedra inspiradora do célebre poema do Drummond, mas não me sentiria muito bem sendo a barata de Clarisse Lispector.
Talvez o leitor esteja perguntando o motivo dessas digressões sobre a morte. É que andei meio doente esta semana e me botei a pensar no que aconteceria depois da minha morte. Claro que não me preocupei com os sobreviventes. Mais cedo ou mais tarde, eles se acostumariam com minha ausência e continuariam tocando suas vidas. O problema maior era comigo.
É impossível para qualquer pessoa pensar o mundo sem a sua presença. Freud já dizia que não há representação da morte em nosso inconsciente. Pela razão pura e simples de que ainda não tivemos a experiência da morte. Pelo menos da morte deste eu que insistimos em idolatrar. De minha parte, tenho a maior dificuldade em me imaginar vivo depois da morte. Por mais que seja eu que esteja vivo, serei sempre um eu... morto. E se houver reencarnação não serei, ainda bem, o mesmo desta vida.
Felizmente, começo a semana bem melhor de saúde. Posso deixar este problema para mais tarde. Bem mais tarde, espero.
Imagem obtida em: harpad.com.sapo.pt

21 abril 2008

O tempo que não passa


Tem um tempo que passa e um tempo que não passa. O tempo que passa é o tempo dos relógios, das noites e dos dias. O tempo que não passa é o tempo congelado daquilo que não logrou virar palavra.
Cada um de nós tem um tempo que não passa. Um tempo de que não se fala. Tempo de um tempo em que ainda não tínhamos acesso à fala. Um tempo de fragmentos, de restos desarticulados de imagens e ruídos sem sentido. Um tempo cansado de não passar.
Tempo em que as coisas aconteceram sem o amparo das palavras. Por isso, as coisas são dardos cravados na carne, de onde, doendo, fazem sinal em forma de angústia. Por isso, este é um tempo que insiste em se contar, para de uma vez por todas deixar de doer, tornando-se passado.
A humanidade também tem um tempo que não passa. Tempo em que não tínhamos mais do que inferno e horror. Tempo em que ainda não tínhamos as palavras com que falar de inferno e horror aos nossos descendentes. E quando a carne se fez verbo, foi este tempo sem memória que inventamos em volta das fogueiras. E na falta da memória, criamos mitos.
É fácil agora entender porque, desde as cavernas, falamos tanto, grafamos tanto, insistindo loucamente em marcar nossa passagem pelo mundo. Temos certeza da morte. Sabemos que vamos passar. Mas, antes, queremos lançar no mundo dos signos – para que passe - o que trazemos em nós deste tempo que não passa. Para que de inferno e horror não reste mais do que as palavras que os nomeiam.

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14 abril 2008

Às vezes dá certo


É difícil dar certo. Homem e mulher raramente dão certo. Chego a pensar que vivemos com o par de uma outra espécie animal. Como se na hora de fechar a porta da arca, o orangotango macho ficasse vendo a cobrança de pênalti do seu time no último minuto da prorrogação e a fêmea do chipanzé estivesse em dúvida sobre o que usar no primeiro dia da viagem. Sem poder esperar mais, Noé considerou como casal os dois representantes das espécies parecidas e levantou âncora. Algo assim aconteceu com o homem e a mulher. Senão, porque cada um dos gêneros tem um nome diferente?
Daí a estranheza entre os casais dos ditos humanos. Nenhum dos dois se comporta segundo as expectativas do outro. A questão sobre as tampas das bacias sanitárias é uma das melhores provas da nossa incompatibilidade. A diferença entre as capacidades de perceber as nuances das cores é uma demonstração cabal de que não temos uma origem comum.
É este desencontro pré-diluviano que provoca a necessidade de homens e mulheres se reunir em separado. Você já viu um bando de tatus ficar no bar até tarde discutindo futebol? Já teve notícias de três ou quatro jaguatiricas tagarelando no banheiro?
Cada homem e mulher carrega uma certa nostalgia pela ausência do verdadeiro par. Por isso gostamos tanto de animais de outra espécie. Talvez adivinhemos neles alguns traços do objeto perdido.
Sei que esta hipótese sobre o desencontro originário carece ainda de respaldo científico. Mas não é coisa difícil de provar. Homem e mulher estão com o par da espécie errada. Mas às vezes dá certo. E é muito bom quando dá certo.

06 abril 2008

Gênesis


E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas. G. 1:2.


Abriu os olhos sem saber onde estava. E ficou sem saber, pois estava envolvido pela escuridão. As costas doíam. Sentiu que estava deitado sobre tábuas. E as tábuas flutuavam. Os ouvidos vieram em seu auxílio e informaram que estava em alto mar. Não quis se mover. Não sabia a extensão das tábuas. Teve medo de cair no abismo das águas.

Não tinha como ver passar o tempo. Não havia tempo, portanto. Em um momento, porém, o tempo se inaugurou. Uma luz diáfana manchou de repente o que até bem pouco era treva. Não é mais de noite. Já é dia. Agora já pode contar o tempo. Isto é bom.
Com a luz, pôde ver as águas em que sua precária jangada flutuava. Olhando para cima, viu os grandes armazéns de água que deixavam o mundo cinzento. Mas sabia que além do cinza, havia a grande expansão dos céus.
Sob a pouca luz, seus olhos custaram a ver uma ponta de terra para onde as ondas empurravam sua jangada. E seu coração se abalou quando viu as ramagens da salsa caroba cobrindo a parte seca da areia da praia. E depois da salsa, o capim. E depois do capim, as árvores e nas árvores os frutos com que mataria sua fome.
Foi sob as árvores que viu se dissiparem as nuvens, mostrando um sol já em declínio. E ainda com o clarão do sol, ele viu uma lua cheia, garantia de que não voltariam as trevas. E com a lua vieram as estrelas que lhe contaram do lugar onde estava e em que estação do ano se vivia.
Com o novo dia vieram os pássaros. Com as águas claras, vieram os peixes. E depois veio o gado pequeno e grande, vieram os bichos que se arrastam no chão e os mais fugidios e ferozes. A tudo ele via, de tudo se servia, mas o seu coração estava triste. Estava só.
E, de tão só e triste, dormiu. Dormiu soluçando. Dormiu com frio. Mas quando acordou, um lado do seu corpo estava quente. Deste lado estava outro corpo, um pouco diferente do seu. Os dois corpos estavam nus. Mas não havia vergonha em seus rostos. O amor criava ali um novo mundo, criando novamente aqueles dois. Macho e fêmea os criou.

Clube do Conto da Parahyba, 5 de abril de 2008
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30 março 2008

Contatos imediatos


Não sei quem são eles. Nunca os vi. Mas deixaram duas mensagens no muro da minha casa. Os muros de toda a vizinhança também estão manchados com esses caracteres indecifráveis, que gritam alguma coisa que não consigo entender. Um enigma que me faz uma exigência de decifração. Nossos muros se transformaram em versões pós-modernas da Pedra do Ingá.

Numa dessas minhas andanças vagabundas, passei pela porta de uma casa em que um menino, dos seus dez anos, mostrava aos amigos um caderno de papel pautado em que treinava este tipo estranho de caligrafia. Dizia, com evidente orgulho, que estava entrando na turma de um certo fulano, e que dali a pouco participaria de uma pichação. Isto nos permite um começo de entendimento. Saber fazer aquela caligrafia significa pertencer a uma turma, ter um grupo com que se identificar no esforço de desligamento necessário do círculo estreito da família.
Pelo tipo de grafismo e por certos sinais particulares, cada grupo deixa sua assinatura, numa espécie de disputa pela parede mais alta, pela marquise mais perigosa, pelo local mais desafiador, arriscando-se mesmo à violência e à morte pelos proprietários dos imóveis atacados.
O que essas inscrições neo-rupestres me sugerem é a existência de um imenso e concreto vazio nos indivíduos e nos grupos. Um vazio que se expressa na falta de um sentido lógico nas suas mensagens. Formalmente, existe um certo requinte gótico nos caracteres, deixando claro que não é uma expressão anárquica. Participar dela exige disciplina, como prova o menino com seu caderno.
Talvez nem mesmo os autores dessas mensagens saibam o que elas queiram dizer. Talvez fiquem tão perplexos quanto eu frente à sua obra. Uma coisa, porém, é certa: eles querem fazer contato conosco através dos nossos muros. Para comunicar o quê? Uma ameaça? Um pedido de socorro? Um grito de desespero?

Ilustração obitda em: dobispo.zip.net/images/ttsss.GIF

23 março 2008

Derivas


Os judeus celebram a Páscoa em memória da libertação da escravidão no Egito. Os cristãos comemoram a passagem para o novo tempo que a ressurreição do cristo anuncia. Liberdade, renovação. Que sentido fazem estas palavras fora do seu contexto estritamente religioso e litúrgico?
Um olhar mais atento sobre o mundo nos mostrará que a única liberdade visível é a que se anuncia como liberalidade do mercado. E todos sabemos o quanto isto tem acentuado a desigualdade entre os países e aprofundado a distância entre as classes. Quanto à renovação, ela se dá do ponto de vista estrito das mercadorias, o que nos empurra para um processo alucinado de consumo.
A humanidade ainda não conheceu a Páscoa. Somos todos errantes. Vivemos à deriva num deserto ético em que só os sistemas religiosos parecem apontar alguma salvação. E nisto reside a nossa miséria e nossa esperança. Miséria, porque todo o nosso percurso histórico ainda não conseguiu prover a humanidade dos instrumentos tecnológicos e ideológicos necessários a uma convivência de bonança e harmonia. Esperança, porque alguns desses sistemas religiosos apontam para certas saídas éticas que contemplam uma convivência na diversidade.
Judeus ou cristãos, muçulmanos ou budistas, pagãos ou ateus, nenhum de nós conheceu ainda a liberdade ou a renovação. Vivemos todos ainda à espera de uma Páscoa que nos resgate a todos deste êxodo em que ainda não vislumbramos nenhuma terra prometida. E enquanto esperamos a Páscoa, reconheçamo-nos humildemente como seres de incertezas e derivas. Que a humildade seja o nosso único ponto em comum. No mais, cada um que derive a seu modo.
O cuidado maior, enquanto derivamos, é não dar ouvidos aos que apregoam suas crenças como caminhos exclusivos para a salvação. Todos temos o direito de escolher se e como queremos ser salvos.
Ilustração :"Le Radeau de la Méduse", de Théodore Géricault (1791-1824).

13 março 2008

O fim do mundo


Há muito tempo assisto o fim do mundo. Uma certa parte do mundo, aquela em que vivo e vivi, padece de uma lenta e permanente agonia. Já se foram quase todas as casas em que morei. E junto com elas se foram as pessoas que ali moraram comigo. Os bairros de minha infância e juventude sofreram uma torção que os tornaram monstros de si mesmos. Não sei mais onde gastei a sola dos meus sapatos. Não reconheço as ruas que doeram em meus olhos e ouvidos.
Quanto mais vivo, mais despovoado fica o meu mundo. Inúteis muitos dos números de telefones em minha agenda. Ninguém mora mais ali, ninguém mais me espera neste bar, ninguém mais adivinha a hora em que os copos estão sendo trazidos para a mesa do terraço.
Não tenho mais circunstâncias. Eu sou eu e um grande vazio em volta. E o anjo do vazio espera pelo único acontecimento que o torne completo, perfeito, sem falha. O anjo do vazio espera por mim neste vazio. Para decretar definitivamente o fim do mundo. Deste mundo que ainda insisto em manter com minha mísera presença.
Mas ainda haverão de esperar anjo e vazio. Porque ainda tenho memória. Ainda sei como são os homens. E a memória me fornecerá o molde com que forjarei novas presenças. Breve terei um mundo mínimo com o qual recomeçar.
Clube do conto da Parahyba.
13.03.2008

Ilustração obtida em: br.geocities.com

07 março 2008

Os santos tombados




Um homem entrou na Catedral de São José dos Pinhais, no Paraná, e quebrou quase todas as imagens do templo. Cumpria ordens de uma voz interior.
Uma equipe da Prefeitura de Salvador demoliu o Terreiro de Candomblé Oyá Unipó Neto, quebrando quase todas as imagens e os objetos rituais. Cumpriam ordens de um prefeito evangélico.
O homem de São José dos Pinhais foi reconhecido como louco e enviado para um hospital psiquiátrico. Os homens de Salvador e o seu mandante estão sob investigação do Ministério Público da Bahia.
Um estado alterado de consciência pode justificar um ato individual de vandalismo. Não há nada, porém, que justifique o vandalismo oficial, claramente motivado pela intolerância fundamentalista usurpadora do poder democrático.
Tombados ao rés do chão, os santos católicos inspiram a piedade dos homens com o vândalo desvairado. Da mesma forma tombados, os santos negros exigem a justiça dos homens para os desvarios do poder.

03 março 2008

Ritos matinais


Apanhar a fruta podre
cheirar o podre da fruta
devolver a fruta ao chão.


Juntar pedaços de sonhos
escutar a voz dos sonhos
devolvê-los ao porão.

25 fevereiro 2008

O BICHO RÓI-RÓI



Repara que nas tuas horas mortas
tu sentes se mover dentro de ti
uma coisa que até agora
não sabias o nome.

Mas hoje eu vou te revelar
o nome disto que te come:
é o bicho Rói – Rói.

Ele se alimenta dos fios da tua alma,
deixando-a rota,
em frangalhos.

Ele rói tuas lembranças, teus segredos.
E os teus mais belos sonhos
ele rói-rói-rói.

E o vazio que ele deixa é que te dói.

19.02.2008
Ilustração obtida em www.qpira.com.br

21 fevereiro 2008

Todas as cores


Na última vez que vi Balula, eu estava saindo da Funjope e ele ia chegando. Conversamos um pouco e, quando eu ia dando partida no carro, ele recomendou: bota o cinto.
Na penúltima vez que vi Balula, ele falou que era avó da minha neta, por conta de uma forte ligação afetiva com Ivan, marido da minha filha. Aí eu falei pra ele: cuidado que o lobo-mau pode comer você. Ele respondeu: Deus te ouça.
Balula era assim, cuidadoso e irreverente. Quando a gente se juntava para jogar conversa fora, a tema preferido era sobre os várias nomes que o preconceito dá aos os negros. O que a gente preferia era “cidadão de cor”.
Hoje, me dou conta que Balula é exatamente isto. Um cidadão de cor. De todas as cores. Como um arco-íris. Um pouco puxado para o lilás.
Balula foi-se embora no meio de um eclipse. A lua vestiu luto fechado pela sua morte. Mas o luto durou pouco, pois logo-logo a lua voltou com um brilho maior. Tinha recolhido um dos seus filhos mais reluzentes.
De hoje em diante, quando olharmos para a lua, vamos notar que em vez da palidez costumeira, ela mostra a cara pintada de todas as cores. As cores de Balula. Sempre um pouco puxado para o lilás.
Foto: Mano de Carvalho

17 fevereiro 2008

Máscara



Não gostava daquela pessoa que o olhava no espelho. Custava crer que fosse ele essa pessoa. Pessoa, persona, máscara. É isto que olha para ele. Uma máscara. Simulacro de si, que se diz ser ele. Um faz de conta que os outros cumprimentam pelas ruas, simulam respeito e esperam ver pelas costas para fazer mesuras, estirar a língua, acenar gestos obscenos.
Não gostava do que via, mas ao mesmo tempo temia o que poderia existir além daquela máscara. Que anjo, que monstro, que bicho espreitaria por trás daquele rosto inexpressivo e pálido?
Se arrancasse agora esta máscara, tinha certeza que os olhos restariam os mesmos. Pois eles eram estranhos ao resto do seu rosto. Seus olhos o olhavam com a estranheza de quem está no rosto errado. Eram esses olhos que davam a certeza de que aquela cara não era a sua.
Não suportava mais olhar o rosto que o olhava do espelho. Queria ver-se a si próprio. Para além da máscara. Para o detrás daquela aparência atônita e perplexa. Queria ver o verdadeiro contorno dos seus olhos. Era por amor a seus olhos que estava pronto a se desmascarar.
Pegou uma lâmina afiada e traçou uma linha funda no contorno do rosto. Enfiou os dedos por dentro da pele da testa e puxou com toda força. Sentiu sem horror a pele se despregar do seu rosto até ter toda a máscara pendente de uma das mãos.
E antes que seus olhos se cobrissem do sangue que borbulhava da testa, pôde ver a outra máscara que insinuava uma verdade ainda mais atrás.

Clube do Conto, 16 de fevereiro de 2008.


Ilustração obtida em: tantodemim.blogs.sapo.pt/arquivo/z-mascara.jpg

06 fevereiro 2008

Reicharlesson



Ele não gostava desse nome, mas nunca disse isso à sua mãe. E ela nunca lhe contava direito o motivo de chamá-lo assim. Uma vez dizia que era o nome de um cantor estrangeiro que ela gostava muito, outra vez que era um artista de cinema, mas sempre daquele jeito apressado de quem não está gostando do assunto. E somente para não aumentar a aflição dela, nunca perguntou quem era seu pai.
Quando fez dezoito anos, tomou uma decisão. Ou ela contava toda a verdade, ou ele ia embora de casa. Com tal ameaça, ela não teve outro jeito. Nunca tinha fumado na frente do filho. Mas dessa vez, não dava pra agüentar. Acendeu um cigarro, deu uma puxada profunda, soprou a fumaça em direção ao teto e ainda assim, com os olhos pregados nas telhas, deu dois pigarros curtos e contou.
Lá pelo ano de 1963, eu trabalhava em São Paulo, numa casa de família em Moema. O pessoal da casa era muito bom comigo. O marido era médico, a mulher era socióloga, mas tinha saído do emprego para cuidar das duas filhas. Os dois eram muito inteligentes e gostavam de ouvir música de toda qualidade. Era ele quem mais usava o aparelho de som. Tinha rádio, toca-discos, gravador de rolo, muitas fitas e muitos discos. Eu gostava muito quando ele passava da conta na bebida e botava uns discos antigos para tocar. Vicente Celestino, Carlos Galhardo, Orlando Silva, essa gente. E quando ele bebia um pouco mais, aí é que a coisa ficava boa. Mesmo que a mulher não gostasse, ele se juntava com um amigo da Paraíba para ouvir Jackson do Pandeiro bem alto. Mas quando estava bom, o doutor gostava mesmo era de musica fina.
Não estou enrolando você não. Isso faz parte da história do seu nome. Foi porque os dois gostavam de boa música que eles fizeram o possível e o impossível para arranjar ingresso para a única apresentação de um cantor americano numa televisão de São Paulo. E o nome desse cantor era Rei Charles. Quando eu fiquei sabendo o dia e a hora do show, combinei com o meu namorado para ir lá pra casa. Ele foi. Aí, para saber a hora em que ele devia ir embora, liguei a televisão onde o tal show estava passando. E foi ali, no sofá da sala, as meninas dormindo no primeiro andar, que a gente fez você, ouvindo aquele cego cantar de um jeito que dava vontade de chorar.
Quando eu já não podia mais esconder a barriga, contei tudo à minha patroa e voltei para ter você aqui. Quem botou esse nome em você foi o amigo do meu patrão, num domingo em que eles estavam bebendo. Eu não entendi porque eles ficaram achando graça do seu nome, pois eu gostei muito. Me lembrava um momento muito bom da minha vida.
Reicharlesson sentiu que sua mãe ia chorar. Por isso não perguntou mais nada, mesmo sabendo que aquele era o melhor momento para perguntar quem era seu pai. Levantou da cadeira com cuidado, caminhou devagar para o quarto e se deitou na cama, ouvindo a voz tristonha da mãe que cantava na sala: “Ai quenstop loviniu”. Reichalesson pegou no sono soluçando.

Clube do Conto, 06.02.2008

28 janeiro 2008

Morta



Morta, sim. Dona Mocinha sabia que aquela ali não vivia mais. Uma alma veio avisar a ela no meio de um cochilo que deu. Esperou o menino acordar e contou: dessa vez tua mãe morreu de verdade, menino. Vai acordar teu pai.

25 janeiro 2008

Morte, mangas e cajus


Kessi Jones tinha nove anos. Saiu com dois irmãos e um amigo e foram apanhar frutas num sítio ali perto de casa. Digo apanhar frutas em vez de roubar, pois é natural dos meninos tirar frutas do pé, trepando nas árvores ou jogando pedras. Eu já fiz isso com meus irmãos e amigos e nunca me chamaram de ladrão.
Acontece que o mundo em que Kessi Jones vive não tem mais quase nada do mundo em que eu vivi. O mundo de Kessi Jones é impiedoso. E foi sem nenhuma piedade que o dono do sítio atirou na nuca de Kessi Jones.
E tem mais. O menino não morreu na hora. Mas assim mesmo foi colocado num carro e transferido para um lugar que não levantasse suspeita sobre os criminosos. O dono do sítio não estava só quando atirou.
Quando o pai de Kessi Jones foi avisado do crime, correu até o local. Tudo o que encontrou foram alguns cajus, umas mangas e uma poça de sangue.

20 janeiro 2008

O olhar dos amantes

Para Ana Lia e Flávio

Somos seres saudosos. Arrastamos pelo mundo o desejo do reencontro com a outra metade do andrógino da qual fomos apartados.
Somos seres de falta. Carregamos dentro de nós um vazio que pesa pelo que não carrega. E vasculhamos o mundo ávidos de encontrar quem nos livre do peso preenchendo esse vazio.
Somos seres famintos. Sentimos fome de um outro, não qualquer outro, mas de um que ao mesmo tempo seja nós.
Terrível deus, o dos amantes, que nos larga no mundo cegos e sozinhos, condenados a buscar, na cegueira e na solidão, a parte que nos foi negada desde a origem.
Mas como todos os deuses, o deus dos amantes também é bom. Bom e travesso. Pois ele mesmo nos dá a chave para sairmos do reino da fome, da falta e da saudade. Ele nos deixa gravada na retina, mesmo que nada saibamos dela, a imagem do ser que suprirá a nossa falta. E um dia, em um lugar qualquer, a qualquer hora, alguém irá surgir à nossa frente e se amoldará à imagem que trazemos na retina. E o trabalho do deus ficará completo se o outro nos trouxer também no fundo dos seus olhos.
O encontro dos amantes é feito deste reconhecimento. E o amor se manterá durante o tempo em que o outro se confirmar como aquele que nos foi destinado pela divindade travessa.
Queira esse deus que os amantes que hoje celebramos se reconheçam a cada dia, até que o tempo dissolva suas retinas e, com elas, a imagem do ser amado.

Praia do Cabo Branco, 19 de janeiro de 2008.

11 janeiro 2008

Modo de apanhar pássaros à mão


Neste livro de contos, Valéria lança o seu olhar maduro sobre as múltiplas possibilidades do ser no mundo, num estilo também multifacetado, em que a mão firme garante a presença forte da voz que dita as palavras.
O título do conto que nomeia o livro foi tirado do Lunário Perpétuo, de Jerônimo Cortês, editado em Portugal há mais de dois séculos, com informações de utilidades várias. Uma delas versa sobre o modo de apanhar pássaros à mão, muito útil aos poetas e lunáticos em geral.
Não entendi muito bem quando soube que o livro foi premiado com o selo de Altamente Recomendável para Jovens, conferido pela Fundação Nacional de Literatura Infantil e Juvenil. Pois li os contos de Valéria com meus olhos de adulto, os mesmos que devoraram o seu romance O vôo da guará vermelha. Depois fui perceber que cada página do livro está embebida em uma porção mágica de palavras que nos deixa atordoados, prontos para sermos apanhados, como meninos ou pássaros, pelas mãos sedutoras de Valéria.

05 janeiro 2008

Mudando de casca



















Não sei de outros bichos, mas a cobra e a cigarra, numa certa altura da vida, abandonam o invólucro de seus corpos e partem para novas jornadas, como quem troca de roupa. Não sou íntimo de cobras nem de cigarras, mas desconfio que elas devem sentir um certo incômodo até se livrarem da roupa velha e um certo desconforto até se habituarem com a roupa nova.
Não sei se estou mais pra cobra ou pra cigarra, o certo é que me sinto atualmente como quem está trocando de casca. Pelo estado geral do humor, devo estar exatamente no momento intermediário em que a casca velha já se despregou, mas a nova casca ainda não atingiu a consistência protetora necessária. A carne ao vento, o nervo exposto.
Claro que metaforizo. As marcas do tempo em minha pele continuam cá, indeléveis. A casca é outra. E bem mais grossa. Foi forjada pelos dias, meses, anos, décadas em que ouvi, aprendi, falei e fiz todas as coisas que me disseram que tinha de ouvir, aprender, falar e fazer para conseguir minimamente a satisfação de minhas necessidades.
Com o passar do tempo, porém, à medida em que supria minhas necessidades, descobri que também tinha direito a realizar meus sonhos. E gastei um bom tempo da vida aperfeiçoando o malabarismo de mesclar sonhos com necessidades.
Vivendo-se num mundo como o nosso, cedo ou tarde se aprende que existe uma máquina louca criando eternamente novas necessidades. Os sonhos, não. Os sonhos são criações nossas. E cada um de nós deve se responsabilizar pela realização de seus sonhos.
Largo, pois, no chão, a velha casca das antigas necessidades e espero paciente que se encorpe a nova casca com a qual deixarei meu rastro pelo chão, como cobra, e lançarei meu canto de vidro das copas das árvores, como cigarra.

Imagem obtida em
www.cicado.com/images/cicada-sunset

22 dezembro 2007

A espiral do tempo




Alguns pensam que o tempo é uma linha reta. Começa-se num determinado ponto e segue-se em marcha batida para onde nos indica a flecha. Para outros, o tempo é um grande carrossel, em que os cavalinhos tangem infinitamente os mesmos lugares.
Cada um tem o direito de pensar o tempo como achar melhor, mais conveniente. Para mim, a melhor imagem do tempo é a da espiral. Como aquelas escadas que sobem como um caracol e dão medo de cair a quem olha pra baixo.
Alguns mais cultos chamariam, a escada e a figura geométrica, de helicoidal. Mas não há tempo para sermos cultos: o tempo é uma espiral, e pronto. E o que ganhamos com essa imagem do tempo em espiral? Que vantagem tiramos em subir (ou descer) pelo tempo dando voltas e sentindo vertigens?
As vantagens, sugiro eu, são exatamente as voltas e as vertigens. Se o tempo é uma espiral, a cada volta sua não passamos exatamente pelo mesmo lugar. Se estamos subindo, passamos mais acima. Se descemos, passamos mais abaixo. Para cima ou para baixo, haverá sempre uma novidade a nossa espera. Subindo ou descendo, nosso corpo se afetará tanto com o movimento quanto com a novidade. Daí a vertigem, daí a sensação de redemoinho, de mar agitado que o tempo às vezes nos traz.
Mas nem sempre é tempo de novidade e vertigem. Existem momentos de calma e repetição que merecemos desfrutar. É um tempo assim que eu desejo para você nas festas de Natal e Ano Novo. Em paz, na sua casa ou fora dela, com as pessoas queridas de sempre.
E se alguém ou algo novo se insinuar neste tempo, que esse novo seja acolhido na calma repetição dos momentos de confraternização que aprendemos a viver com nossos antepassados e teimamos em transmitir aos que sobreviverão a nós.

imagem obtida em
www.mat.uc.pt/.../conchas/imagens/helicoidal.png

16 dezembro 2007

Albatroz



Numa oficina de leitura, o menino viu pela primeira vez a palavra albatroz. Ela estava escrita no poema Navio Negreiros, de Castro Alves. O menino perguntou o que era albatroz e ficou sabendo que é um pássaro que vive no mar, junto aos navios. E que é desengonçado quando está no chão e muito desastrado quando pousa ou levanta vôo. Mas quando voa, o albatroz é uma das aves mais belas. É como os poetas, ouviu o menino. Desastrados na vida cotidiana e belos quando planam com as asas das palavras.
Alguns dias depois, o menino diz que viu um albatroz na televisão. Não o vira voando, mas parado no chão. Estava excitado com o aprendizado. A partir daí, toda a sua inibição com a leitura desapareceu e ele se apropriou dos versos em que o poeta pede: “albatroz, albatroz, dá-me tuas asas”.
A experiência do albatroz me fez lembrar das muitas palavras que conheci antes das coisas que nomeavam. E muitas vezes o conhecimento da coisa fez perder o encanto da palavra. Foi muito grande a decepção que tive quando soube do verdadeiro significado da palavra corolário. A coroa colorida que imaginava desapareceu para dar lugar a uma decorrência lógica.
Felizmente, não foi isso que aconteceu com o albatroz. A coisa vista reafirmou a beleza da palavra. Mais felizmente ainda, não foi só essa palavra, nem só este menino que se encontraram na oficina de leitura. São muitos os meninos e meninas, são muitas oficinas espalhadas pelas periferias das cidades. E precisam ser muitas, pois são muitas as palavras que voam por aí, procurando lugar para pousar. Primeiro nos olhos, depois nas almas dos meninos e meninas, ávidos de palavras.
Vejo cada jovem destes como um albatroz. Desengonçado no trato com o mundo, desajeitado nas tentativas de decolagem, mas belo e gracioso quando alça vôo com as asas mágicas da palavra.

10 dezembro 2007

Grandes são os desertos






Para Maria Valéria Rezende.

“Grandes são os desertos, e tudo é deserto.”
Transborda para o deserto argelino a voz do almuadem que soa no alto da torre de Beni-Isguen chamando os fiéis para a primeira oração do dia: Allahu akbar. E todos saem dos seus leitos para reafirmar que não há outro Deus senão Alá. E Maomé é seu único profeta.
“Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes – desertas porque não passa por elas senão elas mesmas. Grandes porque ali se vê tudo, e tudo morreu.”
Resvala para além das serras que cercam o deserto cinzento a voz do vaqueiro. E o seu canto não tem palavras, pois não canta para os homens. É para os bois, as vacas, os garrotes e os bezerros que ele lança o seu encantamento. E como Deus também não precisa de palavras, toma para si como um louvor a melodia que ondula até os céus. E de muito acima das serras, Deus contempla desolado aquela vastidão deserta, incrédulo de que a tenha criado. As almas que ali habitam são desertas de esperança. E são grandes apenas porque guardam este grande deserto dentro delas.
Por mais que o diabo o tente, Deus se nega a fazer qualquer milagre que mude a cor deste deserto. Tentando mais uma vez escrever certo por linhas tortas, manda vir do outro deserto, onde é louvado como Alá, uma gota de esperança antes que venham as chuvas. E a voz do almuadem entrega à voz do vaqueiro a boa nova de que, em breve, ali chegará uma mulher para tornar menos árida aquela terra.

imagens obtidas em:
gooutside.terra.com.br/.../vaivirarmar1_90.jpg

09 dezembro 2007

Cintilações de um palheiro




O que melhor diferencia o ser humano das outras espécies é a sua aptidão para a fala. E uma das coisas que dá mais prazer a certos membros da espécie humana é a oportunidade de falar mal dos seus semelhantes.
Eu me considero, neste aspecto, um homem de sorte. Desde o ano de 2001, de dois em dois anos, Waldir me entrega os originais de um novo livro, com carta branca para cortar, emendar e sugerir alterações no texto. Isto significa que, a intervalos regulares, eu posso falar mal de Waldir a pedido dele próprio. É o paraíso dos maledicentes.
Para meu desgosto, porém, a cada novo livro de Waldir vai ficando mais difícil o exercício desta arte que me é tão cara. Ele vem escrevendo cada vez melhor, com mais apuro, com mais economia. Esta evolução pode ser constatada pelos próprios títulos dos seus livros de poesia: Cantos da Vida de amar – Poemas e Solilóquios (2001), Amor que sai do casulo (2003), O Avesso da Pele (2005).
Quando Waldir me entregou os originais de Palheiro Cotidiano, dizendo que se tratava de contos e crônicas, meu coração, maldoso, exultou: teríamos novamente muito sobre o que falar. Mas ficamos a mingua, os dois. Como já disse na orelha do livro, “neste Palheiro Cotidiano cintilam agulhas preciosas que não fazem nenhuma questão de permanecer escondidas. Encontram-se muitas em cada página. São imagens, conceitos ou simples palavras que se entregam aos nossos olhos, como crianças pequenas brincando de se esconder.”

Convido, pois, todos vocês, a aceitar este livro como um presente que Waldir Pedrosa Amorim nos dá neste fim de 2007. E que as suas histórias, lembradas ou inventadas, venham se mesclar ao nosso repertório de boas memórias. E com isso nos tornemos, todos, pessoas melhores, tão boas como Waldir e seus escritos. Assim, creio, daremos bons motivos para que o mundo fale bem de nós.

Waldir Amorim

02 dezembro 2007

O dia da criação




E no sétimo dia, descansei... Antes de prosseguir, temos que estabelecer com exatidão qual é o sétimo dia da semana, para sabermos quando, de fato, descansei. Tem religião que acha que é o sábado, o que cria sérios problemas comerciais e trabalhistas. Certos viciados acham que se deve trabalhar todo dia. Outros, não menos viciados, acham que não se deve trabalhar dia nenhum. O protestantismo incipiente do meu pai e o catolicismo de conveniência de minha mãe me ensinaram que o dia de descanso é o domingo. Mesmo que em alguns calendários os domingos encabecem as semanas, não acho um bom exemplo cívico começar a semana descansando.
Dia bom, o domingo, pelo menos até as últimas horas da sua tarde. A partir daí, começa a apertar uma espécie de melancolia, uma ponta de angústia, um certo pesar, quase um luto pelo dia que acaba. É nessa hora que conhecemos a verdade do domingo. Não descansamos nada. Durante todo o dia fomos objeto de um trabalho silencioso, feito à nossa revelia, em que se compacta todo o afã que se desdobrará em cada dia da semana vindoura.
Domingo. O verdadeiro dia da criação.

24 novembro 2007

Vergonha


Cubra as vergonhas, dizia minha avó com seu forte sotaque português. Tenha vergonha na cara, zangava meu pai ao menor deslize meu. Deixe de ser sem-vergonha, disse a namorada à primeira deriva da mão. Pra que tanta vergonha, disse a mulher feita a quem pela primeira vez me mostrei nu.
E agora me vejo neste sonho em que tento cobrir as vergonhas, mostrar ter vergonha na cara, sentir vergonha das intenções das mãos e perder, por fim, a vergonha de estar nu. E assim, despido de panos e vergonha, passeio pela praça a meia luz, alheio aos olhos dos passantes.
Saio das sombras do sonho e me deparo comigo sozinho na cama. Sem o conselho da avó, sem a zanga do pai, sem a reprimenda da namorada nem o deboche da mulher sabida. E choro, choro muito, choro pela enorme vergonha de estar só.

Imagem obtida em: podcast.lucianopires.com.br/.../vergonha.jpg

15 novembro 2007

Inveja


Não. Eu não quero um parecido. Nem um igual me serve. Eu quero esse. Exatamente esse que você tem na mão.
Não. Eu não quero emprestado. Eu quero pra mim. Nem quero dividir com você. Eu fico com ele e você fica sem nada. Só assim me serve.
Pra que eu quero? Pra nada não. Só para ter, mais nada.
Não. Não é pra mostrar. Pois se eu mostrar, um outro vai querer ter. E eu não vou dar. Quero pra guardar num lugar que ninguém veja. Num lugar bem escondido, onde ninguém possa nem passar por perto.
Num lugar longe da minha vista, para que eu não me lembre dele a todo instante. Até que eu me esqueça do lugar do esconderijo. E com o tempo, eu esqueça do que escondi.
Aí, sim. Distante da cobiça alheia, guardado da minha própria cobiça, ele vai ser apenas meu.
Pois eu já o terei esquecido.

Clube do Conto 15.11.2007

Ilustração obtida em:www.homestead.com/artsoul/Envy.jpg

08 novembro 2007

Texto sentido



Para Lau Siqueira

Um tênue manto envolve a pele do poeta.
Tecido de palavras ditas e a dizer,
esconde o corpo do poeta à cobiça da morte.

Engodo inconsútil,
finge proteger das asperezas do mundo
mostrando-se flagelo de enigmas
claros e escuros.

O poeta não vê,
não ouve,
não cheira,
não tateia
nem sente sabor.

O poeta sofre o peso do seu manto
e dele suga as palavras
que matam a sua fome de sentido.

Ronaldo Monte
08.11.2007

26 outubro 2007

opaco




O estranho objeto se anuncia por uma vaga inquietação que me acompanha horas. Ainda não é uma presença, mas emite leves sinais de um lugar além de mim.
O estranho objeto se insinua nos diversos momentos do meu dia. Volto a cabeça e quase o surpreendo em alguma dobra do tempo que me cerca.
A coisa estranha insiste em não estar. Resiste em ser presença, bastando-se promessa. Ausência que me espreita, tocaia prestes a ser escaramuça.
Submisso ao que não é, cativo de uma espera, espreito a coisa opaca retida na fronteira. E na espera torno-me objeto do objeto. Coisa da coisa. Outro de mim e do outro.
E assim, opacos, eu estranho e a coisa estranha, ensaiamos uma possibilidade de presença no esboço de sombra que lança no chão a luz da lua.
Ilustração obtida em www.cosmobrain.com.br

21 outubro 2007

As fronteiras do sonho


Você sabe que eu sou um pesquisador. Um psiquiatra respeitado que não confunde as coisas da ciência com as da imaginação. E por dever de ofício, dou o nome certo aos fenômenos psíquicos. Mais ainda, como todo cientista correto, tenho absoluta certeza de que um dia todos os fenômenos ditos psíquicos serão explicados através de mecanismo puramente orgânicos. Chamar qualquer coisa de psíquica é apenas revelar ignorância quanto a sua origem. Qualquer asno sabe que psiquê significa alma no velho idioma grego. E alma pode ser tudo, menos um conceito científico.
Faço este preâmbulo para você não duvidar de que mantenho meu espírito científico em vigília, para que não ponha em dúvida minha lucidez enquanto relato o fato a seguir.
Não sei se você sabe o que significa a palavra hipnagógico. Em poucas palavras, para um leigo como você basta dizer que se trata de um estado associado ao entorpecimento que precede o sono. Aquele momento em que as coisas da realidade se confundem com as produções do seu cérebro já cansado e confuso. Uma espécie de fronteira entre a vigília e o sono. Por exemplo: você está lendo um livro e, de repente, uma frase inteira vem se imiscuir no texto impresso, desvirtuando o seu sentido.
Pois bem. Estava eu lendo um artigo científico sobre as novas formas de tratamento cirúrgico para a eliminação dos impulsos homossexuais quando, entre as últimas linhas da página, apareceu uma frase esquisita dizendo “você ainda não percebeu que estou no seu quarto”. Tomei um susto e a frase desapareceu. Logo depois, entre as primeiras linhas da página seguinte, leio com clareza: “se você olhar para o espelho vai me ver.” Sem querer, foi sem querer, juro, olhei para o espelho da penteadeira e vi, juro como vi, o rosto mais bonito que jamais vira em toda minha vida. E naquele momento nada mais me interessava a não ser ter para mim não apenas o rosto, mas todo o corpo que lhe sustentava com graça e beleza. O estranho é que, para meu desespero, era o rosto de um homem. Um efebo, imberbe, quase um menino, mas um homem.
Sou um cientista, não esqueça. Nenhuma experiência, por mais estranha que seja, me intimida. Antes, me incita a elucidar os seus enigmas. Foi por isso que mergulhei no espelho, passando para um território de ar espesso e chão movediço por onde me movia com o peso de um escafandrista. Em nenhum momento avistava o vulto que me atraía, mas sabia a direção do lugar onde por certo me esperava. Tinha a certeza disto por um aceno afirmativo que me faziam as pedras. Nuvens escuras corriam em minha direção, quase à altura da cabeça, dando-me conta do passar do tempo. Um tempo de angústia pela busca infrutífera do objeto do meu desejo. Guiado pelo vôo das aranhas, cheguei às margens de um lago de águas límpidas, mas que não deixavam ver o seu leito. Não tinha mais a fazer do que mergulhar e descer ao fundo das águas que por fim me ejetaram ofegante para fora do espelho da penteadeira do meu quarto.
Não esqueça que eu sou um cientista. Por isso sei muito bem o que significa o termo hipnopômpico. Para seu governo, é aquele estado semiconsciente que antecede o despertar. Foi nesse estado que eu ainda vi, com grande tristeza, o rosto belo e terno me acenar um adeus do outro lado do espelho.
Imagem obtida em www.cexantequera.com

18 outubro 2007

memória das águas








Para um quadro de Veruschka Guerra


Das águas me ergo menina
saudosa de leitos antigos.


Das águas me assusto já moça
saudosa de leitos futuros.


Das águas levanto esta dona
de leitos, de rios, de mares.


Ronaldo Monte
18.10.2007

A idade do poeta






Ao poeta Sérgio Castro Pinto

O poeta faz sessenta anos.
Bons vinte e um mil e novecentos dias
viveu o poeta.

O poeta faz quarenta anos de poesia.
Catorze mil e seiscentos dias
escreveu o poeta.

Somam-se cem anos de vida e poesia.
Trinta e seis mil e quinhentos dias
desabam sobre o poeta.

O poeta sobrevive.

Pois um poeta não se mede em dias.
O sonho é a medida do poeta.


Ronaldo Monte
18.10.2007

Redução de danos


A idéia de redução de danos é relativamente nova e encontra muita resistência na opinião pública em geral e em muitos dos agentes diretamente envolvidos em programas de saúde pública.
Eu mesmo confesso que fiquei espantado quando ouvi falar pela primeira vez que as agências governamentais de muitos países gastam dinheiro para oferecer mais segurança aos usuários em suas relações com as drogas.
Mas quando se sabe que ao fumar uma pedra de crak num cachimbo de pvc achado no lixo o viciado pode ser vítima da leptospirose, vê-se que é uma ação de saúde pública fornecer um cachimbo adequado, acompanhado de um batom para evitar que os lábios desidratados rachem, deixando a vítima a mercê do vírus da aids ou da hepatite.
Muitas doenças transmissíveis podem ser evitadas com a distribuição de seringas de uso pessoal entre os usuários de drogas injetáveis. Muitas intoxicações podem ser evitadas se os viciados em maconha usarem o papel de seda para enrolar seus cigarros, em vez de papel sujo ou pedaços de jornal.
É aí que reside a lógica do programa: a recuperação de um viciado em drogas é lenta, dolorosa e muitas vezes impossível. Enquanto não se alcança tal objetivo, resta-nos evitar que os indivíduos se exponham a situações adicionais de risco.
À medida em que nos acostumarmos à idéia da redução de danos, perceberemos que todos nós, humanos, precisamos de ajuda adicional para sobreviver neste ambiente hostil a que foi reduzido o universo das nossas relações. Precisamos inventar novas ações que nos protejam dos danos que causamos uns aos outros.
Foto recolhida em www.arpnet.it

30 setembro 2007

Acoisa pior



Você não podia ter dito coisa pior comigo. Até aqui eu suportei tudo o que você fez e disse a mim e de mim.
Nunca esqueci o dia em que você copiou a minha prova e disse à professora que eu tinha colado de você. A professora acreditou. Levei zero.
Pediu meu canivete emprestado e não devolveu. Me deu um golpe no treino de luta livre sem avisar para eu ficar em guarda. Aproveitou que eu estava no gol, deu um nó na minha camisa e mijou em cima. Fez não sei quantas camas-de-gato quando eu estava distraído, conversando com a turma.
Depois você disse a seu pai que eu tinha emprestado a revista que você levou para o banheiro. Ele me proibiu de ir na sua casa e ainda contou pro meu pai. Não apanhei, mas fiquei de castigo.
Mais tarde você foi dizer à minha primeira namorada que eu tinha contado tudo que tinha feito com ela no cinema. Ela nem falou comigo. Acabou o namoro com um recado.
Há pouco tempo, pediu para eu fazer um empréstimo e não me pagou, sujando meu nome no Serasa. Depois eu vi você pagando uma rodada de cerveja para um bando de vagabundos.
Cantou minha mulher, vomitou no meu sofá bateu com o meu carro. De tudo isso eu desculpei você. Mas você não podia ter dito ou feito coisa pior comigo. Me chamar de irmão é um insulto que eu não agüento.

Ronaldo Monte. Clube do Conto, 27.09.07


Ilustração obtida em portal.educ.ar

27 setembro 2007

O melhor dos mil dias


O governo da Cidade das Acácias, a capital da Paraíba, está comemorando mil dias de trabalho. Já fui redator de propagada e sei o quanto uma boa campanha publicitária pode fazer pela imagem de um governo. Por isso, não vou fazer referência a nenhuma obra física da atual administração municipal. Porque de tudo o que foi feito, o que mais me encanta é o respeito que os motoristas passaram a ter com os pedestres que atravessam as faixas. Bastou uma campanha de alguns dias. O resultado foi imediato.
Antes que algum apressado venha perguntar como um comportamento social pode ser classificado como uma obra governamental, explico que a conduta das pessoas, individual ou em grupo, refletem a relação dessas pessoas com o poder público. O respeito dos motoristas reflete o respeito com que vêem ser tratado o bem público desta cidade. E a confiança dos pedestres de que os veículos respeitarão a sua presença na faixa, reflete a confiança no estímulo à cidadania dos que governam a cidade.
Aos que não concordam com este raciocínio, peço que analisem os exemplos negativos nas relações dos cidadãos com outras esferas do poder.
E para quem ainda acha que estou falando bobagem, sugiro que experimente a cumplicidade cordial na troca de olhares entre o pedestre e o motorista no breve tempo do atravessar da rua. Eu já experimentei os dois lados da cena. Nos dois lados me senti gratificado como cidadão.

22 setembro 2007

Massapê

O oleiro achou engraçada aquela figura que andava por cima da ribanceira do rio com uma das mãos estendida levando alguma coisa que não sabia ainda o que era. Parou a roda do torno com o pé, e ficou esperando. A figura veio vindo, veio vindo e se mostrou um menino já meio taludo, as calças curtas molhadas, com um montinho de massapê na mão estendida, como quem pede esmola.
O menino ficou assim por um bom tempo, até que os seus olhos chegados da luz se acostumassem às sombras daquele lugar. Um teto de telhas escuras vai se abaixando até ficar quase da altura de um homem. No meio do calor do meio-dia, ali fazia uma friagem gostosa que vinha do monte de barro molhado descansando no chão. Montadas nas prateleiras, arrumadas nos cantos das paredes, muitas, muitas peças ainda cruas, curando, perdendo a água que ainda lhes resta, esperando a vez da sua fornada. Dependendo de onde vinha, o cheiro era diferente. Do monte de barro molhado vinha um cheiro parecido com o que ele sentiu lá na beira do rio. Do lado da parede onde descansavam as peças o cheiro era seco, lembrando alumínio. Juntando tudo, o cheiro do lugar lembrava o da cozinha da sua casa. Faltava o cheiro da comida. Mas o cheiro das cinzas por debaixo das panelas de barro em cima do fogão da sua casa estava ali. O menino só não sabia onde. E ficou meio perdido nesse cheiro, nessa quase catinga que morava no fundo da sua memória e se mudava para ali.

Tu qué o quê, Massapê?
O senhor deixa eu cozinhar esse peito no seu forno? Que história de peito é essa, Massapé? Isso é somente um pedaço de barro. Não é não, o senhor vai ver. Botou a porção de barro na roda de cima do torno, sentou afobado no banco alto de madeira e tentou alcançar com o pé direito a roda de baixo. Mas a perna era curta, ficou remando no ar. O oleiro teve vontade de rir, mas não riu. Trabalhe só com as mãos, pode ser que saia alguma coisa que preste. E se afastou em direção à sua casa ali perto, como se procurasse não se sabe o quê.
O menino olhou para a massa, agoniado. Não sabia o que poderia fazer com o peito de barro da sua mãe. Deixou então que suas mãos trabalhassem sozinhas, que batessem e amassassem o barro para que o ar saísse das bolhas, até que ele ficasse macio; que catassem na massa os grãos de areia, os restos de mato ou qualquer outra sujeira; que fossem apertando o barro entre os dedos e as palmas, beliscando a massa, arredondando com cuidado suas bordas, passando água por dentro e por fora para ficar lisinho, até que tinha entre as mãos uma tigela em forma de peito.
O oleiro voltou quando sentiu que o menino tinha acabado sua obra. O que é isso agora, perguntou. É o mesmo peito de minha mãe, só que agora eu vou poder mamar nele. Tudo que eu beber daqui em diante vai ser nessa tigela que eu mesmo fiz com o peito que eu trouxe de dentro da terra, de um lugar em que minha mãe sofria de agonia e eu saí de lá deixando ela morrer em paz. Aí ela me deu esse peito, para que eu sempre me lembre dela, para que eu carregue pro resto da vida essa parte do corpo que ela nunca me deu.
E nele eu vou beber o leite que minha mãe me negou, que meu pai enterrou, que a terra engoliu, que o barro me devolveu. E foi com essas minhas mãos que eu botei de novo no mundo o peito que o mundo me levou.
Do romance Memória do fogo. Editora Objetiva, 2006.

18 setembro 2007

Virar Moça




Uma vez, uma mulher do riacho perguntou meio debochada: tu já virou moça, menina? Não sabia o que era virar moça. Sabia naquela hora que não podia ser uma coisa boa, pois todas as mulheres pararam de areiar as panelas para rir de minha cara encabulada.
Virar moça, virar moça... Minha mãe devia saber o que era, pois me contava histórias de homem que vira lobisomem, de mulher de padre que vira mula-sem-cabeça, de mulher corcunda que vira serpente quando fica velha. Quando cheguei em casa, fui direto pra cozinha e disse: mãe, uma moça do riacho perguntou se eu já tinha virado moça. Eu já virei? Ainda não, respondeu ela. Quando virar, você mesma vai saber. Agora vai cuidar de tuas coisas que eu tenho mais o que fazer.
Virar moça... O nome da minha vó é Dona Mocinha. Mas não acho que a mulher do riacho perguntou quando é que eu vou ficar velha. Ela perguntou se eu já tinha virado moça. Moça, que eu saiba, é uma mulher nova que ainda não chega a ser mulher. As moças que eu conheço têm mais corpo do que eu, têm as pernas mais grossas, a cintura mais fina e têm os peitos grandes. Os meus ainda não nasceram. A não ser que eu chame de peito esses carocinhos que estão aparecendo. Um dia eu vinha do riacho com o vestido molhado colado no corpo e um homem safado que bebia cachaça no balcão da venda gritou: olha as pitombinhas dela. Daqui a pouco ela vira mulher. Aí é que eu fiquei embaraçada. A mulher do riacho diz que vou virar moça. O homem da venda diz que vou virar mulher. Alguma coisa, na certa, estou virando. Pois este corpo de menina parece que não está dando mais em mim.
Ai esse corpo que não se aquieta. Esse formigamento nas pernas, essa agonia nas juntas, essa vontade de chorar não sei por que. Ai essa vontade de gritar, de cantar, de ficar muda pelos cantos. Ai esse calor que não passa, esse suor leitoso nessa cama que ficou pequena pra meu corpo. Ai essa coisa molhada e peguenta entre minhas pernas. Meu Deus, eu me cortei? Alguma coisa se rasgou dentro de mim? Que sangue é esse que sai do meio de minhas coxas? Mãe, me acuda, me acuda minha mãe, que eu estou sangrando.
A mãe chegou, me entregou uma toalhinha e disse sem olhar na minha cara: bota isso entre as pernas. Não tome banho frio, não faça trabalho pesado, não fique muito no sol, não passe nem perto de um pé de limão. Agora você virou mulher, já pode ter filho.
Então, o homem da venda ganhou. Minha mãe disse que eu virei mulher. Mas eu queria ter virado moça. Queria ter peito grande, duro. Queria ter coxa grossa, cintura fina. Queria ir no cinema, namorar, dançar bolero. Mulher, eu não queria ser não. Mulher é feia, tem peito mole de tanto dar de mamar aos filhos.Não tem cintura de tanto que pariu. Mulher não sai da cozinha, não se penteia, não dá passeio. Mulher é uma coisa triste. Eu não. Eu quero ser moça.
Do romance Memória do Fogo. Editora Objetiva, 2006.

11 setembro 2007

Marcela, a morta viva


Marcela já era bonita.Mas queria ser mais. Daí que vendeu o carro, tirou empréstimo, torrou o cartão de crédito e fez uma reforma geral. Fez lipo, fez peeling, mexeu no nariz, botou um tantinho de silicone, salpicou aqui e ali um pouco de botox e pronto: Marcela ficou belíssima. O resto era com seu personal training e o regime draconalfaciano.
Aí começou a acontecer uma coisa esquisita com Marcela. Passou a ter a impressão de que ninguém mais a via. Sua empregada servia o café da manhã com o olhar perdido para além das paredes da copa. Decidiu almoçar em self-service depois que os garçons do seu restaurante favorito começaram a passar por ela sem atendê-la. Os seguranças do condomínio abriam os portões sem ao menos olhar para dentro do seu carro. As amigas,embora a tratassem bem ao telefone, deixaram de convidá-la para as festas. E os homens, meu Deus. Os olhos dos homens, para quem tinha feito todo este sacrifício, atravessavam seu corpo como se ela fosse um fantasma.
Um fantasma, é isto. Acho que morri. Por isso as pessoas não me vêem, não me notam. É isto, morri e ainda não me dei conta. Já tinha lido alguma coisa assim numa revista esotérica.
Era uma hipótese viável, mas algumas evidências mostravam que ainda estava viva. Mesmo sem olhar para ela, a moça da butique ainda tinha paciência suficiente para tirar e repor nas araras todos os vestidos que ela pedisse. Seu dentista, mesmo com o olhar alheio, não deixava de roçar-se no seu braço direito enquanto a imobilizava na cadeira. A fatura do cartão de crédito era uma testemunha irrecusável de sua presença encarnada neste mundo.
Tinha que procurar ajuda, mas de quem? Estava devendo ao analista, não queria aumentar mais a conta. Claro que não era louca de entregar um prato feito destes a nenhuma amiga. Tinha que ser um homem. Um amigo de confiança que possuísse uma virtude rara entre os homens: a de entender uma mulher. André. Só podia ser André. Pela coleção de namoradas que exibe com modéstia, ele deve entender muito de mulher. Além de tudo é poeta de poesia sutil, de quem cultiva uma certa alma feminina. Só pode ser André. Foi procurar André.
Escuta, Marcelinha, falou André, montado em sua estatura de poeta, o olhar lançado por cima da morta viva. Escuta, meu amor: você já deve ter ouvido falar de que certas pessoas, por conta das funções subalternas que exercem, se tornam invisíveis aos olhos das pessoas das classes sociais superiores às delas. Isto acontece com os faxineiros, os porteiros, os entregadores de pizza...
Mas eu não sou porteira, nem faxineira. E nunca entreguei pizza. Eu nem gosto de pizza. Irritou-se Marcela. E não me consta que divorciada seja uma profissão subalterna. Minha pensão não é de se jogar fora. Eu toda não sou de se jogar fora.
O problema é exatamente este, meu anjo, retomou André, ainda olhando para um certo ponto no horizonte. Você é bonita demais. E arrematou com o que Marcela não gostaria de ter ouvido: você não existe.